domingo, 24 de maio de 2026

Débora e Jael: Não é sobre "empoderamento", é sobre responsabilidade.

 


Otniel (Jz 3.7-11), Eúde (Jz 3.12-30), Sangar Jz3.31), (...), Gideão (Jz 4-5), Gideão (Jz 6-8), Jefté (Jz 10-12), Tola (Jz 10.1-2), Jair (Jz 10.3-5), Ibzã (Jz 12.9-10); Elom (Jz 12.11-12), Abdom (Jz 12.13-15) e Sansão (13-16). Estes são todos os Juízes que julgaram e libertaram Israel em um período registrado na Bíblia (O Livro de Juízes) onde, entre tantas outras lições, a inconsistência de fidelidade do povo de Deus é escancarada. Todos os homens listados acima. Mas há neste período uma juíza que julgou o povo de Israel em dado período, Débora (Jz 4-5), mas não foi ela a libertadora em seu período, nem o general que Deus teria incumbido de libertar Seu povo, Baraque, mas sim uma outra mulher, Jael (Jz 4. 18-21), por vezes esquecida.

O motivo de eu decidir escrever sobre esta juíza e sobre a libertação por mão de uma mulher, Jael, se deu pelo crescente movimento "feminista cristão" (estou sendo sarcasticamente irônico, claro). Mas não falo daquele movimento que é escancaradamente pervertido e entregue à ideologias de esquerda, mas aquele que está se formando dentro de movimentos de direita, pelas mulheres que buscam notoriedade e escalada no campo bélico da política, mas não abrem mão de bases esquerdistas de vitimismo e/ou o famigerado empoderamento feminino.

Desde já  conclamo à paciência toda e qualquer mulher que tenha a intenção e a fundamentação como conservadora para não julgar de imediato como ofensa, mas me permita o benefício da dúvida e me permita apresentar uma perspectiva construtiva, mostrando que, se até aqui você se sentiu ofendida é apenas fruto de uma cultura que perverteu os princípios que você corrobora.

O período do livro de Juízes na Bíblia Sagrada onde havia uma ênfase no ciclo de comportamento do povo e de Deus onde, basicamente: O povo se rebelava - Deus mandava a opressão - O povo se arrependia - Deus levantava um libertador (Juiz). Mais detalhadamente na imagem gerada por IA abaixo.


Neste período há uma predominância quase que total de ações por parte de homens que foram levantados por Deus, tanto para julgar o povo como para libertar através de ações bélicas ou ataques estratégicos contra os inimigos que foram levantados para levar o povo ao arrependimento. Mas há, entre eles, uma ocorrência que nos chama a atenção: A Juíza Débora.

É importante enfatizar o padrão que foi quebrado, e perceber a forma e a motivação que levaram (ao meu ver, destaco isto) o levante de Débora como juíza, bem como o uso e a honra dada a uma mulher para matar o general inimigo. Se evitarmos estes porquês, creio eu, estamos abrindo mão de fortes e importantes indicativos principiológicos da fé e orientação de Deus nas Escrituras. Mas não podemos perder de vista que Deus nunca se permitiu ser colocado em caixinhas limitadas, mas não rompe princípios sem motivação maior e de forma didática, assim creio e assim harmonizo questões de difíceis entendimento, como é o caso.

Depois da morte de Eúde, o texto bíblico apresenta brevemente Sangar que havia "feriu seiscentos homens filisteus com uma aguilhada de bois; e também libertou Israel" (Jz 3.31). Depois deste impressionante testemunho, é apresentado mais um momento de rebelião de Israel contra Deus, o que gera a punição do Senhor os entregando nas mãos de Jabim, um rei cananeu.

Há Juízes que o texto fala claramente que Deus o levantara para livrar Israel, outros que levantou-se o juiz, há Jefté que foi convocado pelo povo a lutar por eles, e outros que foram visitados por anjos como Sansão e Gideão.

No caso de Débora há uma particularidade. Há o registro da rebelião (4.1), a opressão enviada por Deus (4.2), e o clamor dos filhos de Israel (4.3). Os versos quatro e cinco do capítulo quatro nos informa que Débora já "julgava Israel naquele tempo", e referencia que ela atendia o povo sobre as questões de juízo.

A primeira olhada parece apenas uma ocorrência de um diferente modo de agir, mesmo já deixando a surpresa de haver uma mulher a frente de um importante ofício entre o povo de Israel, que tinha uma estrutura patriarcal e, dado o contexto de constantes conflitos, não dava muita ênfase nas atividades das mulheres na sociedade. Mas o que vem a seguir, penso eu, pode trazer luz a uma possível explicação para esta particularidade feminina em conduzir tal ofício.

Os versos seis e sete apresenta a juíza convocando o homem que seria o braço bélico para a libertação do povo. Baraque não foi convocado à juiz, mas para ser o general de guerra contra Sísera, o general cananeu do rei Jabim. A resposta de Baraque pode ser uma referência à postura dos homens naquele momento de covardia, transferindo a responsabilidade para a persona feminina que estava à frente (talvez por falta de disposição masculina, especulo eu, não que a Bíblia diga isto). Baraque, ouve de Débora a ordem de Deus de que ele deveria convocar "dez mil homens dos filhos de Naftali e dos filhos de Zebulom", com a garantia de que Deus entregaria a Sísera, seus carros de guerra e suas tropas nas mãos dele. Não era que Débora o faria, mas que o próprio Deus o tinha garantido a vitória.

Um homem, general de guerra, convocado pela Juíza em exercício naquela região e momento, entregando uma ordem direta de Deus de que ele deveria ir ao front e que lhe estava garantida a vitória por Deus. Qual deveria ser a resposta neste quadro? Como deveria ser portar alguém que foi dotado com o dom da violência para guiar tropas em defesa do povo? Espero que sua resposta seja a contento, pois a de Baraque não foi.

O verso oito mostra um general, aparentemente (vou colocar este advérbio para aliviar o julgamento), amedrontado, respondendo: "Se fores comigo, irei, porém, se não fores comigo, não irei."

Confesso aqui que não estou habilitado para uma profunda exegese no hebraico bíblico, mas avaliando comentários e outras versões, esta seria a categorização mais provável. Mas também há os que entendem que a posição de Baraque seria "uma louvável relutância em lutar sem o apoio do Senhor". Sou obrigado por regras hermenêuticas a olhar para o texto em seu contexto, observar a historicidade e o que gramaticalmente ele apresenta (como disse da minha limitação de exegese em hebraico, fico limitado neste ponto a comentários e versões relevantes do texto).

Há uma particularidade ainda maior no registro de juízes, no caso da juíza Débora que, diante da recusa, a solução não vem pelo uso da juíza como ferramenta bélica, mas sendo profetizado que "a honra" de matar o general inimigo não seria do general Baraque, mas de uma mulher. Até aqui sem nome, e sem o modo como o seria. Mas como poderia ocorrer assim se não havia mulher convocada para a batalha? O texto relata que Débora foi com Baraque, mas porque ela não se identifica como um "eu o farei"?

Penso que pelo quadro que foi pintado até aqui no texto, o objetivo era apenas mostrar a Baraque sua covardia diante do mandado de Deus, e que isto lhe seria custoso no campo de batalha. 

Não vou passar pelos versículos sobre o posicionamento de tropas e batalha. Este não seria o alvo do texto, mas sim o aparecimento da mulher que faria Sísera ser morto. Jael, mulher de Héber, queneu. Entre Jabim e Héber havia paz, e ao cair as tropas de Jabim, sob o comando de Sísera, este foge do campo de batalha e se abriga na tenda de Jael a convite da mulher. Sísera é acolhido, coberto com uma coberta, recebe leite para matar a sede e instrui Jael a negar caso alguém passe pela tenda perguntando se há alguém ali. E ele dorme, sentindo-se seguro. (Jz 4. 17-20)

Nada mais racional do que se buscar abrigo entre amigos. Sísera em nada parecia ter errado depois de sua fuga. Jael, por sua vez, que fazia parte do povo de Hobabe, sogro de Moisés (Jz 4.11), parece ter agido de forma a trair o povo de Deus dando cobertura a um inimigo de Israel. Acolheu e providenciou leite, coberta e abrigo, bem como vigia para que ninguém o encontrasse na sua fuga. Aqui surge um fator que deve ser visto com cuidado diante dos fatos. Jael usou de perfídia contra Sísera.

