quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

Liderança Cristã - Há responsabilidade em todos os cristãos


"E, chegando-se Jesus, falou-lhes, dizendo: É-me dado todo o poder no céu e na terra. Portanto, ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-as a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos. Amém!"
Mateus 28.18-20

Liderança é um termo que flui muito naturalmente hoje em dia. De diversas formas, há um condicionamento espontâneo a dar este título a qualquer pessoa que tenha alguma habilidade com condução de pessoas, mas não pelo exemplo ou pela capacidade de desenvolver outros, mas, infelizmente, pelo talento de controlar e comandar outros de forma a gerar determinados resultados, em seus respectivos segmentos.

Isto não é diferente dentro de muitas instituições cristãs. O século XXI é marcado por um envolvimento cultural profundo com controle de massas. Neste momento me inclino a lembrar de uma das mensagens da chamada "Revelação de Nossa Senhora de Fátima", em que na sua última aparição foi "revelado" a três crianças sobre o espalhamento dos males da Rússia, ou seja, os males do comunismo pelo mundo. Isto antes da Segunda Guerra Mundial, onde ainda não havia tido a revolução comunista na Rússia, o que hoje vemos muito claramente as nuances deste sistema totalitário implementado, inclusive, dentro de comunidades cristãs que não percebem o mau cultural comunista ali vivido. Seja Gramsci, seja Marx, seja Hegel ou qualquer outro teórico, é fato que o que podemos constatar é uma total dissociação do valor inerente da vida humana, de forma mais geral, bem como do sacerdócio universal dos santos na vida da Igreja, em uma aspecto mais específico e importante.

Quero deixar claro que não estou aqui declarando que sou afeito a revelações deste tipo. Deixei de ser Católico Romano há mais de 14 anos, devido o fato de encontrar na Tradição (o que é mais reverenciado do que as Escrituras Sagradas, para o Católico Romano) questões que subjugavam as Escrituras Sagradas e não haver uma resposta sobre tais discrepâncias. Mas não posso deixar de perceber a relevância do que foi declarado pelas três crianças e não me sentir embasbacado com tal acontecimento. Mas não me movo por milagres ou aparições. O que me guia são os princípios revelados nas Escrituras Sagradas, visto que me apresentam um ponto de apoio fixo, soberano e muito mais excelente do que qualquer vontade humana mutável, dependendo dos valores e crenças reais dos líderes (2Coríntios 11. 13-15).

Pois bem, voltando ao assunto de liderança, há uma grandessíssima perversão do termo (inclusive, perverter a linguagem distorcendo conceitos é uma tática cultural do comunismo) para que os postos de autoridade sejam meios de controle de massas, grandes ou pequenas, para fazer com que determinadas pessoas consigam conquistar ganhos financeiros ou sociais subjugando outros. A tal "liderança de hoje", não traz consigo responsabilidades, mas privilégios dados de cima para baixo.

O texto posto no início deste artigo tem partes importantes para reflexão e percepção de todo aquele que decide ser cristão, ou seja, seguidor de Cristo, ao passo que, ignorando-se tais pontos, fica impossível avançar na vida cristã e realmente ser um seguidor do Senhor Jesus visto que, exposto a tão excelentes princípios, nos vemos em um perigoso terreno onde nosso ego se torna nosso principal inimigo, e a ânsia por poder a maior tentação.

Segundo o relato de Mateus, após ressuscitar, o Senhor Jesus aparece a Maria Madalena e a Maria. Após um anjo falar com elas (Mt 28.5-7), o próprio Senhor aparece a elas confirmando a instrução de que os discípulos deveriam ir até a Galiléia, em um determinado lugar para que o Senhor lhes falasse (Mt28.9-10). As mulheres assim o fazem e os onze discípulos seguem para a Galiléia, para o lugar indicado e lá veem o Senhor e O adora (Mt28.16-17)

No relato  em Mateus, vemos o início da fala do Senhor por um ponto crucial, determinante para toda a caminhada cristã, de forma a não deixar dúvidas da origem de autoridade e poder sobre a vida dos Seus seguidores, bem como de toda a criação:

"É-me dado todo o poder no céu e na terra." (Mt28.18)

Talvez este ponto seja o mais importante desta perícope exposta no início e seria impossível exaurir seu significado em apenas um texto. A soberania, a plenitude de sabedoria, o domínio, a majestade, e todos os demais atributos de Deus podem ser contemplados através desta declaração. Não é o poder acerca de doutrinas espirituais, de eclesiologias ou divisões da teologia, mas é TODO O PODER/AUTORIDADE (εξουσια*) é declarado de forma direta como sendo do Senhor Jesus. Não há uma perspectiva de domínio que não seja pensada pelo cristão (por este ter a Revelação) que não passe pelo poder ou autoridade do Senhor Jesus. É uma perversão de consciência que o líder cristão perceba sua reponsabilidade a parte dos princípios de Deus de doação, serviço, dedicação, amor, caridade, mas também de justiça, verdade, virtude, zelo, piedade (no sentido de devoção a Deus), preservação da vida, entre outros, de acordo com os princípios de Deus.

Em uma aula sobre liderança cristã, certa vez, ouvi do ministrante a afirmativa que: "Se você está em um ministério que você discorda das posturas do pastor, mesmo que com base bíblica na discordância, e você não consegue mudar, mude de ministério.". O questionei acerca desta postura, visto que não haveria amor nem cuidado com a doutrina cristã, tal qual houve em Paulo quando exortou Pedro a ser mais sincero em sua atitude para com os gentios diante dos judeus (Gl 2.11-15). Ou seja, Pedro por ser encontrado repreensível, foi repreendido, mesmo sendo considerado pelo próprio Paulo como uma coluna da fé (cf. Gl 2.9). Esta é a responsabilidade da liderança cristã, tanto a atitude de repreender no erro, como o fez Paulo, bem como em não resistir a repreensão, como aparentemente fez Pedro, por não haver registro de resistência ou aversão a Paulo por parte de Pedro.

