quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

Liderança Cristã - Há responsabilidade em todos os cristãos


"E, chegando-se Jesus, falou-lhes, dizendo: É-me dado todo o poder no céu e na terra. Portanto, ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-as a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos. Amém!"
Mateus 28.18-20

Liderança é um termo que flui muito naturalmente hoje em dia. De diversas formas, há um condicionamento espontâneo a dar este título a qualquer pessoa que tenha alguma habilidade com condução de pessoas, mas não pelo exemplo ou pela capacidade de desenvolver outros, mas, infelizmente, pelo talento de controlar e comandar outros de forma a gerar determinados resultados, em seus respectivos segmentos.

Isto não é diferente dentro de muitas instituições cristãs. O século XXI é marcado por um envolvimento cultural profundo com controle de massas. Neste momento me inclino a lembrar de uma das mensagens da chamada "Revelação de Nossa Senhora de Fátima", em que na sua última aparição foi "revelado" a três crianças sobre o espalhamento dos males da Rússia, ou seja, os males do comunismo pelo mundo. Isto antes da Segunda Guerra Mundial, onde ainda não havia tido a revolução comunista na Rússia, o que hoje vemos muito claramente as nuances deste sistema totalitário implementado, inclusive, dentro de comunidades cristãs que não percebem o mau cultural comunista ali vivido. Seja Gramsci, seja Marx, seja Hegel ou qualquer outro teórico, é fato que o que podemos constatar é uma total dissociação do valor inerente da vida humana, de forma mais geral, bem como do sacerdócio universal dos santos na vida da Igreja, em uma aspecto mais específico e importante.

Quero deixar claro que não estou aqui declarando que sou afeito a revelações deste tipo. Deixei de ser Católico Romano há mais de 14 anos, devido o fato de encontrar na Tradição (o que é mais reverenciado do que as Escrituras Sagradas, para o Católico Romano) questões que subjugavam as Escrituras Sagradas e não haver uma resposta sobre tais discrepâncias. Mas não posso deixar de perceber a relevância do que foi declarado pelas três crianças e não me sentir embasbacado com tal acontecimento. Mas não me movo por milagres ou aparições. O que me guia são os princípios revelados nas Escrituras Sagradas, visto que me apresentam um ponto de apoio fixo, soberano e muito mais excelente do que qualquer vontade humana mutável, dependendo dos valores e crenças reais dos líderes (2Coríntios 11. 13-15).

Pois bem, voltando ao assunto de liderança, há uma grandessíssima perversão do termo (inclusive, perverter a linguagem distorcendo conceitos é uma tática cultural do comunismo) para que os postos de autoridade sejam meios de controle de massas, grandes ou pequenas, para fazer com que determinadas pessoas consigam conquistar ganhos financeiros ou sociais subjugando outros. A tal "liderança de hoje", não traz consigo responsabilidades, mas privilégios dados de cima para baixo.

O texto posto no início deste artigo tem partes importantes para reflexão e percepção de todo aquele que decide ser cristão, ou seja, seguidor de Cristo, ao passo que, ignorando-se tais pontos, fica impossível avançar na vida cristã e realmente ser um seguidor do Senhor Jesus visto que, exposto a tão excelentes princípios, nos vemos em um perigoso terreno onde nosso ego se torna nosso principal inimigo, e a ânsia por poder a maior tentação.

Segundo o relato de Mateus, após ressuscitar, o Senhor Jesus aparece a Maria Madalena e a Maria. Após um anjo falar com elas (Mt 28.5-7), o próprio Senhor aparece a elas confirmando a instrução de que os discípulos deveriam ir até a Galiléia, em um determinado lugar para que o Senhor lhes falasse (Mt28.9-10). As mulheres assim o fazem e os onze discípulos seguem para a Galiléia, para o lugar indicado e lá veem o Senhor e O adora (Mt28.16-17)

No relato  em Mateus, vemos o início da fala do Senhor por um ponto crucial, determinante para toda a caminhada cristã, de forma a não deixar dúvidas da origem de autoridade e poder sobre a vida dos Seus seguidores, bem como de toda a criação:

"É-me dado todo o poder no céu e na terra." (Mt28.18)

Talvez este ponto seja o mais importante desta perícope exposta no início e seria impossível exaurir seu significado em apenas um texto. A soberania, a plenitude de sabedoria, o domínio, a majestade, e todos os demais atributos de Deus podem ser contemplados através desta declaração. Não é o poder acerca de doutrinas espirituais, de eclesiologias ou divisões da teologia, mas é TODO O PODER/AUTORIDADE (εξουσια*) é declarado de forma direta como sendo do Senhor Jesus. Não há uma perspectiva de domínio que não seja pensada pelo cristão (por este ter a Revelação) que não passe pelo poder ou autoridade do Senhor Jesus. É uma perversão de consciência que o líder cristão perceba sua reponsabilidade a parte dos princípios de Deus de doação, serviço, dedicação, amor, caridade, mas também de justiça, verdade, virtude, zelo, piedade (no sentido de devoção a Deus), preservação da vida, entre outros, de acordo com os princípios de Deus.

Em uma aula sobre liderança cristã, certa vez, ouvi do ministrante a afirmativa que: "Se você está em um ministério que você discorda das posturas do pastor, mesmo que com base bíblica na discordância, e você não consegue mudar, mude de ministério.". O questionei acerca desta postura, visto que não haveria amor nem cuidado com a doutrina cristã, tal qual houve em Paulo quando exortou Pedro a ser mais sincero em sua atitude para com os gentios diante dos judeus (Gl 2.11-15). Ou seja, Pedro por ser encontrado repreensível, foi repreendido, mesmo sendo considerado pelo próprio Paulo como uma coluna da fé (cf. Gl 2.9). Esta é a responsabilidade da liderança cristã, tanto a atitude de repreender no erro, como o fez Paulo, bem como em não resistir a repreensão, como aparentemente fez Pedro, por não haver registro de resistência ou aversão a Paulo por parte de Pedro.

A liderança cristã não deve ser sinônimo de autoridade, justamente pelo conhecimento deste ponto tão importante de que TODO PODER/AUTORIDADE está nas mãos do Senhor Jesus, e é preciso ter a plena certeza de nossa condição humana caída, que necessita da glória de Deus revelada na pessoa do Filho, Jesus Cristo. A liderança cristã deve ser sinônimo, sim, de responsabilidade. Responsabilidade de desenvolver outros irmãos na vida cristã; responsabilidade de testemunhar com fidelidade os princípios de Deus, dentro e fora da comunidade cristã; responsabilidade em ser um cidadão na terra consciente da cidadania mais excelente como filho de Deus. Em um mundo caído e cheio de perversidade, é óbvio que haverá muito mais desafios do que tranquilidade na vida do cristão, mas a medida que alcançarmos mais excelência na vivência cristã, mesmo os ímpios que liderarmos, ou que nos liderar, verão a excelência dos princípios de Deus e isso será também almejado por eles. Verdade, virtude e justiça sempre serão necessidades humanas, salvo os perversos patológicos.

A autoridade está posta na Igreja do Senhor, não em líderes apenas. Não é possível que alguém ofendido possa julgar com justiça, dependendo de outros irmãos, arraigados profundamente nos princípios de Deus para que possam julgar em dificuldades. Em 1Coríntios 6.4 (NVI), lemos: "Portanto, se vocês têm questões relativas às coisas desta vida, designem para juízes os que são da igreja, mesmo que sejam os menos importantes."; sim, em seguida Paulo fala que isto é dito para envergonhá-los. Também admito ser um versículo de difícil tradução em si para alcançar o seu total significado, mas no contexto é possível identificar que há uma preocupação em que a justiça flua da Igreja do Senhor e não de fora, mesmo que os "mais importantes" se submetam ao julgamento de irmãos em Cristo de menos destaque, mas que estejam em igual temor e zelo pelas coisas de Deus. A liderança não pode ser déspota nem impositiva, mas submissa sempre ao total poder e autoridade de Deus.