O verso 21 apresenta uma Jael fiel aos propósitos de Deus e imprimindo a violência necessária para, em tempo de guerra, tratar um inimigo declarado do povo de Deus e, portanto, do próprio Deus. Jael toma uma estaca da tenda e um martelo, sorrateiramente vai até Sísera que estava em profundo sono, dado o seu cansaço, e crava-lhe a estaca na fonte atravessando até a terra.

Baraque se recusou a ir diante da ordem de Deus. Débora era a juíza mais não foi a libertadora. Jael foi que venceu o general de guerra inimigo mas não em campo de combate. Muita coisa fora de ordem e fora de padrões que poderíamos entender como sensatos para uma guerra, mas foi o que foi oferecido neste momento.

Débora já julgava o povo em um momento que o povo, novamente, se rebelava contra Deus e este os condenava a mais um período de servidão. O homem convocado a batalha por Deus se recusa a lutar sem a presença da mulher que julgava, não um homem, e ele recebe a punição de não ter a honra de matar o general inimigo. Jael com a perfídia necessária a uma mulher, que tem menos recursos físicos para vencer um homem, quanto mais um general de guerra, mata o líder do exército opositor. Claramente a responsabilidade de juiz não cabia, em totalidade, para uma mulher, bem como exercer a fúria necessária para matar um general, mas, aparentemente (uso novamente este advérbio para suavizar o julgamento de Baraque e dos homens contemporâneos a ele), a covardia dos homens levou a esta condenação.

Não é uma guerra contra as mulheres, este texto, mas uma reflexão sobre padrões e meios de ação que devem ser observados diante de Deus. Creio que Deus pode fazer diferente em determinados momentos? Claro. O texto em questão, e outros na Bíblia nos mostra que Deus nos coloca situações que, apesar de conflituosos, servem para o processo de ensino e correção do Seu povo e claro ajustamento na história da Salvação que temos.

Até onde estamos dispostos a sermos fiés a Deus, não temendo o mundo nem a morte para que Ele seja glorificado? 

Será que temos todo o nosso ser comprometidos e submissos ao Senhor? Somos realmente entendidos que já morremos em Cristo e que nos espera uma eternidade de plenitude em Deus, ou buscamos apenas a satisfação e segurança nesta vida entrando na categoria de mais miserável dos pecadores, como diz Paulo em 1Coríntios 1.19?

Acredito que a quebra de padrões em Débora e Jael, é um alerta para que os homens não deixem de ser corajosos e dispostos a exercer o Bem para a glória de Deus quando isto for necessário. Bem como nos apresenta a fragilidade da mulher em não ser elas as vocacionadas à violência e proteção. Sobretudo, aos homens e mulheres de Deus, fica a mensagem de que tudo em nossas vidas devem ser para a glória do Senhor e devemos sempre estar atentos as nossas responsabilidades sem cair em narrativas mundanas que buscam inverter padrões e princípios de Deus, o que compromete não só a sociedade civil, como a nossa saúde e relevância espiritual.

Que Deus nos permita coragem, prudência e Sabedoria para o servimos com fidelidade.

Davyson Gustavo.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Pragmatismo em tempos de apostasia: PECADO!


"Mas, se toda a congregação de Israel errar, e o negócio for oculto aos olhos da congregação, e se fizerem, contra algum dos mandamentos do Senhor , aquilo que se não deve fazer, e forem culpados, e o pecado em que pecarem for notório, então, a congregação oferecerá um novilho, por expiação do pecado, e o trará diante da tenda da congregação."


O pecado não precisa ser intencional para ser pecado. Pecado é pecado e parece que os que se dizem cristãos esqueceram o referencial para diferenciar o que é pecado e o que não é... na verdade, pensando bem, não só parece. Realmente o século XXI sagrou-se como um século visceralmente apóstata e se isto não lhe assusta, ou ao menos não lhe permite refletir com sinceridade, temo arriscar que você está mais comprometido com o deus deste século do que com o Eterno e Soberano Deus.

Esta semana, passando mais uma vez pelo livro de Levítico, me peguei impressionado com esta passagem. De pronto parece uma incompatibilidade racional do escritor, mas esta observação colocaria o próprio Deus sob uma aparente contradição e confusão legal em Suas palavras. Isso sim seria um total, absoluto e profundo absurdo lógico, visto que Deus não é de confusão ou de engano. Por isso a Bíblia não deve ser lida conforme postulados ou parâmetros humanos, mas sob uma comprometida compreensão da Pessoa de Deus.

Talvez este século apresente a expressão mais veemente de um tipo de povo que une a covardia e negação de Deus, mas com uma sutiliza perigosa e terrivelmente mascarada com uma profunda "piedade social", confundido, intencionalmente, valores religiosos com um zelo soberano por pessoas e atos humanos, tornando a ótica da sociedade distante de uma cosmovisão cristã, e formando uma forte estrutura de cosmovisão imanente, dependente das convenções sociais, excluindo sorrateiramente Deus da vida em sociedade. Diante deste quadro, formando uma mentalidade social que restringe Deus a ambientes fechados de práticas religiosas, o que sobra é uma sociedade culturalmente avessa a Deus e seus preceitos, tornando possível apenas o desenvolvimento de pessoas e atos que sejam contra o Criador e Seus preceitos. Este pragmatismo é pecaminoso e, sem sombra de dúvidas, terá peso eterno, ainda que as intenções sejam boas, de condenação e morte diante do Eterno e Soberano Senhor que julgará todas as coisas.

O texto Bíblico em questão encontra-se em um contexto de apresentação de como deveriam ser os sacrifícios por determinados erros. Este trecho, mais especificamente, vem tratar de como deveria ser o sacrifício pelos erros do povo.

O primeiro ponto a se observar é o que é mais necessário hoje. Não são as convenções sociais, ou a "voz do povo" que determina a vontade de Deus, ou move as Suas determinações.

"(...) se toda a congregação de Israel errar, e o negócio for oculto aos olhos da congregação (...)"

O texto posto nos coloca em uma aparente contradição. Como pode toda a congregação errar e isto esta oculto aos olhos da congregação? Tendo em vista que Deus não pode se enganar, há algo muito mais profundo do que simples ato pecaminoso sendo retratado. Toda a congregação pecar, e isto de forma imperceptível pela congregação, só pode se dar em uma situação em que TODOS estão ignorantes ou relapsos quanto a lealdade a Deus e Seus preceitos de uma forma corporativista, tentando ocultar a vontade de Deus por algum tipo de prazer ou ganho que todos podem obter abrindo mão da observância da vontade de Deus. 

A apatia generalizada do povo de Deus quanto aos Seus Princípios e Preceitos corroboram com uma generalizada apostasia religiosa e social, no sentido que há regras para que haja um bom caminhar da humanidade sobre a terra no que diz respeito a preservação da ordem, da vida, da moral, gerando uma natural dependência da Verdade e Justiça que Deus provê. E quando há uma escolha deliberada em caminhar desta forma, avesso a Deus, e isto ser "aceito socialmente" por aqueles que se chamam Povo de Deus, fica impossível uma maioria reagir contra o pecado, proporcionando falas e pensamentos do tipo: "a voz do povo é a voz de Deus", ou "se está dando certo é porque Deus está abençoando". Mas o contexto e o proceder devem ser continuamente confrontados com os princípios de Deus. Este texto nos mostra que nem a maioria, nem a minoria tem autoridade na decisão do que é certo e errado, mas apenas a Vontade de Deus deve ser observada, buscando a preservação da vida comum em sociedade de um proceder que glorifique a Deus nos fundamentos das relações humanas.

Sim! É possível que todos estejam juntos, convictos, caminhando em apostasia para um futuro de condenação e desgraça diante de Deus.

"(...) e se fizerem, contra algum dos mandamentos do Senhor , aquilo que se não deve fazer, e forem culpados e o pecado em que pecarem for notório, então, a congregação oferecerá um novilho, por expiação do pecado, e o trará diante da tenda da congregação."