A liderança cristã não deve ser sinônimo de autoridade, justamente pelo conhecimento deste ponto tão importante de que TODO PODER/AUTORIDADE está nas mãos do Senhor Jesus, e é preciso ter a plena certeza de nossa condição humana caída, que necessita da glória de Deus revelada na pessoa do Filho, Jesus Cristo. A liderança cristã deve ser sinônimo, sim, de responsabilidade. Responsabilidade de desenvolver outros irmãos na vida cristã; responsabilidade de testemunhar com fidelidade os princípios de Deus, dentro e fora da comunidade cristã; responsabilidade em ser um cidadão na terra consciente da cidadania mais excelente como filho de Deus. Em um mundo caído e cheio de perversidade, é óbvio que haverá muito mais desafios do que tranquilidade na vida do cristão, mas a medida que alcançarmos mais excelência na vivência cristã, mesmo os ímpios que liderarmos, ou que nos liderar, verão a excelência dos princípios de Deus e isso será também almejado por eles. Verdade, virtude e justiça sempre serão necessidades humanas, salvo os perversos patológicos.

A autoridade está posta na Igreja do Senhor, não em líderes apenas. Não é possível que alguém ofendido possa julgar com justiça, dependendo de outros irmãos, arraigados profundamente nos princípios de Deus para que possam julgar em dificuldades. Em 1Coríntios 6.4 (NVI), lemos: "Portanto, se vocês têm questões relativas às coisas desta vida, designem para juízes os que são da igreja, mesmo que sejam os menos importantes."; sim, em seguida Paulo fala que isto é dito para envergonhá-los. Também admito ser um versículo de difícil tradução em si para alcançar o seu total significado, mas no contexto é possível identificar que há uma preocupação em que a justiça flua da Igreja do Senhor e não de fora, mesmo que os "mais importantes" se submetam ao julgamento de irmãos em Cristo de menos destaque, mas que estejam em igual temor e zelo pelas coisas de Deus. A liderança não pode ser déspota nem impositiva, mas submissa sempre ao total poder e autoridade de Deus.

"Portanto, ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-as a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado;" Mateus 28. 19,20a

"Portanto", uma conjunção conclusiva utilizada na tradução da partícula grega "ουν", que vem com a ideia de conclusão também após o raciocínio anterior. Este é o da totalidade do poder nas mãos de Jesus Cristo. Assim sendo, o famoso IDE (πορευθεντες), tão reverberado por muitas igrejas na questão de querer dar sentido aos seus trabalhos, segue logo após a conscientização de que TODO PODER FOI DADO A JESUS CRISTO, NO CÉU E NA TERRA. Sendo assim, este IDE não pode ser condicionado à vontade de autoridade humana alguma e, por isso, vemos em toda a história da Igreja Cristã testemunhos de mártires (parece uma redundância visto que a palavra que lê-se mártir no grego, traduz-se testemunha no português) que deram a vida por seu testemunho de fé em Jesus Cristo, mantendo suas total fidelidade e submissão a Ele, não a homens ou sistemas humanos postos em cada um de seu tempo, seja ele político, científico ou cultural.

A conclusão segue o imperativo IDE em outro imperativo de ENSINAR. Mas não vejo uma limitação deste imperativo de ENSINAR como sendo apenas a Igreja. "Ensinai todas as nações", mas o termo utilizado é matheteuo (μαθητευω), o que pode ser distinguido espiritualmente como simplesmente seguidores de Cristo, ou como um sistema de pensamento universal. O termo é desenvolvido muito anteriormente por Sócrates, Platão, Homero, tendo a conotação do ensino a outros passando pela importância da percepção moral dos fatos para a prática comum. Filosoficamente, apenas conhecimento para uma vida moral. Espiritualmente a consciência de que não há poder ou autoridade que não venha de Deus. Filosoficamente o ensino é superficial e imanente. Espiritualmente o ensino é profundo e transcendente. Podemos perceber a importância do avanço da harmonia entre estes dois aspectos quando contemplamos o crescimento e desenvolvimento das sociedades, no que chamamos de mundo livre, que saíram de impérios para democracias, mesmo que nem todas as pessoas fossem necessariamente seguidoras de Cristo.

Podemos sim observar uma aplicação plenamente espiritual visto que a frase se segue no outro imperativo de "batizando-os". Há claramente uma escalada de IDE, para ENSINAI, para BATIZANDO, imperativos presentes nesta afirmação, mas preciso ainda referir que esta escalada está sob a conjunção conclusiva acerca de que TODO PODER pertence ao Senhor. Não posso ficar preso apenas no ativismo eclesiástico, mas preciso olhar para uma responsabilidade maior e mais abrangente visto que tudo pertence a Deus, e Ele mesmo pôs o homem para administrar (Salmo 8, por exemplo). Preciso refletir sobre a harmonia entre a soberania de Deus e a liberdade do homem. Este, pode ser livre, mas não se faz menos responsável a seu bel prazer. Tudo lhe será cobrado!

A opção daqueles que ouvem a ordenança do Soberano Deus, o Senhorio de Cristo, deve dar-se a entender e cumprir uma última ordenança ainda nesta perícope posta:

"... ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei." Mateus 28.20a

A ideia deste blog é uma vivência cristã. Não uma vida bitolada, cheia de chavões evangeliquês, que pouco produzem para a vida comum de todos. Observando a vida de muitos dos grandes cristãos, líderes que serviram de exemplo se dedicando a apresentar ao mundo os excelentes valores e princípios de Deus em diversas áreas de conhecimento, vejo que este ensino pode ser muito mais abrangente do que apenas fazer pessoas serem religiosamente fiéis às suas comunidades fechadas, se prostrando a qualquer outra doutrina que fira os preceitos de Deus para a vida humana.

As grandes universidades no mundo iniciaram-se com o serviço dedicado de grandes cristãos que visavam difundir e disseminar o conhecimento científico, buscando entender a criação de Deus e tudo aquilo que precisava de profundas reflexões filosóficas, cientificas e matemáticas para entender a amplitude da Criação. As tantas áreas humanas foram desenvolvidas buscando trazer ao consciente humano as melhores práticas de lidar com a natureza humana segundo os preceitos do Criador. Mas é fato que hoje vemos muita perversão quanto a isso, mas isso não se dá pela possibilidade do estudo, mas pela apatia e ingerência do Povo de Deus em produzir academicamente material relevante, bem como este mesmo povo se eximir de debates e confrontos científicos, políticos, humanos e matemáticos acerca de tudo que foi construído diante de Deus.

Para ensinar a obedecer os preceitos de Deus, não se deve pensar apenas como chefe ou dono da situação, mas como líderes que devem conduzir pessoas ao desenvolvimento individual para o melhor desempenho de suas funções. Estas melhores funções só serão alcançadas se seguidas as instruções de quem os projetou e os criou, ou seja, do próprio Deus. Ainda que muitos escolham não ser cristãos, mas o trabalho da responsabilidade universal dos santos, dos salvos no Senhor, é apresentar em todos os aspectos da vida a excelência que encontramos nos propósitos de Deus.