"Portanto, ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-as a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado;" Mateus 28. 19,20a

"Portanto", uma conjunção conclusiva utilizada na tradução da partícula grega "ουν", que vem com a ideia de conclusão também após o raciocínio anterior. Este é o da totalidade do poder nas mãos de Jesus Cristo. Assim sendo, o famoso IDE (πορευθεντες), tão reverberado por muitas igrejas na questão de querer dar sentido aos seus trabalhos, segue logo após a conscientização de que TODO PODER FOI DADO A JESUS CRISTO, NO CÉU E NA TERRA. Sendo assim, este IDE não pode ser condicionado à vontade de autoridade humana alguma e, por isso, vemos em toda a história da Igreja Cristã testemunhos de mártires (parece uma redundância visto que a palavra que lê-se mártir no grego, traduz-se testemunha no português) que deram a vida por seu testemunho de fé em Jesus Cristo, mantendo suas total fidelidade e submissão a Ele, não a homens ou sistemas humanos postos em cada um de seu tempo, seja ele político, científico ou cultural.

A conclusão segue o imperativo IDE em outro imperativo de ENSINAR. Mas não vejo uma limitação deste imperativo de ENSINAR como sendo apenas a Igreja. "Ensinai todas as nações", mas o termo utilizado é matheteuo (μαθητευω), o que pode ser distinguido espiritualmente como simplesmente seguidores de Cristo, ou como um sistema de pensamento universal. O termo é desenvolvido muito anteriormente por Sócrates, Platão, Homero, tendo a conotação do ensino a outros passando pela importância da percepção moral dos fatos para a prática comum. Filosoficamente, apenas conhecimento para uma vida moral. Espiritualmente a consciência de que não há poder ou autoridade que não venha de Deus. Filosoficamente o ensino é superficial e imanente. Espiritualmente o ensino é profundo e transcendente. Podemos perceber a importância do avanço da harmonia entre estes dois aspectos quando contemplamos o crescimento e desenvolvimento das sociedades, no que chamamos de mundo livre, que saíram de impérios para democracias, mesmo que nem todas as pessoas fossem necessariamente seguidoras de Cristo.

Podemos sim observar uma aplicação plenamente espiritual visto que a frase se segue no outro imperativo de "batizando-os". Há claramente uma escalada de IDE, para ENSINAI, para BATIZANDO, imperativos presentes nesta afirmação, mas preciso ainda referir que esta escalada está sob a conjunção conclusiva acerca de que TODO PODER pertence ao Senhor. Não posso ficar preso apenas no ativismo eclesiástico, mas preciso olhar para uma responsabilidade maior e mais abrangente visto que tudo pertence a Deus, e Ele mesmo pôs o homem para administrar (Salmo 8, por exemplo). Preciso refletir sobre a harmonia entre a soberania de Deus e a liberdade do homem. Este, pode ser livre, mas não se faz menos responsável a seu bel prazer. Tudo lhe será cobrado!

A opção daqueles que ouvem a ordenança do Soberano Deus, o Senhorio de Cristo, deve dar-se a entender e cumprir uma última ordenança ainda nesta perícope posta:

"... ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei." Mateus 28.20a

A ideia deste blog é uma vivência cristã. Não uma vida bitolada, cheia de chavões evangeliquês, que pouco produzem para a vida comum de todos. Observando a vida de muitos dos grandes cristãos, líderes que serviram de exemplo se dedicando a apresentar ao mundo os excelentes valores e princípios de Deus em diversas áreas de conhecimento, vejo que este ensino pode ser muito mais abrangente do que apenas fazer pessoas serem religiosamente fiéis às suas comunidades fechadas, se prostrando a qualquer outra doutrina que fira os preceitos de Deus para a vida humana.