Não há, em tempo algum, registros de que a humanidade não agiu conforme o que creem coletivamente. As sociedades são direcionadas objetivamente pelo que está na base de suas convicções morais e legais. Se este parâmetro for perspectivas humanas, estará a sociedade em questão lastreada apenas nas relativas e efêmeras possibilidades de mudança de poder, impossibilitando a percepção de valores absolutos para uma condução plenamente programada para o bem de todos os seus indivíduos, ficando fadados as relativizações que o próprio ser humano produz em suas particularidades individuais.

O século XXI vê a promoção de falas e posicionamentos que desencorajam um ponto central de equilíbrio, permitindo a confusão frenética de conformidades à perversões humanas como sendo possibilidades aplicáveis à vida comum. Estes achismos, baseados em colocações sofistas, mostram as melhores formas de a humanidade se perder em seus caminhos.

Como evitar isto? Olhando para os mandamentos do Senhor. Por vezes tenho dito que não podemos ter a pretensão de que todos os seres humanos serão salvos. De igual forma não podemos discernir quem será e quem não será. Mas a nossa obrigação moral como cristãos (digo aos que decidiram morrer para o mundo e viver para Deus) é oferecer ao mundo as melhores práticas de vida e decisões que estão de acordo com o funcionamento que o Criador determinou para todas as coisas. Os que creem veem o cristianismo com regra de fé e prática. Aos que decidirão não crer em Deus e nem em Cristo como seu único e suficiente salvador, temos que ser intencionalmente claros para que ao menos vejam o pensamento cristão como a melhor filosofia de vida.

Mas a problemática aqui é o pragmatismo nos tempos de apostasia. Se todos pensam de forma separada dos preceitos de Deus, é comum que todos pequem passiva ou ativamente, concordantes uns com os outros. Isto não nos justifica de forma alguma, apenas nos faz coletivamente culpados diante de Deus. Mas o quanto estaremos coletivamente dispostos a sermos confrontados com a Palavra de Deus e nos arrependermos por nos reconhecermos culpados? Diremos com sinceridade que pecamos contra Deus, ou diremos apenas o que muito já ouvi: "Eu sei que é assim, mas não funciona desta maneira!"

Os Mandamentos do Senhor deve ser nosso alvo de total entrega e devoção. Ainda que todos estejamos juntos na apostasia, confrontados na Palavra devemos ter o desprendimento e compromisso de arrependermo-nos de nossas iniquidades e estar prontos para voltar atrás RADICALMENTE. Pragmatismo só nos serve se a estrutura que nos cerca glorifica a Deus. Do contrário, temos que pagar o preço de sermos fiés ao Senhor, não buscar privilégios com o mundo caído.

É necessário uma expressão pública de arrependimento e compromisso com Deus. Não apenas uma decisão pessoal e (talvez) de consciência sobre o que errou. O testemunho público do reconhecimento do pecado, empenhando o necessário para o redirecionamento da vida, apresenta para os que veem o povo de Deus que apenas o Senhor é digno de total devoção. Não são estruturas ou pessoas humanas falíveis, mas apenas o próprio Deus.

Óbvio que não temos mais os sacrifícios animais como em Levítico é apresentado. Somos templo e morada do Espírito Santo de Deus e isso nos torna pessoalmente comprometidos em nos sacrificarmos a Deus em nossas paixões e decisões, referendando Ele como autor e consumador de nossas vidas e projetos, possibilitando um verdadeiro testemunho vivo e consciente de que é Deus quem nos dirige no testemunho do Cristo Ressuscitado, vivo e Senhor de tudo que somos e temos.

Que Deus nos permita este profundo compromisso com Ele, nos livrando de buscar o tolo pragmatismo em um mundo que odeia o seu Criador, e nos fazendo decididos em verdadeiramente iluminar e salgar este mundo até que Ele venha, ou nós irmos para Ele.

Deus abençoe a todos.
Davyson Gustavo de Moura Silva.


domingo, 15 de fevereiro de 2026

A quem você teme?


"O temor do Senhor é o princípio da sabedoria, e a ciência do Santo, a prudência."
Provérbios 9.10 -

O ser humano e qualquer criatura com o mínimo de sensação de dor e angústia, racional ou instintivo (relacionado à criaturas animais irracionais), estão sujeitos a dominação pelo medo, força ou temor. Não é a toa que o terrorismo é abominável, em sociedades racionais, visto que consiste no uso de imposição de medo extremo, por meio da força, para causar temor na população alvo, visando a total incapacidade de reação diante de tirania e controle.

Na vida prática da sociedade (e quero enfatizar que não falo de animais, mas de seres humanos apenas, e como dói ter que explicar isso), podemos ver isto em diversas camadas da sociedade, em diferentes círculos de convivência, desde a infância até bem depois da maturidade. Isto porque o ser humano é totalmente inclinado ao mal, ao pecado e a ofensa a Deus e entender-se acima desta regra, buscando sabedoria e conhecimento moral, sem zelo ao (que é) Santo, faz com que cada um de nós nos tornemos em potenciais tiranos. Assim, ao mesmo tempo que podemos ser vítimas do temor a outros, que não Deus, podemos ser também os que impõe medo a outros para que nos temam acima de Deus. Deste modo, de toda forma, abandonamos a "ciência do Santo", achando ser "sabedoria" ignorar o "temor do Senhor" por alguma angústia ou necessidade momentânea, temporal.

O famoso texto do livro de Provérbios, citado acima, no destaque do artigo, vem seguindo um contexto imediato que nos desafia a atitudes, decisões, que visam encontrar o melhor caminho para a construção de relacionamentos edificantes e, assim sendo, que glorificam a Deus na busca pelo que vale a pena para o bem de todos, segundo as regras daquele que criou tudo que há. Este texto não é uma partícula solta, mas uma parte chave em um parágrafo que nos envolve na ideia de não sermos meros falastrões, ou que nos percamos em discussões vãs com quem não vale a pena. Se a Verdade não for o alvo ou o centro das preocupações na discussão, não vale a pena, nem merece atenção.

Mas porque nos perdemos, por vezes, em discussões sem sentido e sem finalidade? Isso se dá pela vaidade humana, por egos inflamados e uma necessidade de simplesmente suplantar outros. A falta de propósito de construção de um bem maior nos faz discutir pelo vento. Mas é preciso cuidado nesta perspectiva! Também não podemos abrir mão de estar "sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós", conforme 1Pedro3.15b, o que não significa vaidade, mas a cumprimento na comissão de anunciarmos a Verdade aos perdidos. Perdidos estes que são todos aqueles que saíram do prumo do projeto original de Deus, principalmente aqueles que fazem outros se perderem deste propósito natural.

Há no meio do caminho o medo, o temor, de não se expressar. E, acredite, este medo e temor constrange a muitos em momentos cruciais. Creio que muitos cristãos já estiveram em situações onde foram confrontados com o dilema de escolher entre Deus ou o mundo. Alguns decidiram escolher sempre pela perversão progressista e maligna de dividir a sua vida em espaços de vida cristã e vida secular, consciente ou inconscientemente, mas isso porque acham que sua sobrevivência "nesta carne" não está realmente sob o domínio de Deus... isso mostra o temor a homens, não a Deus. Escolhem pelas riquezas, pelas amizades, pelo poder, por qualquer coisa ou pessoa que não seja Deus.

Em provérbios temos na perícope imediata do texto em questão, no início do parágrafo:

"O que repreende o escarnecedor afronta toma para si; e o que censura o ímpio recebe a sua mancha." (Provérbios 9.7)

Aqui é importante pensar um pouco sobre o que seria o "escarnecedor". Não é simplesmente um ímpio, ou algum desatento ao que estaria em questão na repreensão. Não! O escarnecedor seria alguém que, entendendo o que está em jogo na disputa, continua a escolher o escárnio, a zombaria, o deleite em destratar alguém que está aplicando razão, sentido e valores na argumentação, focado na verdade e nos preceitos, sobretudo, de Deus. É deste o escarnecedor que, ao repreendê-lo, o justo, atento aos princípios de Deus, receberá afronta.

