"E vossos meninos, de que dissestes: Por presa serão; e vossos filhos, que hoje nem bem nem mal sabem, ali entrarão, e a eles a darei, e eles a possuirão."
"Bem-aventurado o homem que põe no SENHOR a sua confiança e que não respeita os soberbos, nem os que se desviam para a mentira."
Por vezes nos vemos em dias de crises existenciais. As dúvidas se levantam e nos encurralam de forma a nos imobilizar por um tempo, e para este tempo deve ser escolhido as melhores opções para passá-lo. O melhor sempre será a reflexão diante dos preceitos de Deus.
Servir em busca de justiça e verdade para preservação da sociedade que deixaremos para nossos filhos e netos? Mas Deus cuida dos nossos descendentes e é o Senhor da história e das eras. Ele não encontra limites para seu Poder e ação. De toda forma, somos impulsionados a sermos agentes do Reino de Deus neste tempo, convocados a ser sal e luz para este mundo, sendo povo de Deus. Mas, diante de tantas autoridades e lideranças com valores e princípios pervertidos, como atuar para a COmissão que Deus nos entregou?
Quando William Shakespeare, em Hamlet, uma tragédia escrita em 1599, levanta esta famosa frase "Ser ou não ser? Eis a questão...", há em seu personagem um profundo conflito existencial, pois o príncipe Hamlet pensa em vingar a morte de seu pai, o rei Hamlet. Este foi morto pelo próprio irmão que, após o assassinato tomou o trono e casou-se com a rainha, mãe do príncipe Hamlet. A peça explora temas sensíveis como traição, vingança, corrupção e moralidade.
Não se faz diferente a vida cristã. Os desafios oriundos da vivencia diária como cristão, em um mundo absurdamente corrompido em sua base, em especial no século XXI, onde até mesmo o conceito de Deus se perverteu na sociedade, e a consciência da Pessoa de Deus dificilmente se alcança, mesmo dentro das instituições que são chamadas igrejas, nos consomem em uma profunda confusão entre pensamentos filosóficos e teológicos deturpados.
O que somos afinal? O que almejamos como seres viventes? Como se perdeu os conceitos humanamente alcançáveis de verdade, justiça, de beleza? Como não se há mais a instigação à desejar-se o que verdadeiramente é bom, ou, ao menos, se aproxima disto?
Penso que pela trivialidade de uma vida comum, que busca apenas realizações materiais e afetivas, o cristianismo atual, perdeu-se totalmente. Não por ter sido mudado a pessoa do Cristo de Deus, ou a pessoa do Eterno e Único Deus que se revela em Três Pessoas (Pai, Filho e Espírito Santo), mas pelo fato de que aqueles que conduziram a ciência sobre Deus, que seriam usados para apascentar a fome dos sinceros filósofos ateus que buscavam com afinco a verdade absoluta, se perderam em suas gananciosas vaidades teológicas achando que a teologia alcançaria o pleno entendimento da Pessoa do Infinito Deus.
Se somos cristãos, servos do Deus Altíssimo, nos conformamos com a Sua Revelação e nos atentamos a buscar discernir naquilo que Ele nos revela claramente, e naquilo que o Senhor cala na revelação, temos apenas que nos dobrar humildemente na dúvida e nos submeter aos percalços. Assim como Paulo, que ousada e humildemente disse em Filipenses 4.13: "Posso todas as coisas naquele que me fortalece." Paulo escreve esta carta, provavelmente, em seu primeiro aprisionamento em Roma (aprox. 60-62d.C.), mostrando assim que a condição de servo e seguidor de Cristo nos põe em um nível muito mais elevado do que a simples aceitação daqueles que nos cerca. Não é a aceitação ou a aprovação social que conduz o cristão, mas a certeza de estar em Cristo todas as suas escolhas de vida, sabendo que a glória dEle é que é buscada e não a nossa.