As grandes universidades no mundo iniciaram-se com o serviço dedicado de grandes cristãos que visavam difundir e disseminar o conhecimento científico, buscando entender a criação de Deus e tudo aquilo que precisava de profundas reflexões filosóficas, cientificas e matemáticas para entender a amplitude da Criação. As tantas áreas humanas foram desenvolvidas buscando trazer ao consciente humano as melhores práticas de lidar com a natureza humana segundo os preceitos do Criador. Mas é fato que hoje vemos muita perversão quanto a isso, mas isso não se dá pela possibilidade do estudo, mas pela apatia e ingerência do Povo de Deus em produzir academicamente material relevante, bem como este mesmo povo se eximir de debates e confrontos científicos, políticos, humanos e matemáticos acerca de tudo que foi construído diante de Deus.

Para ensinar a obedecer os preceitos de Deus, não se deve pensar apenas como chefe ou dono da situação, mas como líderes que devem conduzir pessoas ao desenvolvimento individual para o melhor desempenho de suas funções. Estas melhores funções só serão alcançadas se seguidas as instruções de quem os projetou e os criou, ou seja, do próprio Deus. Ainda que muitos escolham não ser cristãos, mas o trabalho da responsabilidade universal dos santos, dos salvos no Senhor, é apresentar em todos os aspectos da vida a excelência que encontramos nos propósitos de Deus.

Podemos constatar em leituras de importantes cristãos, como o embate de ideias era uma possibilidade que desenvolvia os conceitos. Pessoas como C.S.Lewis, Francis Schaefeer, Dietrich Bonhoffer, entre muitos outros, especialmente os mais antigos, que discutiam em grandes centros públicos de debates, estes momentos de confronto eram de rica compreensão do que era ensinado. Lucas relata em Atos 17.15-34 o episódio de Paulo no Areópago em Atenas, onde em uma apresentação pública, aberta aos questionamentos, Paulo trouxe a compreensão da percepção do "Deus desconhecido" pelos gregos, que possibilitou a eles se aproximarem da verdade acerca de Deus, muito embora tenham entendido a Ressurreição (αναστασις- anastasis) como se fosse uma outra deusa (cf Atos 17.32), dado o seu nível de crenças em diversos deuses. Fato é que o informar do Único e Eterno Deus se faz necessário a todos, não apenas aos que se dispõe na Igreja. 

Na Igreja, a liderança deve empenhar-se, justamente, em ensinar a viver os preceitos e princípios de Deus entre os gentios, sabendo aplicar o conhecimento, bem como informar sobre o Deus Eterno com eficiência e sabedoria, mostrando o quanto é bom e saudável vivenciar o que o Senhor nos ordena.

Dito tudo isto, a liderança cristã não deve ser encarada como um recurso de poder e autoridade por nenhum cristão, visto que TODO PODER E AUTORIDADE pertencem ao Senhor Jesus Cristo. Mas há uma extrema RESPONSABILIDADE de todo cristão em vivenciar conforme os preceitos de Deus, para que os ímpios vejam as nossas obras e glorifiquem a Deus que está nos céus (Mateus 5.16). Em caso de a liderança perder-se das pegadas de Cristo e de Seus preceitos, é uma prova de amor dos liderados exortá-los a voltar o prumo do Deus.


Que Deus abençoe a todos, em nome de Jesus.
Davyson Gustavo de Moura Silva

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* G01849 εξουσια exousia: 1) poder de escolher, liberdade de fazer como se quer; 1a) licença ou permissão; 2) poder físico e mental; 2a) habilidade ou força com a qual alguém é dotado, que ele possui ou exercita; 3) o poder da autoridade (influência) e do direito (privilégio); 4) o poder de reger ou governar (o poder de alguém de quem a vontade e as ordens devem ser obedecidas pelos outros); 4a) universalmente; 4a1) autoridade sobre a humanidade; 4b) especificamente; 4b1) o poder de decisões judiciais; 4b2) da autoridade de administrar os afazeres domésticos; 4c) metonimicamente; 4c1) algo sujeito à autoridade ou regra; 4c1a) jurisdição; 4c2) alguém que possui autoridade; 4c2a) governador, magistrado humano; 4c2b) o principal e mais poderoso entre os seres criados, superior ao homem, potestades espirituais; 4d) sinal de autoridade do marido sobre sua esposa; 4d1) véu com o qual a mulher devia propriamente cobrir-se; 4e) sinal de autoridade real, coroa.

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