Mas ainda há neste versículo a figura do ímpio na segunda parte do verso. Mesmo parecendo serem as duas figuras sinônimas, mas não o são. O escarnecedor é um superior ao ímpio em termos de vida sem Deus. Enquanto o escarnecedor, além de, obviamente, negar a Deus, zomba e se orgulha de fazer outros se perverterem, o ímpio seria uma figura mais sutil e, digamos, palatável.

Hoje, com todas as perversões acerca de tolerância, amor, respeito, empatia e etc, temos atenuados a linha que o separa do que seria o povo de Deus, e aumentado os riscos de entrada entre aqueles que desejam agradar a Deus. O ímpio é aquela figura que apesar de não zombar de Deus com palavras e atos explícitos, vive uma vida como se Deus não existisse, e não houvesse os princípios transcendentes do Criador. Falando em linguagem mais próxima dos dias de hoje, vive de acordo com as convenções sociais, apartando-se da verdade, da razão, das virtudes e dos preceitos eternos que garantem ao homem uma condução que produza vida, justiça, beleza e bondade. O ímpio, certamente é mais arriscado do que o escarnecedor pela sutileza, e dado a sutileza há o risco de a insistência de tê-lo como alvo de insistência moral, visto que esta sutileza pode fazer sua mancha ser transmitido a quem o censura.

Parece difícil de ocorrer tal coisa? Observe como vivemos hoje, e o custo que foi a tolerância com ideais sutis progressistas, distorcendo toda a base moral judaico-cristã que estruturou o mundo livre no ocidente. Não é pouca a atenção que devemos ter. O Salmo 1.1, também adverte: "Bem-aventurado o varão que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores."; Não é um risco pequeno lidar com os tais. Melhor é para estes, dispormos apenas o Evangelho como possibilidade de arrependimento e Vida em Cristo. Mas a repreensão e exortação, ou seja, apontamento de desvio moral com vistas a melhoria baseado em preceitos de Deus, a escarnecedores e ímpios não nos cabe visto que colheremos ofensas e/ou manchas dos mesmos. Destacando que todo escarnecedor é um ímpio, mas nem todo ímpio é um escarnecedor. Aparentemente, neste verso, há uma sintonia entre estas duas qualidades de pessoas para que seja negado a possibilidade da insistência e correção por parte de um justo.

Quanto ao temor, não é que seja ruim a disputa com os tais, mas o que você busca na insistência com eles. Não é difícil observar que muito dos que se dizem cristãos insistem, não com o zelo pelo Santo, mas buscando aprovação e proximidade com os tais escarnecedores e ímpios. E por mais que muitos queiram empurrar a negligência de deixar perversões entrar no meio cristão para meios mais liberais, o fato é que os progressistas (escarnecedores e ímpios) assumiram lugares de destaque no meio cristão, e isso tem afetado o discernimento. Líderes temem os progressistas querendo sua aprovação; leigos temem estes líderes que temeram os progressistas, gerando um círculo de temor que tiram Deus do centro e colocam pessoas perversas, subjugando pessoas bem intencionadas que subjugam pessoas necessitadas de instrução. É um ciclo de temor que perverte a Justiça, o direito, a Graça e a Verdade na mente dos mais leigos.

"Não repreenda o escarnecedor, para que te não aborreça; repreende o sábio, e amar-te-á." (Provérbios 9.8)

Aqui há uma transição entre aqueles que se ofenderão com a Verdade e aqueles que serão gratos ao serem confrontados com ela.

A Verdade não habita em nossos sentimentos ou individualidades. Ela não subsiste pelo que sabemos ou pelo que somos. Ela simplesmente é, não como algo subjetivo, mas em uma pessoa bem definida e revelada: Jesus Cristo. Salomão não fala a qualquer um, ou como um qualquer. O rei mais sábio que existiu, escreve com intenção e propósito e cito abaixo a introdução do livro de Provérbios:

"Provérbios de Salomão, filho de Davi, rei de Israel. Para se conhecer a sabedoria e a instrução; para se entenderem as palavras da prudência; para se receber a instrução do entendimento, a justiça, o juízo e a equidade; para dar aos simples prudência, e aos jovens conhecimento e bom siso; para o sábio ouvir e crescer em sabedoria, e o instruído adquirir sábios conselhos; para entender provérbios e suas interpretação, como também as palavras dos sábios e suas advinhações."

- Provérbios 1.1-6-

Assim sendo, fica claro o objetivo fim de Salomão ao escrever. No verso 8 vemos que o fruto da repreensão muda de acordo com quem é repreendido. O escarnecedor, como vimos, se ofenderá e retribuirá o justo e sábio que o repreender com ofensas e, no mais ameno ataque, manchará o justo pela sutileza. Mas ao se repreender um sábio, este não proferirá ofensa ou manchará o justo, mas se alegrará em ser corrigido de seu erro. Temer a verdade acima de tudo é o nosso compromisso com Deus.

O que diferencia o sábio do escarnecedor? O que eles buscam. O escarnecedor sempre vai querer glória e conquistas próprias, enquanto o sábio desejará que a Verdade e Justiça prevaleçam a qualquer custo, ainda que ele mesmo seja o prejudicado. Por isso o que é de Deus deve, antes, sofrer o dano, desde que a Verdade e Justiça prevaleçam. Agora cuidado para não se deixarem guiar por perversões de termo, que confundem o entendimento de justiça e verdade. Os preceitos de Deus são nossos norteadores, e apenas eles.

"Dá instrução ao sábio, e ele se fará mais sábio; ensina ao justo, e ele crescerá em entendimento." (Provérbios 9.9)

Salomão instrui ao melhor dos quadros de correção e exortação. Sábios e justos corrigindo sábios e justos. Este, sem dúvida, é o melhor dos quadros possíveis para qualquer meio de convivência. Mas lembrem-se, esta sabedoria e justiça não são relativizadas a nenhum dos interlocutores, mas a fonte primária. Deus é o centro da instrução para gerar bons e desejáveis frutos.

O sábio não se faz sábio pelo muito a falar, mas pela qualidade do que fala e pensa e, sobretudo, pelo compromisso em dobrar-se ao que realmente é bom. O sábio sabe que ocasionalmente estará em erro e o ter outro sábio a corrigi-lo lhe garante crescimento e maturidade. 

O sábio e o justo, citados no versículo, não são condições inatas ao ser humano visto que todos somos pecadores. Mas o sábio e o justo são aqueles que sabem o que buscam e estão dispostos a se expor e absorver o ensino da Verdade quando este se expressar. É fato e verdade que todos tropeçamos na vida diária. Mas aos justos e sábios, quando confrontados com o que é Verdadeiro, Bom e Justo, a disposição imediata é a concordância e arrependimento, somados a alegria e crescimento pessoal segundo os estatutos de Deus. Saber o que se busca, faz toda a diferença. Mas lembre-se, o ímpio e escarnecedor até consegue diferenciar algo que é bom e ruim, mas não há disposição de mudança e arrependimento neles, no sábio e no justo sim.

"O temor do Senhor é o princípio da sabedoria, e a ciência do Santo, a prudência." (Provérbios 10.10)

Aqui encontramos a resposta chave, como já dito, para o proceder com sabedoria e justiça.

Temer ao Senhor não é apenas "saber que há um deus", esta percepção não traz a ninguém temor, apenas vaidade e um espaço argumentativo onde há pessoas que creem no Único e Eterno Deus possível. O simples considerar a existência de "um deus" (deísmo) não expressa o que a palavra temor significa.

O princípio da sabedoria é o temor do Senhor. Este temor relaciona diretamente a consciência do que teme a total dependência dos direcionamentos de Deus e Sua Revelação. A sabedoria flui justamente da posição humilde e leal, que confia plenamente que o que Deus provê, diante da observação obediente de suas orientações, é o melhor para si e para outros. Por este motivo, que vemos a proposta de morrermos para o mundo e vivermos para Deus, não fazendo de nossa vida valiosa em momento algum, desde que atentos ao Senhor. O ser sábio em um mundo onde os valores e princípios comuns glorificam a Deus nos traz vantagens e respeito; Em um mundo pervertido e afastado dos valores de Deus, nos traz perseguições e aflições. O temor aqui posto, é a total aceitação de que tanto a permissão como a intervenção de Deus coopera para o bem dos que temem a Ele

A sabedoria que alcançamos, não é a que pode nos dá privilégios, mas a que permite que Deus seja visto em tudo o que somos e fazemos. Por isso o temor do Senhor é o princípio da sabedoria, pois de acordo com o que aprendemos dEle, e sabendo reconhecê-lo em Seus princípios, estaremos voltados a reconhecer quando Ele se expressar por outros, ou mesmo pelas circunstâncias que nos cercar.