Podemos constatar em leituras de importantes cristãos, como o embate de ideias era uma possibilidade que desenvolvia os conceitos. Pessoas como C.S.Lewis, Francis Schaefeer, Dietrich Bonhoffer, entre muitos outros, especialmente os mais antigos, que discutiam em grandes centros públicos de debates, estes momentos de confronto eram de rica compreensão do que era ensinado. Lucas relata em Atos 17.15-34 o episódio de Paulo no Areópago em Atenas, onde em uma apresentação pública, aberta aos questionamentos, Paulo trouxe a compreensão da percepção do "Deus desconhecido" pelos gregos, que possibilitou a eles se aproximarem da verdade acerca de Deus, muito embora tenham entendido a Ressurreição (αναστασις- anastasis) como se fosse uma outra deusa (cf Atos 17.32), dado o seu nível de crenças em diversos deuses. Fato é que o informar do Único e Eterno Deus se faz necessário a todos, não apenas aos que se dispõe na Igreja. 

Na Igreja, a liderança deve empenhar-se, justamente, em ensinar a viver os preceitos e princípios de Deus entre os gentios, sabendo aplicar o conhecimento, bem como informar sobre o Deus Eterno com eficiência e sabedoria, mostrando o quanto é bom e saudável vivenciar o que o Senhor nos ordena.

Dito tudo isto, a liderança cristã não deve ser encarada como um recurso de poder e autoridade por nenhum cristão, visto que TODO PODER E AUTORIDADE pertencem ao Senhor Jesus Cristo. Mas há uma extrema RESPONSABILIDADE de todo cristão em vivenciar conforme os preceitos de Deus, para que os ímpios vejam as nossas obras e glorifiquem a Deus que está nos céus (Mateus 5.16). Em caso de a liderança perder-se das pegadas de Cristo e de Seus preceitos, é uma prova de amor dos liderados exortá-los a voltar o prumo do Deus.


Que Deus abençoe a todos, em nome de Jesus.
Davyson Gustavo de Moura Silva

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* G01849 εξουσια exousia: 1) poder de escolher, liberdade de fazer como se quer; 1a) licença ou permissão; 2) poder físico e mental; 2a) habilidade ou força com a qual alguém é dotado, que ele possui ou exercita; 3) o poder da autoridade (influência) e do direito (privilégio); 4) o poder de reger ou governar (o poder de alguém de quem a vontade e as ordens devem ser obedecidas pelos outros); 4a) universalmente; 4a1) autoridade sobre a humanidade; 4b) especificamente; 4b1) o poder de decisões judiciais; 4b2) da autoridade de administrar os afazeres domésticos; 4c) metonimicamente; 4c1) algo sujeito à autoridade ou regra; 4c1a) jurisdição; 4c2) alguém que possui autoridade; 4c2a) governador, magistrado humano; 4c2b) o principal e mais poderoso entre os seres criados, superior ao homem, potestades espirituais; 4d) sinal de autoridade do marido sobre sua esposa; 4d1) véu com o qual a mulher devia propriamente cobrir-se; 4e) sinal de autoridade real, coroa.

terça-feira, 14 de janeiro de 2025

É luz o que teu olho vê e teu coração resplandece?

 


"Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração.
A candeia do corpo são os olhos; de sorte que, se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz. Se, porém, os teus olhos forem maus, o teu corpo será tenebroso. Se, portanto, a luz que em ti há são trevas, quão grandes serão tais trevas!"
Mateus 6. 21,22

Perspectivas!

Um certo autor, comunista, já disse que "todo ponto de vista, é a vista de um ponto". Certamente que o Leonardo Boff não construiu esta frase partindo da ideia de esclarecer ou de edificar, mas com apenas o propósito de desconstruir aquilo que já funcionava para o bem, para o belo e para o bom. Confesso, também, que não me gastei em nenhuma obra do tal autor, pois prefiro, no pouco tempo de vida que tenho, somado a minha dificuldade de concentração e aprendizado, dedicar mais atenção aos bons escritores, de bons princípios e valores que me ajudam a construir melhor as ideias, e ideias melhores.

Até isto já é a vista de um ponto. Mas a pergunta que devemos fazer é sempre: Meu ponto de vista vale a pena ser seguido?

Hoje, literalmente, acordei com este versículo na mente. Durante a noite acordava e dormia e este texto e o princípio nele contido me incomodavam a refletir mais e mais. Lembrei das vezes que ouvi este texto sendo mau aplicado, em contextos inapropriados ou em extremo limitantes.

A perspectiva em que os olhos são postos no Evangelho Segundo Mateus, em seu capítulo 6, nos conduz a um embate da cobiça contra a confiança na provisão e misericórdia de Deus. Considerando que o texto está dentro do famoso Sermão do Monte, onde o Senhor Jesus nos deixa diversos ensinamentos, este texto específico vem entrelaçado em um momento que o Senhor está ensinando os discípulos, com uma multidão ouvindo, sobre doação (Mt 6.1-4), oração (Mt 6.5-13), perdão (Mt 6.14-15), postura no jejum (Mt 6.16-18), riquezas (Mt 6.19-21), senhorio de Deus X senhorio das riquezas (Mt 6.24) e sobre descansar na providência de Deus (Mt 6.25-34).

Perceba que há uma atenção às questões de risco de cobiça e as posturas de vida em questões de piedade como oração, jejum e esmolas. Os olhos estão dentro de um contexto de discernimento e ação que o cristão precisa ter.

Os olhos como candeia para o corpo, oferece ao coração as perspectivas corretas, ou não, de como se deve proceder no convívio diário com as outras pessoas. Todas as outras ações de nossas vidas precisam ser observadas, entendidas e precisam de uma resposta de nosso ser diante dos fatos oferecidos. Os olhos, não como órgão, mas como meio de sentido de visão, percepção, são as nossas janelas para o mundo. Mas como o mundo é lido por nós? Qual as lentes que usamos para traduzir e entender o que nos rodeia?

Fazer dos olhos, ou melhor, da nossa visão um recurso bom ou mau depende de como alimentamos nossas lentes. Depende dos princípios que escolhemos fundamentar nossa percepção, e como vamos discernir diante do que nos é posto.

O cristão deve ter o compromisso diário de alimentar seu espírito nas Escrituras Sagradas, refletindo nos atos registrados buscando extrair os princípios para sua vida pessoal. Não há nas Escrituras as respostas específicas para cada ato ou escolha que faremos, mas os princípios que delas extraímos, bem como o que o Espírito Santo nos instrumentaliza, nos conduz a estarmos firmados na Rocha que é Cristo Jesus.

