"E disse ele: É o SENHOR; faça o que bem parecer aos seus olhos"
1Samuel 3.18b
Bem que este texto poderia ser um motivacional, baseado na história do chamado e vocação de Samuel. Mas não! A nossa proposta é trazer percepções que são pouco apresentadas nas Escrituras Sagradas, e que nos ensina de forma contundente que não há nenhum outro perfeito, senão Jesus Cristo.
Falaremos aqui acerca de Eli, sacerdote no tempo em que o tabernáculo estava em Siló, que tinha dois filhos, Hofni e Fineias, os quais também eram sacerdotes e serviam no tabernáculo.
Sabemos por regras culturais e piedosas, que os que servem ao Senhor com responsabilidades maiores, precisam ter uma vida de conduta reta, dando bom testemunho e sendo exemplo para os demais, sabendo que há uma relação diretamente proporcional entre responsabilidade e o Juízo (Tiago 3.1). Aprendemos isso de forma natural compreendendo que quanto maior o cargo, melhor a pessoa deve ser, mesmo que na prática, hoje em dia, muito disto tem se perdido em valores práticos.
Nos tempos idos de Eli e seus filhos, esta postura reta era ainda mais necessária, não por Deus ser outro, mas pelo contato ainda mais próximo e latente de Deus com o Seu povo. Apesar do sacerdote Eli buscar retidão e piedade no serviço ao Senhor, seus filhos não tinha zelo algum.
"Eram, porém, os filhos de Eli filhos de belial e não conheciam o Senhor" (1Samuel 2.12)
Assim começa a porção que fala da postura dos filhos de Eli, Hofni e Fineias, se estendendo até o verso 17 do capítulo 2 do livro de 1Samuel, onde apresenta-se o desprezo pelo serviço a Deus e pelas ofertas oferecidas ao Senhor pelo povo. Também, ainda no capítulo 2, no verso 22, ainda se adiciona aos pecados dos filhos de Eli o deitar-se com mulheres que se ajuntavam na porta da tenda da congregação (1Samuel 2.22)
Nesta última referência do texto sagrado, temos o início de uma exortação dada por Eli a seus filhos, em sinal de preocupação e cuidado com eles, mas os mesmos não davam ouvidos, mesmo Eli mostrando que não haveria perdão àqueles que pecassem diretamente contra Deus, e o texto apresenta o porquê: "Porque o Senhor os queria matar." (1Samuel 2.25)
Por vezes vemos o endurecimento dos corações de muitas pessoas, mesmo mediante a Verdade transcendente que flui dos princípios e preceitos de Deus. Isto pode nos soar de diversas formas. Para alguns é uma simples liberalidade que Deus permite aos que já são eternamente condenados; para outros, é apenas resultado da livre escolha que cada um tem, e que, Deus já sabendo de seus corações obstinados, permite aos escritores das Sagradas escrituras esta percepção do todo e que nenhum deles escapariam impunes e Deus os mataria. Seja de um lado ou de outro, em todas as coisas vemos expresso as virtudes e atributos de Deus em todo o relato bíblico, e a inclinação ao arrependimento ou não, identifica os que pertecem a Deus e os que não pertencem.
Neste contexto, Deus envia um servo Seu ao encontro do sacerdote Eli (1Samuel 2.27), o qual lhe declara uma palavra de Juízo de Deus contra ele e sua casa, isto porque havia negligência com a oferta ao Senhor, bem como o sacerdote escolhera honrar mais a seus filhos do que ao próprio Deus (1Samuel 2.29).
Entre os ditos pelo homem de Deus, sob comando do próprio Deus, está uma coisa que deveria mexer muito com as convicções construídas com as pregações neste século. Diz assim em 1Samuel 2.30b: "(...) porém, agora diz o Senhor: Longe de mim tal coisa, porque aos que me honram honrarei, porém os que me desprezam serão envilecidos."
Perceba que Deus está falando ao sacerdote Eli (através do homem de Deus), que tinha dois filhos ativos no serviço da Tenda da Congregação. Deus não está olhando para a superfície do serviço, nem preocupado em haver apenas uma continuidade da atividade sacerdotal, mas, como foi com Caim (Gênesis 4.5), assim foi avaliado a honra prestada pelos sacerdotes Eli, e seus filhos Hofni e Fineias. Algo que hoje é desprezado, em todos os sentidos, na condução da vida cristã, onde muitos separam a sua "vida na igreja", da sua "vida no mundo", sob a sombra de uma auto justificação pelas obras, erro perpétuo do ser humano que deseja servir a Deus, mas ignora a verdadeira virtude do serviço que vem de dentro e não o é apenas exteriormente. O maior erro está justamente em que aqueles que deveriam ensinar o caminho correto, estes, se perdem em suas vaidades, prevaricando no serviço real da "circuncisão do coração" da qual Paulo fala em Romanos 2.28,29 e, desta forma, levam muitos a uma vida cristã cerimonialística e sem profundidade na vida comum.
É nesta mesma profecia que o Senhor revela a Eli o fim dos seus filhos (1Samuel 2.34), que eles morreriam no mesmo dia. Isto vem a acontecer no capítulo 4. Em guerra contra os filisteus, mesmo com a Arca da Aliança no arraial, e o temor dos filisteus diante da presença da Arca, que representava o próprio Deus, Israel é ferido e são mortos os filhos de Eli, Hofni e Fineias.