E a "ciência do Santo" como sendo norteador da "prudência", se dá justamente pelo cuidado do sábio e justo de observar o Santo em todos os momentos. A prudência é uma das virtudes mais importantes (prudência, justiça, fortaleza e temperança) e não é surpresa entendê-la como sendo fruto de atenção ao Senhor, ao Santo.

No seminário adquiri uma ilustração que carrego até hoje. Não preciso me especializar em conhecer todas as coisas erradas para conseguir identificá-las na vida comum. Escolho utilizar a prática de um bom bancário em lidar com o preparo para identificar notas falsas. Ele não conseguirá estudar todas as notas falsas possíveis, mas ele se dedicará a conhecer profundamente as notas verdadeiras para que, quando de frente a uma falsificação, logo poder identificá-la. Assim devemos proceder como "a ciência do Santo", de forma que gozemos da prudência em todo o nosso proceder para que Deus seja glorificado.

Por tudo isto, suas ações definirá quem realmente você teme.

Não poucas vezes ouvi (e ainda ouço) muitos dizerem coisas do tipo: "O certo é assim, mas não é desta forma que as coisas funcionam", ou; "ninguém é perfeito", ou; "cada um tem a sua verdade", e por aí vai. Estas colocações demonstra de forma clara que não há temor do Senhor, mas sim um temor a outras pessoas, uma necessidade de aceitação que perigosamente os afasta de Deus e Seus preceitos. E este afastamento é comunicado a medida que, silenciosamente, a necessidade de aceitação se torna mais importante do que o processo de Santificação que, por vezes, nos cobra completar as dores de Cristo, no mesmo sentido que Paulo cita em Colossenses 1.24, onde lemos:

"Agora, me regozijo nos meus sofrimentos por vós; e preencho o que resta das aflições de Cristo, na minha carne, a favor do seu corpo, que é a igreja; na qual me tornei ministro de acordo com a dispensação da parte de Deus, que me foi confiada a vosso favor, para dar pleno cumprimento à palavra de Deus"

Em Efésios 4.11-16 temos a descrição dos responsáveis para se criar o temor (conhecimento que gera prontidão de arrependimento a Deus quando percebidos afrontosos a Ele), e o que é gerado na Igreja mediante tal ensino. Creio que deve haver algum erro tremendo na designação dos que assumem tais postos de ensino, visto que, conforme Paulo diz, tanto no texto de Efésios como no de Colossenses, eles não são comissionados por homens, mas diretamente por Deus. E, creio, por se perder esta direção vocacional de Deus, e tornado cargos e títulos como meros instrumentos de promoção institucional (temor de perder pessoas?!) as vocações foram atenuadas para "cargos de igreja", onde a ambição e busca de auto justificação direciona muitos no convívio eclesiástico.

Não há outra forma de sermos Sal da Terra e Luz para o mundo se não seguirmos sob o Temor do Senhor, e este só será obtido mediante o ensino, perceptível e aplicável de forma contemporânea, segundo Jesus Cristo nos deixou, e o Espírito Santo inspirou aos escritores das Sagradas Escrituras, nos dando uma missão importante:

"(...) e nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade,  para louvor e glória  da sua graça, e pela qual nos fez agradáveis a si no Amado. Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas, segundo as riquezas da sua graça, que Ele tornou abundante para conosco em toda a sabedoria e prudência, descobrindo-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, que propusera em si mesmo, de tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra;"

- Efésios 1.5-10

Há uns que creem em predestinação, outros creem em livre arbítrio, teologicamente falando. Mas na prática, digo com tristeza, que poucos há os que assumem para si a responsabilidades como cristãos de serem agentes de transformação no mundo, buscando uma postura tal que, até os que não confessam a fé cristã, sejam convencidos das grandes vantagens de se construir uma sociedade que teme apenas os preceitos e mandamentos Daquele que criou todas as coisas.

Que Deus permita temor, sabedoria, graça e prudência aos que se chamam pelo Seu nome.

Deus abençoe a todos.
Davyson Gustavo de Moura Silva

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Diante de Deus governar é servir, não dominar.

 


"Mas Jesus, chamando-os a si, disse-lhes: Sabeis que os que julgam ser príncipes das gentes delas se assenhoreiam, e os seus grandes usam de autoridade sobre elas; mas entre vós não será assim; antes, qualquer que, entre vós, quiser ser grande será vosso serviçal."

Marcos 10.42-43

O mundo tem uma divisão, sobre questões de direitos e liberdades, em o Mundo Ocidental Livre, e o Mundo Oriental, este recheado de culturas e povos com características ditatoriais contra a maioria do povo.

Sabemos também que esta divisão se deu com o advento do levante do cristianismo, fortemente fundamentado na moral judaica, e alimentado pela forte influência religiosa sobre o Deus Santo e Soberano que é Senhor sobre tudo e todos, sendo desta forma percebido como imoral é qualquer ação que fira a vida humana ou os direitos mais fundamentais do indivíduo, possibilitando assim sociedades que tratem a vida humana e os direitos individuais com séria responsabilidade. Este quadro só foi possível com a proliferação da fé cristã pelo mundo, massificando a consciência que nenhum governo ou governante pode atuar contra a vida humana, ou suas individualidades, desde que esta respeite os ditames morais e de preservação da vida e sociedade conforme naturalmente projetada.

Mas uma sociedade sempre será um meio de convivência de vários indivíduos, com suas particularidades e vocações, que precisam produzir seu sustento de forma honesta e justa. É certo que diante desta necessidade, temos muitas observações a fazer para ver como a consciência cristã produziu tais meios para um bom convívio em sociedade, mas neste texto vamos nos concentrar na regra básica do SERVIR como forma de melhor governar diante de Deus.

Para tanto, é preciso observar que, atualmente, muitos termos estão desconstruídos e ressignificados, não em benefício do ser humano, mas em seu próprio prejuízo, estruturando uma base para, o que eu chamaria de, NINRODISTAS (em alusão ao tido como o primeiro tirano nas histórias Bíblicas, segundo a tradição judaica, bem como a violência contra outras pessoas no intuito de centralizar e aumentar seu poder) viabilizem condições mentais e contra culturais ao que o mundo ocidental construiu, de forma que submetam outras pessoas ao domínio, abusos e, quando necessário (segundo o grau tirânico do regime) o expurgo de contrários. Claro que isso depende do nível de ação e abrangência do domínio, mas os princípios e objetivos seguem os mesmos padrões.

Não vamos aprofundar nas questões sobre Ninrode, mas aqui basta observar que a postura de impor poder sobre outras pessoas, contra a justiça e a verdade, por ganância e perversão da ordem natural, são marcas entre as quais podemos identificar indivíduos ou sistemas que vão contra os planos de Deus para a humanidade. Óbvio que a igualdade plena não é possível com as nossas diversas capacidades e vocações, mas, como disse, a base de melhor governar diante de Deus é o SERVIR, não o dominar. Seguindo a lógica bíblica, a igualdade não se dará em esperar ser igual em tudo, mas entender-se no processo e somar para a boa convivência de todos, com igual oportunidades e sem esmagamento de pessoas ou grupos moralmente alinhados na sociedade.

Pode parecer estranho uma introdução longa assim e, aparentemente, distante do que normalmente se ouviria em uma instituição religiosa, mas não acredito no Evangelho para dominar uma classe de pessoas ou setor da sociedade. O Evangelho de Jesus Cristo é o direcionamento de princípios e valores para que as sociedades sigam caminhos saudáveis para a manutenção da vida e para a glória de Deus. Não é uma promessa de Reino de Deus na terra, mas o compromisso de viver as tribulações que o Senhor Jesus nos advertiu que teríamos no processo de esforçar-se para falê-Lo conhecido, e trazer Sua Luz para a humanidade.