Esta firmeza deve nos compelir não, simplesmente, a julgar outras pessoas, mas, sobretudo, a nós mesmos  com vistas a estarmos sempre prostrados diante de Deus, buscando Sua orientação e o desenvolvimento dos aspectos do Fruto do Espírito Santo que vemos em Gálatas 5.22: "Mas  o fruto do espírito é: caridade, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança". A principal pessoa que Deus quer transformar é o nosso eu. Mas também esta firmeza deve nos dá a certeza de que, quando necessário confrontar outros, estamos fazendo baseados não em nossos achismos, mas nos preceitos de Deus.

Nisto perceberemos se os nossos olhos estão maus ou bons. Não é sobre soberba, mas sobre submissão. É sobre ter a ousadia suficiente de sermos fiéis a Deus, mesmo com os custos que temos que pagar.

Nas nossas relações pessoais, no trabalho, na escola, na universidade, em uma fila de pagamentos, no ônibus a ceder o lugar para quem mais precisa, na defesa de mais fracos, em todos os aspectos, devemos zelar para que o cuidado não está simplesmente em termos lucros ou vantagens pessoais, mas em honrar a Deus, sobretudo e servir o próximo com inteireza de coração.

Estas ações, com a correta intenção, só será possível quando os olhos estiverem limpos e objetivando valores maiores que o nosso preço de trabalho, valorização do nosso próprio ego e/ou vantagens individualistas que nos corrompem os valores.

Todo ser humano é capaz de discernir certo do errado. Mas aos cristãos é posto a responsabilidade de conhecimento dos valores mais excelentes, para viver sob princípios transcendentes para que, mesmo aqueles que ainda não conhecem a Deus possam glorificar ao Senhor pela vivência daqueles que Ele condicionou a ser candeia entre trevas, como vemos em Lucas 11.33-36. A candeia deve iluminar com todo seu esplendor. Seja pois vista a tua luz que vem de Deus.

É imperativo que o cristão compreenda o que está ao seu redor a luz das Escrituras Sagradas, que revelam a vontade de Deus, caso contrário, ele cairá na cilada posta por Leonardo Boff que condiciona a relativização toda conceituação ou julgamento de situações, inclusive as que são assunto fechado segundo o ponto de vista de Deus.

Que nossos olhos sejam purificados pela Palavra de Deus, que nosso coração seja conduzido em sabedoria e Graça pelo Espírito Santo e nos ajude a glorificar ao Senhor, Deus todo poderoso, diante dos homens, em tempos em que a mentira, a relativização e as perversões são exaltadas.

Deus te abençoe em nome de Jesus.
Davyson Gustavo de Moura Silva.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

Toda revolução é uma "Tempestade Ímpia".


"Porém, ouvindo eles isto, se enfureceram e deliberaram matá-los. Mas, levantando-se no conselho um certo fariseu chamado Gamaliel, doutor da lei, venerado por todo o povo, mandou que, por um pouco, levassem para fora os apóstolos; e disse-lhes: Varões israelitas, acautelai-vos a respeito do que haveis de fazer a estes homens. Porque, antes destes dias, levantou-se Teudas, dizendo ser alguém; a este se ajuntou o número de uns quatrocentos homens; o qual foi morto, e todos os que lhe deram ouvidos foram dispersos e reduzidos a nada. Depois deste, levantou-se Judas, o galileu, nos dias do alistamento, e levou muito povo após si; mas também este pereceu, e todos os que lhe deram ouvidos foram dispersos."
Atos dos apóstolos 5.33-37

"Como a tempestade, assim passa o ímpio, mas o justo tem perpétuo fundamento."
Provérbios 10.25

Por vezes contemplamos levantes em sociedades de ideias novas, "perspectivas modernas", progresso nas compreensões de fatos e dados. Estas novas interpretações da vida, comumente, gera desejos de revoluções na sociedade. O grande problema é quando a sociedade se deixa levar por novas compreensões, aí entramos nestas "tempestades ímpias" que destroem a convivência da sociedade, prejudicando a percepção da ciência política saudável.

Ser cristão no século XXI é uma tarefa mais difícil do que nos períodos mais sombrios da história da humanidade, onde a carnificina era um idioma comum de perseguição contra a fé cristã. 

Pode parecer absurdo esta afirmação, mas digo isto pelo fato de que, em tempos anteriores, havia valores e princípios comuns na sociedade, havia uma busca pelo belo, pelo duravél, pelo que era bom, pelo que era justo. Isto se dava devido a uma forte inclinação aos valores cristãos na sociedade, ainda que com desvios da ortodoxia bíblica, pelo fato de haver mais catolicismo romano do que cristianismo bíblico, mas o contexto geral era de temor a Deus e aos seus preceitos e valores.

Hoje, verificamos uma total perda de perspectiva dos bons valores, do percepção do que é belo, da contemplação do que é bom e justo, do senso crítico de zelar pelo bem. A sociedade deixou-se entregar, gradativamente, a conceitos, ideologias, a um academicismo antiDeus que busca não simplesmente falar que é contra Deus (isto eles blindam usando pessoas que se dizem cristãs atuando nas suas linhas de frente), mas eles se empenham em construir e valorizar filosofias, expressões artísticas, construções literárias, informações contraditórias, sistemas de "educação" que nem ensinam nem educam, tudo isto para estruturar uma sociedade incapaz de perceber a escuridão que é estar afastada de Deus e que deseja relativizar tudo para que consigam ganhar vantagens em tudo.

Podemos perceber isto olhando para aqueles que se dizem igreja, no geral. Há uma tendência natural a buscar virtudes adjetivadas, sobretudo, que contemplem sua individualidade (eu prefiria chamar individualismo, mas confesso que refleti pouco neste ponto), como por exemplo:

- Há muitos que oram por vantagens de "Justiça Social" (virtude adjetivada), quando eles estão, ou se colocam em uma camada inferior a quem eles invejam por terem mais condições financeiras. A Justiça é uma virtude ampla e acolhe aquele que constrói com trabalho a sua riqueza, como aquele que ainda não produziu o suficiente. Ao desejo de justiça social não seria melhor chamar "inveja"? (Provérbios 14.34)
- Há outros que buscam exercer uma "Caridade Cristã" (virtude adjetivada) em ações sociais que, ao invés de buscar apenas o serviço ao menos favorecido, busca na verdade uma aceitação em ambientes de difícil acesso, geralmente por violência, para ampliar poder e controle; não seria melhor chamar isto de "ganância"? (Mateus 6.3)
- Outros, dentro do contexto de instituição religiosa cristã(?), deturpam o "Trabalho Cristão", ou melhor, "Obra de Deus" (virtude adjetivada) no sentido de separar atitudes seculares de atitudes de crentes. Isto se observa quando vemos "crentes" sendo fiéis e diligentes nas Obras da Igreja, mas nos chamados trabalhos seculares não se importam de fazer coisas erradas, seja pela ação direta ou pela conivência pelo silêncio em tais atos. (IPedro 4.10)

Por que trago esta reflexão acerca dos que se dizem cristãos?