Fatalmente seremos algo nesta vida, mas a condição e a forma mais excelente de "ser" nesta período terreno é ser aquilo que o Senhor nos chamou a ser, apesar das consequências. Consequências estas que virão inevitavelmente, mas as consequências deverão espelhar o nosso Senhor, dentro do contexto que estivermos. Se estivermos em uma sociedade absolutamente pervertida e decidida a afrontar o nosso Deus, estaremos em perseguição; Se estivermos em uma sociedade a perverter-se e carente de ser iluminada com bons valores e princípios, estaremos em luta pela verdade e justiça; Se estivermos em uma sociedade submetida a uma cultura que nos eleva em valores de justiça, verdade e beleza, seremos prósperos e deveremos somar para a perpetuação dos valores que vem de Deus.
As implicações de nossas crenças nos colocam em posturas objetivas diante de certos desafios. Seja na escola, na faculdade, no trabalho, no clube, ou em qualquer círculo que estivermos, o que cremos é o que nos conduz na escolha do que vamos fazer e dizer. Dentro dos textos que temos nas Escrituras Sagradas sobre dons, há um que me chama muito a atenção por não determinar exatamente o que seria os dons, mas em nos comissionar a pensar em todas as nossas atividades como sendo para a glória de Deus.
"Cada um administre aos outros o dom como o recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus. Se alguém falar, fale segundo as palavras de Deus; se alguém administrar, administre segundo o poder que Deus dá, para que em tudo Deus seja glorificado por Jesus Cristo, a quem pertence a glória e o poder para todo o sempre. Amém!" 1Pedro 4.10,11
Seja no falar, seja no administrar, o "fazer" é condicionado a glorificar a Deus. Observar os frutos do "fazer" de cada um, é possível observar a que está a glorificar: A Deus ou a homens!
Se a decisão de "ser" foi tomada no sentido de ser aquilo que o Senhor quer que sejamos, ou seja, se já há uma decisão pessoal de aceitar o senhorio de Cristo sobre a sua vida, então há uma decisão irrevogável de se "fazer" aquilo que Cristo Jesus deseja na sua vida. Para tanto, a decisão de "ser" cobra do decidido de conhecer aquilo que ele deseja ser, e, com relação a ser cristão, as Escrituras Sagradas são o caminho mais curto deste conhecimento, somado, claro, à comunhão como Igreja (que é diferente de amizade ou clube de afinidades), desta forma o "fazer vai se configurando naturalmente, a medida que se escolhe morrer para o mundo, e viver para Deus (Romanos 6.8-14; Gl 2.20).
Assim como o "ser" é uma condição inevitável, também o "fazer" é inevitável. Se estamos vivos, consequentemente estamos fazendo algo. Seja ativamente ou passivamente, estamos a fazer algo de acordo com o que cremos, mas em que cremos? A omissão talvez seja o que mais atentamente devemos nos preocupar. Em Tiago temos avisos quanto a omissão. Considerando que o que deseja "ser" em Cristo, e não mais no mundo, busca nas Escrituras os preceitos para a vida, ele torna-se conhecedor dos preceitos de Deus que o separa, ou santifica, do mundo, recebendo assim a incumbência de viver uma vida que glorifica a Deus através de seus atos e decisões. Assim, duas orientações de Tiago são objetivas:
"E sede cumpridores da palavra e não somente ouvintes, enganando-vos com falsos discursos. Porque, se alguém é ouvinte da palavra e não cumpridor, é semelhante ao varão que contempla ao espelho o seu rosto natural; porque se contempla a si mesmo, e foi-se e logo se esqueceu de como era. Aquele, porém, que atenta bem para a lei perfeita da liberdade e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecido, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito." Tiago 1.22-25
"Aquele, pois, que sabe fazer o bem e o não faz comete pecado." Tiago 4.17
Assim sendo, o "ser" e o "fazer" para quem decidiu seguir a Cristo, tendo-O como seu Senhor e Salvador, está de forma diretamente proporcional interligados. Certo é que não haverá uma retidão absoluta na vida do cristão, visto que a perfeição jamais será encontrada em nenhum daqueles que o seguem, mas, apresentado ao seu erro, assim como o exemplo de Davi e de tantos outros, o cristão deve arrepender-se continuamente de seus erros e voltar-se para o Senhor. Um exemplo neotestamentário é o publicano Zaqueu, que ao receber Jesus em sua casa e, percebe-se implícito no texto, em sua vida, teve um ato de arrependimento e restituição diante de seus pecados de abusos como servidor público daquele tempo, determinando em seu coração que restituiria a todos quanto havia defraudado:
"E, levantando-se Zaqueu, disse ao Senhor: Senhor, eis que eu dou aos pobres metade dos meus bens; e, se em alguma coisa tenho defraudado alguém, o restituo quadruplicado." Lucas 19.8
Mas, e o que fazer? O que decidir diante de tantas opções e possibilidades? Qual o caminho de ações a se tomar em momentos em que as circunstâncias se erguem contra nossa consciência e desejo de fazer algo?