Dito isto, seguimos.

O texto do Evangelho de Jesus Cristo segundo Marcos 10.42-45, aqui um pouco mais estendido do que no início do texto, nos apresenta o esclarecimento do Senhor Jesus sobre a questão levantada pelos irmãos Tiago e João, ao solicitar que, quando na Glória, Jesus os permitisse sentar um a Sua direita, e o outro a Sua esquerda (Mc 10.37), pedido este que trouxe aos demais discípulos de Jesus indignação por se colocarem em posição de destaque, à despeito dos demais (Mc 10.41). Jesus de pronta resposta reforça o que havia dito anteriormente sobre a Sua morte, tratando sobre o peso de sua missão, mas logo em seguida à indignação dos demais apóstolos, Jesus traz a discursão a matemática do Seu Reino que não é sobre domínio, mas sobre serviço. E sobre isso que trataremos.

O ser humano é totalmente voltado ao desejo do poder, domínio e controle. Claro, uns mais, outros menos, mas a tentação acerca da possibilidade de dominar o que lhe cerca vem desde o Éden e perpassa toda a história humana, sendo apresentado de diversas formas. Nem sempre se faz questão de um domínio direto, mas, por vezes, especialmente hoje, com a explosão demográfica e cultural que temos no mundo, o desejo deste poder e domínio pode ser visto de forma indireta buscando ser visto ou amparado por alguém que detenha poder para ser um beneficiado por tal domínio. Isto não faz o indivíduo menos culpado, apenas um culpado incompetente ou preguiçoso por apenas querer ser um perverso amigo de rei.

A esta relação com outros, o Senhor Jesus, ensinando aos Seus discípulos, e nos permitindo chegar tal conhecimento pela Revelação Especial nas Sagradas Escrituras, propõe uma lógica matemática avessa ao que o padrão humano é capaz de produzir. O serviço não é visto como uma marca de poder, mas uma marca de submissão para o ser humano criatura, mas perfeitamente entendido pelo ser humano espiritual como sendo vocação natural aqueles que buscam seguir e servir ao Deus Único e Soberano Criador.

Após a revolta dos demais discípulos, Marcos registra que Jesus fala dos que "julgam ser príncipes das gentes", ou seja, que tomam para si uma autoridade que não lhes é natural, esses "se colocam como senhores das gentes e os seus grandes usam de autoridades contra as gentes". (verso 42).

Os termos usados por Marcos mostra que já era conhecido do Senhor situações que havia (e haveria) pessoas deste tipo. Onde o poder seria uma imposição não para o bem das pessoas, mas para dominar a muitos. Este comportamento não era algo aceitável nem natural visto que as autoridades segundo a direção de Deus serviria para valorizar o bem e punir o mal (Romanos 13.3), não trazendo terror aos que tem os valores centrados no Criador. Este seria o padrão de autoridade dada por Deus, mas, no verso 42 de Marcos 10, Jesus faz um claro alerta contra aqueles que teriam valores pervertidos e se colocariam como senhores de gentes por ganância e ânsia pelo simples poder.

Mas Jesus dá logo receita de como deveria se dá as posições de poder e autoridade entre os seus discípulos, não sendo por força ou imposição, mas pela capacidade de servir (versos 43 e 44). Mas como seria este servir?

Creio que muito problema se dá pelo entendimento do que significa SERVIR, isto porque vivemos em uma sociedade e cultura que foi imposto a posição da vontade de Deus como uma cultura ou filosofia comum. Isso foi aos poucos sendo fomentado ao ponto que a grande maioria dos ditos cristãos do século XXI aceitam uma postura de que o Evangelho é apenas mais uma linha de pensamento social, onde devemos nos colocar respeitosamente tolerantes a outras formas culturais de sociedade. Claro, aqui não digo sobre sermos contra pessoas, mas sim contra linhas de pensamento que ferem o que é transcendentemente moral e digno de ser exaltado.

O servir foi um verbo que perdeu o sentido cristão histórico, ficando atrelado apenas ao ativismo eclesiástico denominacional e/ou  religioso, ficando impedido de atuar de forma livre e contundentemente expresso nas diversas esferas da vida humana. O resultado disso é que hoje muitos celebram dias e semanas de uma tal "Cultura Evangélica", o que não tem nada a ver com o ser cristão, ou seja, Sal da Terra e Luz para o mundo.

Esta semana mesmo, ouvi um conhecido teólogo brasileiro, inclusive conhecido internacionalmente, falando: "Quando eu leio o Evangelho, a vontade que tenho é largar tudo e viver apenas para servir ao Senhor.". Penso que este seja um posicionamento danoso para a compreensão do Servir Cristão, e isso ajuda a ressignificar termos e posições históricas do que é a viver servindo como cristão.

O SERVIR CRISTÃO, conforme apresentado no início do texto, possibilitou as grandes mudanças no mundo ocidental, viabilizando liberdade e possibilidades de crescimento para todos que estão debaixo de uma estrutura VERDADEIRAMENTE cristã, onde as pessoas moralmente se respeitam, valorizando os meios e métodos de preservação da vida em diversos aspectos. Isto, obviamente, passa pela ação política, seja governamental partidária, seja na gestão individual ou de grupos nas políticas de seus relacionamentos. O SERVIR CRISTÃO, apenas neste século, ficou aprisionado nas quatro paredes dos templos religiosos, mas antes moldou pensamentos, culturas e desenvolveu as ciências e as políticas nas relações humanas. Este sim era O SERVIR CRISTÃO.

Certamente que Jesus trouxe aos Seus discípulos naquele momento a consciência direta de que não deveria haver ganância nem orgulho entre eles, sabendo que o que lhes esperava no mundo era perseguições e tribulações, mas o humilde e corajoso posicionamento acerca da justiça e verdade de Deus entre os homens deveria ser o que eles deveriam atentar. Digo isto visto que todo o contexto apresenta O Mestre falando da perseguição que se seguiria, e do comissionamento que viria.

Para fixar ainda mais esta posição de condicionar-se a servir ao máximo limite do ser, o próprio Jesus faz a relação da Sua própria colocação no mundo para o bem de muitos. (verso 45)

Não é por qualquer motivo que os discípulos seriam conduzidos a um comissionamento pesaroso, mas por serem seguidores do Filho do Homem, do próprio Deus encarnado que lhes trariam a Vida, mesmo doando inicialmente a vida no Calvário. O segundo Adão seria posto na condenação do primeiro Adão, para que toda a humanidade pudesse ser Salva por seu Sacrifício. Louvado Seja Deus!

O próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas veio para servir. Serviu em vida trazendo instruções e princípios da Lei mosaica de forma a permitir aos que O aceitassem como sacrifício definitivo pudessem sacrificar-se a si mesmo dia após dia, não de forma masoquista, mas por amor ao próprio Deus, escolhendo os seus ensinamentos e preceitos ao invés das proposições de nossa natureza pecaminosa. E nas Escrituras Sagradas, nas páginas do Novo Testamento, vemos homens piedosos inspirados pelo próprio Espírito Santo traçando as orientações a se aplicar na nossa vida cotidiana, nas relações com o dinheiro, com ímpios, com sistemas de governo, com família e com situações diversas, como escassez, falta de saúde, desonestidade, morte, vida, desavenças e tantas outras coisas. Deus nos permitiu O Caminho de Salvação, como também a instrução para a santificação.

Não foi apenas uma sala de aula e um serviço teórico. Era necessário a morte e a pena do derramar a Ira de Deus sobre o pecador. Jesus, o Cristo de Deus, serviu ensinando e nos representando na Cruz do Calvário. E apesar de muita gente (encharcada pela cultura materialista ateísta que é imposta nos diversos ambientes da sociedade, e também chegou a muitos púlpitos) achar que o grande sacrifício foi a humilhação, a violência e o túmulo, o Grande Sacrifício foi o suportar o derramar da Ira de Deus e a total separação do Pai (tema difícil que eu não trataria apenas em um texto), mas Jesus o suportou por nós, dando a Sua vida naquela cruz e, por três dias estando morto. O Seu Serviço foi total e pleno para a Salvação de todo aquele que nEle crer.