Não há esperança para o mundo caído, entregue ao pecado, se não for pelo exemplo e atuação do povo de Deus. Estes foram chamados para serem luz do mundo (Mateus 5.14), não por terem luz própria, mas por resplandecerem a Luz que vem de Deus e o mundo o glorifique como Deus (Mateus 5.16), ainda que não creiam de forma salvífica.

Pois bem, sobre as revoluções, estas tempestades que teimam em recair sobre a humanidade, elas vem e vão, mas o delimitador delas sempre estará posto na mesma medida em que o Povo de Deus se coloca em fidelidade e retidão diante da Verdade do Evangelho.

As revoluções duram o tempo do ideal do revolucionário (Atos 5.34-37). O revolucionário é o que visa mudar a ordem natural das coisas, seja nas questões econômicas, morais, de aprendizado, nas relações humanas com a natureza ou sistemas de poder, estes, lembrando, caso estejam em confronto com os ideais soberanos e eternos de Deus (Mateus 20.18), só subsistirão em dois casos: 

1- A Igreja encontra-se apática e/ou acomodada aos sistemas humanos postos (2Tessalonissenses 2.1-3); e,
2- Deus permitirá a submissão da sua Fiel Igreja pois é chegada a hora do Iníquo (2Tessalnissenses 2.3-8)

Isto posto, diante de todas as revoluções que a humanidade venha a ver, ou seja, a busca de sair do que é natural aos desígnios de Deus, a principal resistência a ordem é a Igreja do Senhor, o Povo de Deus que, desde a Criação, tem o propósito de fazer a vontade de Deus conhecida e desejada entre as nações. Isto não nos faz "revolucionários", também, como muitos pregam, isso nos faz constantes "contrarrevolucionários" que devem ter seus valores e princípios arraigados em Deus, e não nas estruturas temporais.

Mas, como disse no início, este é o tempo mais difícil para se fazer valer a vida cristã. Estamos sufocados diante de uma Revolução Cultural perversa que subtrai os melhores valores que a humanidade pode contemplar neste tempo. Infelizmente, mesmo no meio dos que se chamam pelo nome de Deus, há dificuldades em reverter o quadro, dado toda a força cultural, global, que nos tem sido imposta por todos os aspectos das ciências alcançáveis ao homem. E vale lembrar aqui que, toda a percepção de mundo livre se deve a ação ativa, enérgica, por vezes belicosa, dos que estavam buscando zelar pelos princípios de Deus. Aí entramos, provavelmente, no campo da "Guerra Justa", mas isto é outra história.

Talvez seja o tempo da apostasia. Mas, caso não seja, pergunte-se hoje, faço parte da parcela desta geração que tem buscado os propósitos de Deus? Ou faço parte da parcela da geração presente que apenas está se deixando levar pelo mamonismo atual?

Que Deus nos conceda força para resistir nos dias maus. E os dias são maus.

Graça e paz da parte do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.
Davyson Gustavo.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Não julgar! Julgar! Quem julgar?

"O cristianismo prático passa pelo uso da língua. Passa pela comunicação."
- Hernandes Dias Lopes -

Ao escrever este texto, quero enfatizar o cuidado com o alerta dado por Salomão no texto de Provérbios 6.16-19, onde se lê:

"Há seis coisas que o Senhor odeia; sete que ele detesta: olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, coração que trama planos perversos, pés que se apressam para fazer o mal, testemunha falsa que profere mentiras aquele que provoca discórdia entre irmãos.

A convivência com pessoas nos faz transparecer nossas inclinações naturais, nos permitindo uma melhor apresentação de quem somos e, no contexto que estivermos, as pessoas sensíveis e preocupadas em uma melhor interação e resultados no grupo, estarão se empenhando em nos lapidar para que nos adaptemos ao convívio social daquele grupo de pessoas. Todo grupo tem suas regras e seus meandros, e a manutenção de afinidades e potencialidades que interessam para o desenvolvimento do grupo é responsabilidade de todos que tenham os anseios alinhados.

Na perspectiva cristã temos anseios que nos transcendem a vontade e desejos. Somos impulsionados a uma contracultura que a nossa humanidade não nos permite aceitar com facilidade, visto que o que ansiamos é fazer a vontade da carne, mas discernimos espiritualmente que a vontade do Espírito de Deus é mais importante para nós. O apóstolo Paulo fala sobre isto em Gálatas 5.17, onde se lê: "Porque a carne milita contra o Espírito, e o Espírito, contra a carne, porque são opostos entre si."; mas, no verso anterior, o próprio Paulo já aconselha, dizendo: v6 "Digo, porém: Andai em Espírito e não cumprireis a concupiscência da carne.".

Diante de um momento em que os excelentes e eternos valores e princípios de Deus estão tão perdidos e pouco verificáveis no nosso dia-a-dia, até mesmo para entender o conselho de Paulo em Gálatas se faz necessário explicações e reflexões profundas, posto que o entendimento de algo espiritual é, quase sempre, confundido com movimentos e espetacularizações de emoções, buscando realizações materiais e psicológicas que não custe coisa alguma ao ser humano que declara-se "espiritual". Ou seja, é necessário que seja evocado ao consciente da pessoa o que realmente ela tem buscado, para saber se os seus objetivos está preso na sua vida presente, ou se há um anseio verdadeiro e profundo de buscar agradar Aquele que é o Início e o Fim de toda a nossa existência.

João Calvino já disse: "O coração humano é uma fábrica de ídolos.".

