"bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra;
πραεῖς
bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus;"
εἰρηνοποιοί
Mateus 5.5,9
Por vezes tratamos a caminhada e vida cristã como simplesmente uma caminhada espiritual, ao ponto até de ser uma caminha espiritualista.
Isto não é de costume da tradição cristã, em nenhuma fase de sua história, visto que os cristãos, desde os primeiros crentes, testificam a sua caminhada como reconhecidos "alvoroçadores do mundo", como lemos em Atos dos Apóstolos 17.6b: "...Estes que têm alvoroçado o mundo chegaram aqui também". Desde sempre, a doutrina cristã incomoda o "andar do mundo", impondo a todos uma necessária polarização de bem e mal, certo e errado, justo e injusto e santo e profano... e inerente aos cristãos alvoroçarem o mundo.
No texto em destaque, dois versículos, não subsequentes, verdade, mas objetivos em seus sentidos, o Senhor Jesus vem enfatizando a bem-aventurança destas duas categorias de pessoas: Mansos e Pacificadores.
Os cristãos contemporâneo que costumam ser muito firmes em seus posicionamentos e, quando provocados por sarcarmos ou ironias que não visam construção, apenas inferiorização de argumentos, utilizando qualquer uma das 38 estratégias de Schoppenhauer, em seu livro "A arte de ter razão" (não é um livro a se seguir, mas para conhecer estratégias covardes de quem não tem razão), isso os tira do prumo gerando uma postura agressivamente bélica no debate, e sempre usam estas bem-aventuranças para a acusação de não crente. Mas a tal acusação está bem posta?
Sigo aqui uma breve reflexão, que não penso exaurir as possibilidades, mas coloco o posicionamento para apreciação e confrontos, caso haja. E serei objetivo, pois preciso trabalhar... rs.
Mansos (πραεῖς)
A palavra manso, seja no grego, seja no português, deveria nos direcionar a uma pessoa que tem a capacidade de não ser autora de agressividade, que constrói tranquilidade em suas relações. Isto é óbvio!
Mas, manso seria igual a definição de covarde (δειλοῖς)? Óbvio que não! Caso contrário, qual a importância da linguagem no processo de preservação dos mandamentos e estatutos de Deus. Confundir as definições e aplicações dos termos seria macular, diretamente, o poder e instrução da palavra escrita.
A mansidão tratada na Bíblia não se refere a falta de preparo, provionamentos de defesa, ou mesmo lida com a acomodação mediante ofensas diretas que não sejam providenciadas diretamente de Deus para Sua Glória e anunciação do Reino e de Seu Nome.
Jesus é nosso modelo de mansidão e de vida, como um todo, mas, mesmo o Senhor, Deus, Amor encarnado, em dado momento usou de azorrague (chicote) e quebrou bancas de mercadores (João 2.14-16), denunciou pecados e disse-os merecedores do inferno (ex.: Mateus 23).
Este mesmo Jesus, Senhor e Deus, ainda encarnado, mas detentor de todo poder, declara que teria poder de convocar legiões de anjos para sua defesa (Mateus 26.53), mas era necessário que se cumprissem as Escrituras para que tivéssemos o grande presente da graciosa salvação pelo sangue do Senhor Jesus, Cristo de Deus.
Assim sendo, a mansidão exposta e declarada por Jesus no conhecido Sermão do Monte, seria melhor entendido por sendo uma expressão de tranquilidade por alguém que tem a capacidade de oferecer dano, se assim o desejasse, mas escolhe agir com esta mansidão por amor do Pai, em vez de ser violento e agressivo sem necessidade, causando dor, dano, ira e/ou morte caindo propositalmente no Sexto Mandamento que diz: "Não matarás!" (Êxodo 20.13), este aprimorado pelo Senhor Jesus:
"Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; mas qualquer que matar será réu de juízo. Eu, porém, vos digo que qualquer que, sem motivo, se encolerizar contra seu irmão será réu de juízo, e qualquer que chamar a seu irmão de raca será réu do Sinédrio; e qualquer que lhe chamar de louco será réu do fogo do inferno." [grifo meu]
Mateus 5.21,22
Diante destas proposições, os bem-aventurados mansos que herdarão a terra, são pessoas preparadas para se interpor entre os afrontosos que se levantam contra o que é de Deus, seja pela Palavra, seja pelo "chicote", mas que manterão o zelo e os preceitos de Deus, mesmo que isto custe acusação e perseguição. Os mansos, só cessarão de sua força, quando houver propósito de Deus em suas condenações, isto se vê quando o sacrifício se faz necessário para que a Glória de Deus seja vista e percebida. Esta sensibilidade, creio eu, o próprio Espírito Santo deu, dá e dará a todo aquele que estará aos pés da cruz, firmados nas promessas do Senhor, buscando Sua face em todas as circunstâncias.
Pacificadores (εἰρηνοποιοί)
A formação da palavra pacificadores já nos chama a atenção, e nos coloca bem perto do entendimento da sua significação.
Há duas palavras envolvidas: Paz (εἰρήνην) + [algo do tipo] Ter poder de fazer, executar, exercer, praticar (ποιέω).
O termo é diferente de uma pessoa inclinada a paz, pacífico(εἰρηνικὸν), apenas, o que conotaria algo estático que influencia pelo simples fato de sua intenção e função etérea, como vemos no texto de Hebreus 12.11, que lemos: "Ora toda disciplina 11 quando está presente não parece ser de gozo, senão de tristeza: mas depois dá um fruto pacífico de justiça aos que por ela forem exercitados."; a disciplina, o esforço para se corrigir um crente em desacordo com os preceitos de Deus, gera um fruto pacífico de justiça nele. Algo que é próprio da disciplina de Deus aos Seus fiéis, é o que gera em seus corações por ser um esforço para o bem.