Não é possível uma definição exata da religião de William Shakespeare, autor da peça Hamlet. Há uma maior possibilidade de ele ser Católico Romano, mas esta tese tem perdido força ultimamente. O fato de perder força em um contexto de pós-cristianização do mundo, me leva a crer mais fortemente que ele era realmente cristão, confesso. Mas na sua peça, o conflito levantado para a pergunta que inicia o título deste artigo: "Ser ou não ser?", define que havia valores excelentes em conflito. Justiça, vingança, moral, são exemplos de questões que as mentes mais puramente angustiadas pela profundidade da vida buscavam.
Hamlet acaba assassinando o tio que assassinou seu pai, e há várias análises da personagem Hamlet, tanto do ponto de vista psicanalítico, por Freud, que usa toda a sua perversão sexual em esta análise, dizendo ser Hamlet desejoso da mãe e que gostaria de ter feito o que o tio fez para tomar o trono e a sua própria mãe como esposa; como também há uma análise filosófica deste personagem o colocando como um relativista, incrédulo, um pessimista e um fatalista; também há uma análise política que o faz como um "político florentino" que buscava uma restituição e manutenção cívica pela sua atuação direta, como estadista, sendo duro e obstinado em cuidados contra traições; enfim, as perspectivas observadas de Hamlet podem variar em diversos sentidos, mas como falei no início, prefiro reflexões diante dos ditames e preceitos de Deus.
Como um cristão, diante de arroubos imorais, no que diz respeito ao distanciamento de uma ética cristã, decidir o que fazer passa a ser uma necessidade constante em todos os aspectos da vida. O dia-a-dia passa ser o desafio constante para cada um que decide pelo senhorio do Senhor Jesus, visto que, comumente, o ser humano comum, criatura de Deus, busca os caminhos mais fáceis de conquistas e manutenção de uma vida confortável. Como dizia um amigo missionário, ex-paraquedista de guerra, em uma expressão trazida da caserna: "A carcaça só quer mordomia.".
Lembrando-nos da busca nas Escrituras pelos preceitos que precisamos, cada um, conforme a fé e vocação que o Senhor nos providencia, precisa refletir no que fazer sem ferir os preceitos de Deus. Isto pode parecer simples, mas não o é em atos e escolhas extremas. Penso eu o quanto foi desafiador para Paulo, diante de muitos irmãos pedindo o contrário, depois de ouvirem uma profecia de que certamente ele seria preso e morto, decidiu ir para Jerusalém (Atos 21.10-14). Como seria fácil para Paulo escolher fazer o menos pesado, o menos doloroso, o menos angustiante, visto que teria o apoio de todos aqueles que o amavam e o respeitavam, mas mesmo assim ele responde:
"Mas Paulo respondeu: Que fazeis vós, chorando e magoando-me o coração? Porque eu estou pronto não só a ser ligado, mas ainda a morrer em Jerusalém pelo nome do senhor Jesus." Atos 21.13
Que decisão diferente de muitos líderes de hoje, hein? Que hoje parece, assim como Hamlet que a vida eterna parecia ser um desconhecido total, por isso um escolha temerosa, para o por sob uma "vida acabrunhadora", como se lê em parte de seu monólogo que se inicia pelo famoso "Ser ou não Ser":
"Quem quizera carregar com estes fardos, resmonear e suar debaixo de uma vida acabrunhadora, se o receio de alguma coisa depois da morte, d'essa região inexplorada, d'onde viajante algum voltou, não turvasse a vontade, e nos não fizesse supportar os males, que temos, com receio de nos arremeçarmos aos que nos são desconhecidos? É assim que a consciencia nos torna a todos em covardes; é assim, que as côres nativas de uma resolução amarellecem sob os pallidos reflexos do pensamento; é assim, que as empresas mais energicas e mais importantes se desviam de seu curso, a esta idéa, e perdem o nome de acção."