A natureza humana busca, desde o Éden, a independência de Deus. Fomos tão perfeitamente criados que há algo em nós que nos faz tendenciosos a não querer limites. Mas é muito bom saber que muitos de nós teremos o desejo de estarmos com o Senhor, nos submetendo  a Ele e nos arrependendo de nossos pecados contra Deus, embora imperfeitos. Não entraremos em méritos soteriológicos, mas o simples fato de que há homens e mulheres que foram/são/serão reconciliados com Deus através do sacrifício de nosso Senhor Jesus Cristo, nos permitindo a eternidade ao lado do Senhor contemplando Sua Infinita Majestade e Glória, nos permite vislumbrar a misteriosa Graça Redentora de Deus, apesar do que somos. Neste pensamento, é importante ressaltar que nenhum de nós se faz digno de honra ou mérito algum diante do Pai. Somos todos pecadores contra Deus, mas pela sua Graça e Misericórdia podemos ter a Reconciliação plena através do sacrifício da Cruz do Calvário, usufruindo do Amor de Deus.

Romanos 5.8: "Mas Deus prova o seu amor para conosco em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores."

Mas, o que tudo isso tem a ver com julgar ou não? Porque trazer tais elementos para esta reflexão?

Sobre a prática de julgar, observamos muito posicionamento que, por vezes, parecem contradizer-se. Isto se dá por haver sempre uma parcialidade sobre o texto sagrado no momento da pregação ou reflexão, onde o texto direciona (aparentemente) apenas ao julgar, ou ao não julgar. Mas esta aparente contradição se dá pelo fato de o pregador focar apenas no tema do sermão, por vezes, mas não no ensino bíblico mais amplo. Somados a isso, temos também que o próprio pregador tem suas intenções particulares, por vezes até com o bom intuito de exortar e ensinar os irmãos em uma determinada necessidade da comunidade, mas isto empobrece a mensagem ampla das Escrituras, condicionando aquele povo a uma mensagem relapsa de aparente fúria com intenções de redirecionar ações na comunidade para determinada direção.

Sobre este ponto, trago a parte inicial deste texto. O Povo da Cruz, aqueles que aceitaram O Caminho, que entendem-se como discípulos do Senhor Jesus e estão comprometidos em fazer a vontade dEle, estes devem observar a amplitude do Ensino Sagrado e perceber que é preciso fazer o necessário no momento oportuno, não para agradar ou submeter-se a pessoas ou instituições, mas atentos a uma plena submissão ao Deus Pai, Criador de todas as coisas, a Jesus Cristo, Senhor nosso e Redentor, bem como ao direcionamento do Santo Espírito que nos traz a mente o que devemos agir em determinados momentos.

Não Julgar!?

Na defesa do "não julgar", muitos utilizam textos como Mateus 7.1: "Não julgueis, para que não sejais julgados,". Mas uma pergunta que fica é: O uso deste texto é para negligência com a verdade, ou o medo de também ser julgado com a mesma medida? É assim que o texto continua, e o texto, ao meu ver, não visa a negligência com o ato de exortar e/ou julgar, mas busca que haja, antes disto, primeiro, uma atenção ao próprio testemunho e caminhada e, segundo, uma inclinação a também o ser exortado em nossos erros pessoais.

O cuidado mútuo é sempre um princípio explícito nas Escrituras Sagradas, tendo como um grande exemplo disto o episódio de Pedro e Paulo, em Antioquia, quando Pedro, reconhecido por Paulo como sendo uma das colunas da Igreja (Gl 2.9), esteve de forma repreensível (Gl 2.11) em agir de forma dúbia ao comer com os gentios, mas, depois que chegaram os judeus convertidos da parte de Tiago, se "apartou dos gentios temendo os da circuncisão" (Gl 2.12). Este cuidado com a Igreja mostra não só uma atenção subserviente apenas a Verdade, e não à líderes em atividades contrárias a Verdade, como também o cuidado mútuo que é necessário. Para a ação de repreensão de Paulo em desfavor de Pedro, como vermos em Gl 2.11, era necessário um julgamento de valores da parte de Paulo, bem como um julgamento de valores da parte de Pedro, o qual não houve registro de uma resistência quanto a repreensão do, até então, novo convertido Paulo.

Há também o texto de Tiago 4.11, onde se lê: "Irmãos, não faleis mal uns dos outros. Quem fala mal de um irmão e julga a seu irmão fala mal da lei e julga a lei; e, se tu julgas a lei, já não és observador da lei, mas juiz.". Mas espero conseguir trazer algo a somar na reflexão sobre este verso, trazendo de apoio textos como 1Pe2.1-8, Ef 4.31,32, Rm 2.1-8, 1Co 4.5-7, e convidando-os a perceber como o julgamento passa pela necessidade de uma autorreflexão e, sobretudo, de uma anuência com a Verdade encontrada na Revelação Especial de Deus, as Escrituras Sagradas, e não mediante vaidades pessoais.

Muito embora pareça ser que há uma proibição ao ato de julgar, esta impressão, mesmo nos textos que são mais comumente utilizados para esta demonstração, só o pode ser retirando-os de seu contexto imediato e, também, ignorando a Revelação completa das Escrituras. Assim fazendo, acabamos vendo pregações inconstantes, insustentáveis, providenciando apenas uma superficial exposição sobre o "não julgar" que tanto permite muitos saírem do seu direito como indivíduo, para uma imposição do seu individualismo com custas dos preceitos de Deus. Isto se dá pelo simples fato de criar-se uma narrativa que proíbe a prática da crítica sobre os comportamentos, palavras e ações, ignorando uma perspectiva transcendente a nossa pessoa, e aceitando por completo a perspectiva de Deus sobre nossas vidas.

Julgar?

"Sabeis isto, meus amados irmãos; mas todo o homem seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar. Porque a ira do homem não opera a justiça de Deus. Pelo que, rejeitando toda imundícia e acúmulo de malícia, recebei com mansidão a palavra em vós enxertada, a qual pode salvar a vossa alma.
E sede cumpridores da palavra e não somente ouvintes, enganando-vos com falsos discursos. Porque, se alguém é ouvinte da palavra e não cumpridor, é semelhante ao varão que contempla ao espelho o seu rosto natural; porque se contempla a si mesmo, e foi-se, e logo se esqueceu de como era. Aquele, porém, que atenta bem para a lei perfeita da liberdade e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecido, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito.
Se alguém entre vós cuida ser religioso e não refreia a sua língua, antes, engana o seu coração, a religião desse é vã. A religião pura e imaculada para com Deus, o Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e guardar-se da corrupção do mundo.