Paz (εἰρήνην)
A primeira palavra fica muito simples de explicar e entender, visto que o termo paz é muito bem aceito e bem apresentado no Novo Testamento, aparecendo cerca de 95 vezes. Paz é paz, mesmo que confrontado com textos que os "pseudo-pacificadores", contemporâneos, executam verdadeiras ginásticas hermenêuticas para distorcer o sentido de "alvoroçadores" que os cristãos devem ser, e Jesus nos dá falas como a que vemos em, por exemplo, Mateus 10.34: "Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada;"; lembrando que o texto tem seu contexto, mas é desafiador pensar em Jesus tratando a paz desta forma, em um tempo que pregadores tratam a paz como um ato natural e fácil de se encontrar e preservar.
Então, a paz (εἰρήνην), é um ato possível, é uma forma quietude e repouso que nos traz tranqulidade em diversos aspectos, visto que encontrou-se um estado que se contrapõe um estado de tribulação e desordem em determinado aspecto. A paz demanda um esforço para ser alcançada, visto que a desordem espiritual, financeira, familiar, civil, moral, ética, etc, se estabelece na falta de atenção e cuidado nos aspectos específicos.
Executar (ποιέω)
Já o segundo termo exposto, é um pouco mais complexo, mas tentarei ser bastante breve.
Aqui, reduzirei o termo para Executar (ποιέω). Este segundo termo que forma a tradução "pacificadores", trata de uma ação orientada, determinada, objetiva, de se promover algo em determinada situação. Não é algo derivado de uma teorização ou racionalização de uma possibilidade. O termo remete a ação (ou ações) prática(s) para se alcançar um determinado fim, de forma a completá-lo de forma eficaz e continuada, até que a ação contrária a intenção posta seja cessada.
O termo parece ser "uma forma prolongada de uma palavra primária obsoleta;" (segundo o Dicionário Completo de estudo de Palavras: Novo Testamento, compilado por Spiros Zodhiates), traduzindo diretamente por uma série de termos, "em um número muito amplo de aplicações, mais ou menos diretas", dos quais cito alguns: permanecer, habitar +concodar, nomear, indicar, x vingar + (...) causar, cometer, comprometer + contentar, continuar, lidar + sem nenhuma demora, fazer, executar, exercer, cumprir, satisfazer, ganhar, dar, ter, segurar + (...) + observar, ordenar, desempenhar, prover + (...) + proteger, assegurar (...). [Foi dito que havia um amplo número de aplicações.]
Desta forma, em diversos sentidos, percebemos que este segundo termo dá uma conotação de intencionalidade na promoção do que está anteposto, no caso a paz, e, se você for um atento observador das questões inerentes da vida, deve ser honesto em observar que nada de bom se promove sem esforço... inclusive a paz.
É impensável entender que este esforço é possível a alguém despreparado e desatento. Não se pode confiar a bem-aventurança de pacificador a alguém que é negligente na observação das necessidades espirituais, no caso de um distúrbio de alguém opressa por espíritos malignos, ou mesmo a alguém que, de posse de sua hombridade e virilidade, é incapaz de buscar restabelecer a paz em uma desordem familiar, social ou civil, seja em que âmbito for. Estar preparado para situações deste tipo afugenta e ameaça qualquer agente de desordem, seja nas instâncias materiais, seja nas instâncias espirituais.
Como disse H. Beck, C. Brown (referências e citação retiradas do DIT, V. II, ed. vida Cristã, ao final do termo 1598- PAZ / PECADO):
"Esta paz não é o retraimento do mundo, praticado pelo estóico, nem uma piedosa fuga para a espiritualidade e contemplação mística. É a alegre certeza de já participar da paz de Deus enquanto a pessoa passa pela vida e olha para a eternidade."
Conclusão
Desta forma percebemos que as colocações para mansos e pacificadores, não são bem dentro da significação da hermenêutica progressista [só posso chamá-la assim] que hoje está posta para nossa apreciação.
O chamamento do cristão é sim para completar as dores de Cristo (2Coríntios 1.5), sofrer o dano no que diz respeito a disputas entre irmãos (1Coríntios 6.7), mas também de resplandecer a luz de Cristo, provendo na terra em que vivemos justiça, paz, ordem, harmonia, sobretudo, a consolidação dos preceitos de Deus para a Sua Criação, como bons mordomos do Senhor.
A mansidão deve nos acompanhar em todo tempo, estando nós em condições de responder a altura. Mas esta não deve ser a desculpa se escolhemos a covardia de não intervir em injustas ações, ou no comodismo de nossos espaços espiritualísticos, onde desempenhamos nossas atividades eclesiásticas como monges isolados, estando envolvidos no mundo que nos cerca. Esta postura nos faz desenvolver uma vida dúbia onde separamos a vida cristã entre a vida cristã (exercida no meio da igreja) e a vida secular (o que se faz no meio dos ímpios). Isto é chamado hipocrisia, covardia, irresponsabilidade, omissão e desprezo com as instruções de Deus.
A postura de pacificadores deve nos mover intencionalmente a estarmos prontos para intervir em situações de confusões, com sabedoria, claro, mas com autoridade e intrepidez, seja em distúrbios espirituais, seja em questões sociais ou civis. O povo mais preparado para por sua vida em risco é, definitivamente, o povo cristão que sabe que a Paz que todos buscam, ele já têm em garantia no sacrifício de Cristo Jesus, e na comprovação de Seu senhorio, sobre a vida e a morte, na Ressurreição. Aleluia!
Que Deus abençoe a todos, em nome de Jesus.
Davyson Gustavo de Moura Silva