Acto III - Cena I (Obs.: Deixei o português conforme a tradução que utilizei de Hamlet.)
Escolher o que fazer, nas mais diversas circunstâncias, para um cristão, invariavelmente passa pelo crivo dos preceitos de Deus. Aqui não julgo a escolha de Hamlet na obra de Shakspeare, mas o ligo pela aparente verossimilhança na reflexão. Mesmo percebendo a diferença de convicções sobre a eternidade entre Shakspeare, expressa pelo seu personagem Hamlet, e Paulo. Hamlet não tinha convicção do que o esperava após a morte, certamente pela convicção católica romana de que somos salvos pelas nossas obras, mas Paulo sabia que o viver sendo Cristo, o morrer era lucro (Filipenses 1.21), assim como o padecer por Cristo era uma das bençãos que nos foi concedida como cristãos (Filipenses 1.29,30).
Na escolha do "o que fazer" não se deve perder de vista de que TODO poder pertence ao Senhor Jesus, e que TUDO está sujeito a Sua Soberania Eterna. NADA sai do Seu controle e NADA se perde de Seu olhar e Onisciência. Não podemos escolher fazer o que é egoísta, egocêntrico ou sob avareza. Não se pode colocar em posição de superioridade a custas da comunidade e/ou sociedade, e jamais usurpar para si o conceito de justiça e verdade para validação de vantagens pessoais ou de grupos de privilégios. O que deve sobrepor-se é a justiça e verdade que plenamente se revelam na vontade de Deus, aos quais todos devem temer e se dobrar.
Mas, estamos em uma sociedade que ao menos se preocupa em temer o conceito de Deus, ou seguir o que significa justiça e verdade segundo seus preceitos? Se não estamos, sendo nós os responsáveis por esta geração, somos responsáveis em nos submeter a perseguição, não como masoquistas religiosos, mas em total doação à Comissão dada por Deus em que devemos SER SAL DA TERRA E LUZ DO MUNDO (Mateus 5.13-16), FAZER DISCÍPULOS (Mateus 29.19-20), ALEGRAR-SE NAS PERSEGUIÇÕES (Mateus 5.10-12), conscientes de que TODO PODER É DO SENHOR (Mateus 28.18), que O SENHOR ESTARÁ CONOSCO ATÉ A CONSUMAÇÃO DOS SÉCULOS (Mateus 28.20) e que RESSUSCITAREMOS NELE NO ÚLTIMO DIA:
"Eis aqui vos digo um mistério: Na verdade, nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados, num momento, num abrir fechar de olhos, ante a última trombeta; porque a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados. Porque convém que insto que é corruptível se revista da incorruptibilidade e que isto que é mortal se revista da imortalidade. E, quando isto que é corruptível se revestir da incorruptibilidade, e isto que é mortal se revestir da imortalidade, então, cumprir-se-á a palavra que está escrita: Tragada foi a morte na vitória. Onde está, ó morte o teu aguilhão? Onde está, ó inferno, a tua vitória? Ora, o aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei. Mas graças a Deus, que nos dá a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo. Portanto, meus amados irmãos, sede firmes e constantes, sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que o vosso trabalho não é vão no Senhor."
1Coríntios 15-50-58
Escolha sempre fazer a vontade de Deus e não a de homens. Assim seguiremos em paz como povo de Deus, apesar de perseguições e lutas.
Deus abençoe a todos, em nome de Jesus.