Tiago 1.19-27 (grifos meus)

Temos, muito mais comumente, a instrução de não julgar. Como já dito, isto apenas com a obliteração de contextos imediatos e mais amplos das Escrituras Sagradas acerca do assunto posto. Mas, claro, para toda atividade que executamos na vida, há responsabilidades e princípios a serem observados. Não podemos objetivar atividades que ignoram valores, princípios e preceitos que transcendem nossa individualidade, mas é preciso atenção de onde buscamos tais valores e preceitos.

Independente da época ou região, do contexto cultural ou de fatores imediatos de conveniência ou custos para nós, sempre estamos entre diversos fatores de julgamento para determinar quais os valores seguimos. A nossa tendência mais natural de escolha esclarece os princípios que acolhemos em nosso interior (seja mente, seja coração, seja psique, chame como quiser), de onde buscamos a nossa fundamentação.

Se nossa escolha mais natural aponta para uma vantagem pessoal e individualista, apenas, mostra que os princípios que acolhemos cuida apenas de nossa existência e passamos a ser pessoas ainda mais egoístas e egocêntricas, nos impulsionando para julgamentos que não necessariamente busca verdade e justiça, mas um conjunto de vantagens que mantenha, amplie ou estabeleça nossa posição ou poder para nós mesmos.

Se nossa escolha mais natural aponta para a acomodação em um determinado grupo de pessoas, mesmo as custas de escarnecer de outros grupos que tenham parte em uma perspectiva de justiça e verdade, isto mostra que nossa fundamentação de justiça e verdade se baseia em uma aceitação de grupo, apontando para uma dependência comunal perigosa, que, por vezes, suplantará conceitos transcendentes que vem de Deus.

Se nossa escolha mais comum está fundamentada em Deus, em Seus preceitos e mandamentos, temos a certeza que teremos confrontos em nossa individualidade (que é naturalmente egoísta), e também com nosso grupo que temos afinidade (seja com todos, ou com alguns), mas este é o caminho mais seguro e correto a se seguir.

No texto de Tiago 1.19-26, como exemplo, percebemos sem muito esforço que a preocupação não é o julgamento, mas a fonte de onde jorra os valores do indivíduo. Na capacidade de reflexão e consciência de que o ser humano é corrompido em suas próprias justiças e que há uma resistência ao aceitar  os preceitos de Deus para nossa vida (v21-22), afinal de contas, um enxerto é sempre algo não natural que se recebe, e o autor bíblico determina: "... recebei com mansidão a palavra em vós enxertada".

Não podemos esperar de nós mesmos, em nossos discursos mais bem elaborados, que possamos gerar algo bom se apenas dizemos o que as Escrituras dizem sem colocar em prática tais ordenanças (v23). A alegria do indivíduo não está em sua própria vontade ser fundamento de suas ações, mas na perseverança de buscar efetuar as ordenanças de Deus, revelada em Sua Palavra, que lhe permitirá a alegria garantida em Cristo Jesus.

Dito isto, o julgamento ou não, deve partir não simplesmente de uma circunstância momentânea, mas da preocupação de onde estamos arraigados. Certamente que este conselho não serve ao ímpio que vive em um contexto pervertido culturalmente, mas, apenas ao cristão que deve ser conhecedor de sua condição de vida que é de alguém que morreu para si mesmo e agora vive a vontade do Pai, não mais a sua. Se o tal sente que em seu pensamento, palavra ou ato há apenas um desejo egoísta e não há fundamentação em Deus, ainda que seja necessário uma intervenção no momento, é melhor guardar o juízo para si, e buscar em Deus a resposta necessária, evitando assim uma postura vã (cf. v26).

No verso 27, há um texto muito usado sobre a religião verdadeira, que muitos usam como apelo para obras sociais e ações de socorro. Mas comumente apenas o "visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações" é lembrado. Na grande maioria das vezes a terceira característica é negligenciada e esta, diz o texto: "...e guardar-se da corrupção do mundo."

Quem julgar?

Não será fácil sair da bolha cultural que sujeitou a sociedade ao abandono de uma postura crítica, ativa e objetiva quanto a uma condução mútua de boas ações como sociedade. Para isto é necessário, impreterivelmente, a ação de julgar. estamos vivendo, talvez, a época de maior abandono do conceito de fé, sobretudo, da fé no Único e Soberano Deus do qual todas as virtudes fluem e transbordam, incontestavelmente.

Mas onde mora a dificuldade de agir o julgar?

No geral, os nascidos até a década de 80, ao menos na minha região, Paraíba, ainda usufruíram de uma sociedade de maioria católica apostólica romana, com princípios e valores que sobrepujam em muito o que vemos hoje em meios evangélicos. Havia um cuidado desde a família nos modos de se comportar, no que se falava, no respeito, não só aos pais, mas aos mais velhos da comunidade, do vestir-se, nas responsabilidades como homens e como mulheres na sociedade. Pudemos observar na prática famílias organizadas e, como se dizia, tementes a Deus e aos seus mandamentos. Não havia celulares nem redes sociais, e até os telefones residenciais eram privilégio de poucos, mas o que fazia-se do outro lado da cidade, ao chegar em casa, nossos pais e avós já tinham conhecimento. Isso se dava porque havia uma preocupação com o todo, e a sociedade gerenciava-se em respeito pela boa condução. Isso, claro, porque havia uma orientação religiosa comum a todos, e os bons princípios fortalecia a sociedade em busca de uma vida comum virtuosa.

No passar dos anos com o fortalecimento de matérias como psicologia, sociologia e as filosofias mais humanistas e pouco preocupadas com verdades transcendentes e realidade comum, vimos uma migração desta consciência comum e responsabilidades individuais, para um fortalecimento do individualismo e de relativizações de valores.

Mas aos cristãos, a fundamentação não pode mudar, visto que os valores são permanentes e não podem ser observados de pontos de vista temporais ou humanos. Os princípios cristãos eclodem da Revelação Especial de Deus nas Escrituras Sagradas e não variam, pois Deus não muda.

O apóstolo Paulo escreve aos Coríntios, em sua primeira carta, algo que talvez nos esclareça alguns princípios do que julgar, e, sobretudo, quem julgar.

"Já por carta vos tenho escrito que não vos associeis com os que se prostituem; isso não quer dizer absolutamente com os devassos deste mundo, ou com os avarentos, ou com os roubadores, ou com os idólatras; porque então vos seria necessário sair do mundo.

Mas, agora, escrevi que não vos associeis com aquele que, dizendo-se irmão, for devasso, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com o tal nem ainda comais. Porque tenho eu em julgar também os que estão de fora? Não julgais vós os que estão dentro? Mas Deus julga os que estão de fora. Tirai, pois, dentre vós a esse iníquo."