Mas, diante da palavra do homem de Deus, aparentemente há em Eli uma postura de submissão, visto que o texto Sagrado não registra reação ou recusa do Juízo de Deus anunciado a ele. Dá para se entender que o próprio Eli já tinha a postura de aceitação, mesmo diante da condenação profetizada contra seus filhos e vemos o texto ir para o registro do chamado de Samuel no capítulo 3. Deus chama Samuel a noite e por três vezes Samuel acha que seria o sacerdote Eli lhe chamando. Neste tempo a Palavra do Senhor era rara e não havia visão manifesta (1Samuel 3.1). Na terceira vez que Samuel vai até Eli, o sacerdote entende que é Deus chamando o menino e o instrui a responder ao Senhor.
Perceba: O sacerdote que já tinha tido a morte de seus filhos decretada por Deus, que sabia que sua família seria tirada do sacerdócio, não mantém uma postura de orgulho ou soberba. Pelo contrário, ele continua instruindo o jovem Samuel a entender e responder ao chamado de Deus. Louvado seja Deus. Quantos e quantos ministros do Evangelho, hoje, excluem vocacionados de suas comunidades para promover ministros segundo os seus corações, mas não segundo a vontade de Deus. Caso parecido se vê em Jeroboão, rei posto sobre as 10 tribos de Israel, e que ergueu altares de adoração e elegeu sacerdotes segundo a sua vontade, a revelia das instruções do Senhor (1Reis 12. 28-31). Nada novo debaixo do sol.
Samuel não é o foco, mas ele recebe o chamado e, no seu chamado, ouvindo do próprio Deus, Samuel sabe que Eli e seus filhos serão tirados do sacerdócio (1Samuel 3. 10-14). Dado o teor da revelação, Samuel evita falar a Eli sobre o que ouviu de Deus, mas Eli, sedento por ouvir o que da parte de Deus veio, questionou a Samuel e este lhe revelou com fidelidade tudo o que ouvira (1Samuel 3.17). E aí vem o estabelecimento textual da total submissão de Eli ao Senhor. Em 1Samuel 3.18, temos: "Então, Samuel lhe contou todas aquelas palavras e nada lhe encobriu. E disse ele: É o Senhor; faça o que bem parecer aos seus olhos."
Ainda dá para dizer que, depois disto, ficou conhecido em todo Israel, desde Dã até Berseba, que Samuel estava confirmado como profeta do Senhor (1Samuel 3. 20,21) Mas o que quero mais deixar claro é a submissão a vontade de Deus por parte do profeta Eli. Ainda que tenha recebido o juízo de Deus, e já sabido da sua retirada do Serviço ao Senhor, continuou com zelo pelas coisas de Deus e, ainda que tenha falhado no trato com seus filhos, o seu cuidado com a presença de Deus perseverava. Isto se vê quando ele, aguardando notícias da guerra contra os filisteus, "estava assentado sobre uma cadeira, vigiando ao pé do caminho; porquanto o seu coração estava tremendo pela Arca de Deus" (1Samuel 4. 13).
Eli assumiu a sua culpa, onde o seu cuidado de pai o fez prevaricar com a Glória de Deus. Segue-se esta lição para a história da Igreja e nos é necessário refletir sobre os altares e ídolos que erguemos e que nos faz cegar da Glória de Deus. Por vezes é o templo, a doutrina institucional, os filhos, a denominação, o próprio poder ministerial (ordem distorcida de mérito e poder), e tantos outros que faz com que o servo de Deus se perca na sua caminhada, mas se auto justifique pelo seu ativismo religioso ou mesmo pelo ativismo de outros que ele conduz.
Deus nos quer em um serviço constante, sincero e pleno. Os preceitos de Deus são irrevogáveis e, apesar de hoje o Seu Juízo não ser prontamente ouvido, e na vida da Igreja a perseguição ser algo mais comum do que momentos de paz devido o mundo pervertido que vivemos, a palavra dita pelo próprio Senhor Jesus nos comunica o aviso que assim seria, mas também nos conforta na certeza do que será, assim como Ele desejava que fosse:
"Tenho-vos dito isso, para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo; eu venci o mundo."
O mundo precisa ver uma Igreja que vive o que fala, e não só fale o que seria bom viver. Alguém já disse que nós somos a Bíblia que o mundo vai ler, e nós precisamos ser fiel ao Autor que é o próprio Deus. Digo isto como significando abandonar nossos filhos? Não! Mas também não podemos comprometer a verdade do Evangelho nem os preceitos de Deus para buscar cobrir ocasional rebeldia ou aversão a vontade de Deus.
Que o Espírito Santo transborde seus preceitos na vida de cada um que já decidiu servir e seguir ao Senhor. Que haja sabedoria e discernimento no meio da Igreja para que vivamos plena e retamente diante de Deus, sabendo que a perfeição é só do Senhor, mas a nós cabe a busca perseverante de ser parecidos com Ele, nos permitindo o urgente arrependimento e um avivamento profundo.
Deus abençoe a todos, em nome de Jesus.
Davyson Gustavo de Moura Silva.
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