A forma do Servir Cristão foi dado e exposto pelo próprio Senhor da Vida. Muito embora possa se ter apenas pregações religiosas, tratando o serviço cristão como apenas algo imanente a esta vida e existência, ainda que falando de uma "tal vida eterna", se o ensino do Servir Cristão não alcança cada espaço do seu dia-a-dia, lhe fazendo se posicionar totalmente contrário ao que fere os princípios de Deus, tal ensino não passa de vã doutrina, construindo "pseudo-mártires" ou "falsas testemunhas" do Senhor (1Coríntios 15.15). Ainda que acreditem na Verdade, não vivem conforme o que Ela nos instrui... e lembre-se, a Verdade é uma pessoa. A verdade é o próprio Jesus! (João 14.6)

Assim sendo, espero que fique a ideia da forma de governo de Deus entre os homens. É através do profundo compromisso de servir ao próximo que se pode identificar os capazes de conduzir os governados segundo a vontade de Deus. Seja na Igreja, seja na política, partidária ou de grupos. O princípio não muda, e sempre glorificará a Deus se assim for tido e posto.

Nem todos servem para governar, óbvio, mas os que governarão segundo a vontade de Deus, sempre estarão dispostos a servir, não a dominar. Se for alguém que queira domínio, os governados devem ter força e organização suficiente para se opor e depor tiranos. Que Deus assim seja glorificado no viver para o bem!


Deus abençoe a todos.
Davyson Gustavo de Moura Silva.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Cidadão do céu enquanto na terra.

 



"Senhor, quem habitará no teu tabernáculo? Quem morará no teu santo monte?"
Salmo 15.1

Morar no céu por toda a eternidade, gozando a plenitude da presença de Deus onde não haverá mais dor, sofrimento, tristeza e Deus será tudo em todos. Este é o desejo expresso pela grandessíssima maioria das pessoas no mundo, e suprimido por aqueles que escolhem lutar contra tudo aquilo que é de Deus. Mas este é o verdadeiro grande dilema do ser humano: o seu fim eterno.

A eternidade é uma perspectiva que a humanidade manipula constantemente, buscando sentido a sua imanente existência. Isto vai desde o mais primitivo povo, buscando seus deuses em observações (que após Augusto Comte, podemos chamar de) positivistas daquilo que não podiam explicar, até os pseudo-eruditos atuais que, apesar de muita leitura e conhecimento, escolhem o ateísmo materialista como a fuga para vivenciarem seus mais egoístas desejos, buscando uma justificação social em suas narrativas sombrias de domínio egoístas.

O fato é que o desejo de eternidade é uma dádiva do próprio Criador. A natureza humana não consegue fugir do bem supremo da vida e sua origem divina, do Deus Único e Soberano que nos permitiu existir, e nos deu o livre arbítrio de escolher nossos caminhos, ainda que (já sabido por Ele) muitos o viessem a negá-lo. Mas como podemos ser livres se somos presos a uma determinação fundamental.

Dito isto, entramos no assunto do Salmo 15. Aqui o rei Davi, inspirado pelo Espírito Santo e anelante pela presença plena de Deus, pondera qualidades daqueles que deveriam ser Cidadão dos Céus. A descrição não é uma receita do que devemos fazer para outros verem, mas uma profunda percepção do que move intensamente o coração daquele que reconhece em Deus o seu único sentido e propósito de vida e ações. Claro que cada característica exposta pode ser maquiagem e superficialidade em alguém, e talvez por isso haverá nos céus quem agirá tantas "boas obras" que se sentirão no direito de questionar a Jesus quando forem repelidos na entrada no Reino (Cf. Mateus 7.21-23), mas assim como a nossa cidadania na terra precisa de compromisso profundo com nossa pátria (ou deveria assim ser), ainda mais intenso é o compromisso com o Reino de Deus, que nos conhece muito mais profundamente do que nós, a nós mesmos.

Listados 11 aspectos de ações daqueles que são Cidadão dos Céus, no meu contar, lendo a tradução Almeida Revista e Corrigida, somos levados a perceber formas de como são expressos os frutos de tais cidadãos, e os frutos são resultados de bons galhos em bons troncos.

No versículo 2 temos uma apresentação da integridade e retidão do Cidadão dos Céus.

"Aquele que anda em sinceridade,..."
Andar em sinceridade é um desafio constante, principalmente em um contexto de tempo em que as pessoas amam mascarar formas e padrão de vida apenas para serem aceitos. As opiniões sinceras são frutos das suas mais profundas convicções, e por mais que elas sejam ofensivas a outros, precisam ser ditas. Mas isto gera no Cidadão dos Céus privilégios e obrigações: Eles não precisam ficar preocupados com o que disseram pois são responsáveis por aqui, mas, caso estejam errados, SEGUNDO OS PADRÕES DE DEUS, devem estar totalmente dispostos a ouvir o contrário, refletir e mudar para que Deus seja glorificado em sua vida. A sinceridade lhe guarda de viver de aparência e lhe permite exortações assertivas daqueles que também são Cidadão dos Céus, mas também daqueles a quem Deus deseja usar como usou Balaão (Cf. Números 22-24). O prumo nunca será o interlocutor, mas o próprio Deus. Lembre-se que nem Balaão nem Balaque eram Cidadão dos Céus.

"e pratica a justiça,..."
Justiça é uma virtude extremamente prejudicada na percepção de mundo atualmente. Mas o salmista trata de quem age como justiça. O praticar a justiça não adjetiva o ato, nem muito menos perverte a virtude (se assim fosse não seria mais virtude, mas apenas uma instituição governamental). O Cidadão dos Céus está atento ao que é justo perante Deus, sobrepondo-se a determinações humanas que traspassem as Determinações do Criador, pois, Ele sim, é o detentor e Senhor de todas as coisas. Não há prejuízo para o Cidadão dos Céus em executar a Justiça de Deus sempre quando necessário, ainda que com prejuízo seu, pois o compromisso com o Reino de Deus é maior que sua própria vida.

"e fala verazmente segundo o seu coração;"
Este verso dois do salmo enfatiza muito a clara integridade pessoal no caminhar e no falar. Aqui, além da sinceridade que é evocada no caráter do Cidadão dos Céus no início do versículo, também é enfatizada a verdade do coração. Tanto a sinceridade quanto a verdade que cremos, quando externalizada a outros, nos permite perceber quem somos, e a capacidade de mudança para a retidão aos propósitos de Deus dirá sobre a nossa "carteirinha" de Cidadão dos Céus. Apenas estes serão capazes de ser crucificados com Cristo para que não mais viva o seu próprio eu e suas paixões, mas apenas Cristo através dele (Cf.Gálatas 2.20) , e isso não é sobre atividades e vocabulário que se pratica, é sobre a profunda verdade do coração e se é um discípulo de Jesus, ou apenas um "falso irmão perigoso" (Cf. Gálatas 2.4,5; 2Coríntios 11.26) que segue "falsos profetas" (Cf. Mateus 7.15-20) e "falsos apóstolos" (Cf. 2Coríntios 11.13-15).

No versículo 3 temos a relação de Cidadão dos Céus com pessoas moralmente alinhadas.

"aquele que não difama com sua língua..."
Não difamar alguém precisa ser bem entendido. Nos últimos tempos tem ficado muito claro a total inversão de valores onde pessoas de poder e dinheiro são valorizadas, enquanto que pessoas moralmente alinhadas tem sido frequentemente alvos de ataques e humilhações covardes. Isto tudo sob um silêncio e apatia aterrorizante daqueles que se declaram "povo de Deus". A difamação é uma acusação pública à alguém inocente, que lhe causa dano à reputação, isto biblicamente. Mas na sociedade, a difamação, segundo o Código Penal Brasileiro, no artigo 139, versa que: "consiste em imputar a alguém um fato ofensivo à sua reputação, mesmo que esse fato seja verdadeiro, mas não constitua crime, protegendo a honra da pessoa (a imagem perante a sociedade). Pena prevista de detenção de 3 meses a um ano, e multa"; perceba aqui que o "poder estatal" se sobrepõe às Escrituras e à vontade de Deus que nos conduz a denunciar o pecado, ainda que de autoridades, para condução moral e ética do povo (Cf. 1Timóteo 5.20, acerca da repreensão pública aos presbíteros, ou seja, autoridades entre eles). Difamar alguém pela mentira não é papel do Cidadão dos Céus, mas expor a verdade, mesmo que ofenda a alguém é cuidado e obrigação daqueles que são chamados a ser sal da terra e luz para o mundo.