I Coríntios 5. 9-13

Paulo nos permite uma perspectiva muito mais elevada.

Em termos de século XXI, é difícil entender, de pronto, visto que há uma tendência monástica na Igreja atual, ou seja, há um claro movimento de tentar enclausurar a Igreja em seus limites eclesiásticos, não como até a Reforma Protestante, onde monges eram a expressão de uma vida piedosa da Igreja Católica Apostólica Romana e, a partir de um monge, Martinho Lutero, surgiu a percepção de que afastamento da Igreja do mundo secular não era o que Deus havia planejado, tal qual se pode perceber no primeiro movimento de expansão do cristianismo, logo após a crucificação do Senhor Jesus, quando os primeiros cristãos decidiram fechar-se em Jerusalém, mesmo diante da ordem de Jesus em Atos 1.8, que diz: "Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas tanto em Jerusalém, como em toda a Judéia e Samaria e até os confins da terra."; A função da Igreja sempre foi testemunhar ao mundo, segundo o poder que vem do Espírito Santo de Deus, estando no mundo e não fora dele, assim como ora Jesus Cristo, no Evangelho segundo João 17.15: "Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal.".

Mas, neste mundo, teremos dificuldades que serão postas, não por Deus mudar Sua orientação, mas por a humanidade buscar meios cada vez mais criativos de contornar os preceitos de Deus. Hoje, em pleno século XXI, onde temos um vasto acesso a Bíblia Sagrada, em diversas traduções, muitos livros teológicos, pesquisas online em bibliotecas do mundo todo, pregações de diferentes vertentes para comparação, com tudo isso e muito mais, temos um total desligamento do sentido de fé, piedade, fidelidade, temor a Deus e, até mesmo, uma ignorância gigantesca acerca da pessoa de Deus e de seus atributos. Já hoje somos inescusáveis de nosso afastamento de Deus como sociedade.

Mas voltando a Paulo, no que escreve aos Coríntios, somando já o que o próprio Jesus direciona em Atos 1.8, e como parte da sua oração em João 17.15, é fácil perceber que devemos estar no mundo, sim, mas atentos a não sermos tragados pelo mal que nos cerca. 

Temos a responsabilidade de lidar com os ímpios, sabendo que eles não sabem quem é Deus, nem conhecem Seus preceitos. Estas orientações cabe a nós levar até eles e mostrar, vivendo neste mundo de forma piedosa e temente a Deus, cumprindo os mandamentos de Deus em todos os aspectos da vida, para que possamos seguir a exortação registrada em 1Pedro 2.11-12:

"Amados, peço-vos, como a peregrinos e forasteiros, que vos abstenhais das concupiscências carnais, que combatem contra a alma, tendo o vosso viver honesto entre os gentios, para que, naquilo em que falam mal de vós, como de malfeitores, glorifiquem a Deus no Dia da visitação, pelas boas obras que em vós observem."

 Não pode haver temor em nós quanto ao que nos julgarão os de fora, ou pelo que venha a ser perdido. Se algo for perdido por não fazermos o mal, isto demonstra que estamos ainda incapazes de governar aquela região ou cultura, visto que os valores de Deus causam punição ou perda. E isto deve ser avaliado por nós, não como demérito, mas com alegria de sermos "perseguidos por causa da justiça" (cf. Mateus 5.10-12), mas também com empenho para que os preceitos de Deus possam ser observados na sociedade visto que, apenas assim podemos chegar a justiça e verdade na administração das relações humanas.

Mas Paulo enfatiza que a nossa preocupação deve estar, primeiramente voltada para o cuidado de não nos enganarmos com falsos irmãos que pervertem os valores no meio do povo de Deus. Estes devem ser excluídos do nosso meio e, para isto, deve haver juízo, ou melhor dizendo para um bom entendimento do artigo posto, julgamento.

Aqui não deixamos de passar pelo cuidado em observarmos os preceitos de Deus, vivermos estes preceitos (e não sermos apenas ouvintes), e assim desenvolvermos capacidade de julgar segundo os preceitos do Senhor, Deus todo poderoso, naquilo que Ele nos permite ver e vivenciar. Mas o julgar certo e errado, bom e mal, verdadeiro e falso, deve ser uma prática constante e ativa em nosso meio.

Quem julgar, então? A menor das preocupações deve ser com os que são de fora da comunidade cristã. Estes, segundo o próprio escritor bíblico, "Deus julga os que estão de fora.", a nós nos cabe começar o julgamento com os que são de dentro, e a inclinação à Verdade, não à narrativas parciais, individualistas ou coletivistas que visam vantagens pessoais, mas a Verdade que glorifica a Deus, esta inclinação trará a tona os que são de verdade, irmãos em Cristo.

O próprio Paulo, também escrevendo aos Coríntios, fala:

"Em primeiro lugar, ouço que, quando vocês se reúnem como igreja, há divisões entre vocês, e até certo ponto eu o creio. Pois é necessário que haja divergências entre vocês, para que sejam conhecidos quais dentre vocês são aprovados."

1Coríntios 11.18,19 (NVI)

As divergências não são um mal em si. O mal estar em que, diante de tais divisões, a escolha seja pelo mau caminho que não considera os princípios de Deus, tornando as decisões ofensivas ao que é bom, perfeito e agradável, tal qual o é a vontade de Deus (cf. Romanos 12.2).


Diante de tudo isto a maior preocupação em julgar não deve ser contra o ato de o fazer, mas baseado em que o fazer. É necessário reestabelecer a capacidade crítica da sociedade, de fomentar a ação de, diante de um fato, haver uma reflexão e, consciente de que o ser humano tem responsabilidades morais diante dos fatos da vida, ele esteja apto para agir sabendo que de sua ação desdobrar-se-á consequências de suas atitudes.

A função da Igreja é restabelecer um convívio onde haja a reflexão sobre os propósitos de Deus, ainda que sejam ateus a decidirem, mas que possamos ser competentes em ser a luz do mundo que o Senhor Jesus nos convocou a ser, resplandecendo a Sua verdade e justiça (Cf. Mateus 5.14-16).

No âmbito da Igreja, só haverá mau entendido em duas situações: Ou os irmãos não estão alinhados com a vontade de Deus e ambos têm vaidades em disputa; ou um dos dois está errado e precisa ser corrigido, mas é preciso que haja na comunidade cristão maturidade e total humildade de espírito para discernir diante de Deus quem está com a Verdade.


Que Deus abençoe a todos, em nome de Jesus.