"nem faz mal ao seu próximo,..."
Fazer o mal é uma outra perversão imposta nos tempos atuais, visto que o mau não é mais contemplado da perspectiva virtuosa, e muito menos, obviamente, da perspectiva de Deus. Atuar na repreensão de quem age com covardia, mentira ou injustiça, é visto como fazer mal as pessoas, principalmente se os causadores destes malefícios são pessoas de cargo, poder ou de posses. Da perspectiva de Deus, onde observamos virtudes e propósitos edificantes, mesmo os mais simples, quando dirigidos pela verdade e justiça (estas só podem vir de Deus, deixo claro), são capazes de oferecer benignidades em seus atos. O mal que o salmista se refere não é a exortação ou condenação de quem age contra Deus e Seus princípios, mas sim condenar ou difamar quem está conforme a verdade e justiça. É à Verdade que nos dobramos, e à Justiça (necessário esclarecer: Justiça é diferente de judiciário) que nos submetemos. O mal ao próximo só é feito quando os atos estão em desacordo com os fundamentos de Deus. A parábola do Bom Samaritano é um grande farol para esta fundamentação principiológica.

"nem aceita nenhuma afronta contra o seu próximo;..."
Há uma indicação de uma atividade ativa (perdoem a redundância, talvez) em repelir afronta danosa contra o próximo. Esta afronta danosa se dá dentro de toda a construção anterior, observando justiça, verdade, e integridade de valores, evitando as superficialidades de discursos e atos e contemplando o que é de fato e verdade. A afronta contra o próximo considera a conduta dele, observando seu histórico. É possível termos um adversário como próximo, mas reconhecer nele honra e justiça em seus atos. Mas "próximos" incapazes de exercer justiça e verdade, bem como apenas sustentar uma falsa honra, não é alguém a ser defendido, visto que toda afronta não é a difamação tratada no verso dois, mas apenas a exposição de quem ele é. Mas o Cidadão dos Céus não está aceita de forma alguma afrontas e ataques injustos, mesmo que seja um adversário. O Cidadão dos Céus não se guia por oportunidade, mas pela diligência com o que é bom e edificante segundo Deus.

Os versículos 4 nos guia para atitudes objetivas contra maus e a favor dos bons, com misericórdia e justiça.

"aquele a cujos olhos o réprobo é desprezado;..."
Os olhos do Cidadão dos Céus não julga por justo o que, diante de Deus é reprovável. Não há uma acomodação ao que é mau (diante de Deus, não diante do próprio umbigo, lembrando sempre) e os olhos do Cidadão dos Céus ver com discernimento sabendo separar o que é bom e mau, não simplesmente pela capacidade comum do ser humano, adquirida na rebelião do homem ainda no Éden quanto a condução moral apenas de Deus, mas por ter conhecimento e discernimento acerca da vontade de Deus para sua vida e para os que lhes cerca. Olhar para réprobos causa no Cidadão dos Céus repulsa e desprezo, palavra realmente forte, mas necessária fazendo uma clara separação entre luz e trevas que não há comunhão (Assim como em 2Coríntios 6.14 e 1João 1.5-7), e nem o Cidadão dos Céus tem a permissão de trazer confusão quanto a condução de valores. É reprovável? Deve ser desprezado! Sem negociação.

"mas honra os que temem ao Senhor;..."
Com uma conjunção adversativa no início (na tradução ARC), podemos perceber a diferenciação necessária entre a postura com os réprobos, e a postura com "os que temem ao Senhor". Não pode haver semelhança no trato, visto que o Cidadão dos Céus é detentor de um prumo de Deus, que pode não contemplar todos sendo salvos, mas que deve buscar que todos possam gozar do que promove o bom funcionamento da Criação, quando dentro os parâmetros que o Criador determinou. O sal da terra e luz para o mundo que é a Igreja do Senhor, o grande ajuntamento de muitos Cidadãos dos Céus, é responsável em mostrar a clara diferença entre ser bom e mau, certo e errado, abençoado e amaldiçoado. Em um momento de sociedade pervertida, até podemos ver os maus conquistando e aparentemente vencendo, mas o trabalho diligente e corajoso da Igreja do Senhor é capaz de mostrar ao mundo o quanto é desejável os preceitos de Deus na terra. Honrar os bons e desprezar os maus é uma obrigação moral e parte da comissão de Deus aos Cidadãos dos Céus. O nosso olhar deve estar para os frutos diante de Deus, não diante dos homens.

"aquele que, mesmo que jure com dano seu, não muda."
O compromisso aqui não é consigo mesmo, mas com aquilo que é superior a própria existência. O sentido de jurar, biblicamente, é um compromisso profundo com o próprio Deus. Mas imagina uma sociedade sem perspectiva da soberania plena de Deus, onde a circunstância e a oportunidade é quem dita as regras. Este é o quadro atual, e por isso o viver Cidadão dos Céus passa a ser um extremo desafio. A humanidade, academicamente e moralmente falando, na grande parte de sua totalidade, escolheu excluir a percepção de Deus e negociar com as ciências humanas que foram deturpadas pelo afastamento do temor a Deus, causando o desvio de muitos na fé para uma cultura materialista e ateísta extremamente arraigada no imaginário popular. Hoje o perceber-se compromissado com Deus (não com instituições ou líderes empossados de cargos e títulos) causa medo e temor às pessoas e instituições que nos cercam, apresentando uma frágil fé e nenhuma virtude. O Cidadão do Céus não teme o isolamento e luta pelo bem de outros, pelo compromisso supremo com o Único e Eterno Deus, atentando para seus preceitos e buscando visceralmente, mesmo que com dano próprio, atender os dois grandes mandamentos: Amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a si mesmo. (Cf. Mateus 22.37-39; Marcos 12.30,31. Também em Levítico 19.18 e Deuteronômio 6.5). Não é estranho para você que a sociedade não tenha mais o juramento diante de Deus para falar a verdade nem diante de uma autoridade do judiciário? Como cristão, não lhe incomoda saber que os rumos da sociedade foram conduzidos para um total afastamento da cidadania da terra dos olhos e cuidados do Criador? Se suas respostas foram não, repense seu cristianismo.

O versículo 5 aponta para o trato sobre aquilo que Jesus colocou como senhor em opositor de Deus: o dinheiro.

"Aquele que não empresta o seu dinheiro com usura,..."
O ato de emprestar dinheiro nas Escrituras Sagradas visa a ajuda ao necessitado, não o ganho do que detém dinheiro. Parece até uma doutrina de besta, mas é uma regra principiológica de desprendimento daquilo que mais nos aprisiona na avareza, e nos faz, por vezes, afastar de Deus. Os olhos não devem estar voltados para o quanto se pode ganhar em ajudar (e isso penso que pode ser abrangido para até favores, pois penso que ajudar em favor alguém buscando ganho parece algo corruptivo), mas no quanto Deus lhe permitiu ter em sobejo para poder ajudar alguém necessitado. O avarento é um dos adjetivos dados aos que não herdarão o Reino de Deus (1Coríntios 6.10), e a falta de cuidado com os necessitados (não no sentido socialista, por favor), na percepção cristã de cuidado, é um sério agravante de pecados para Deus. Nosso senhor não é o dinheiro, mas o Senhor nos alerta quanto ao cuidado com o nosso coração. Não haja usura no seu proceder de socorro, mas total entrega e compromisso com Deus. Assim procede o Cidadão dos Céus.

"nem recebe subornos contra o inocente;"
Pode parecer um total absurdo, mas meus avós já diziam: "A oportunidade faz o ladrão."; claro que esta não era uma palavra de aceitação da realidade maligna que envolve a humanidade em suas tentações e paixões pelo que é mal, mas um alerta para que nos mantêssemos vigilantes quanto as virtudes de honestidade e honra. Há muitos que anseiam poder e projeção, não é difícil utilizar-se do caminho curto em tirar proveito do prejuízo de outros, e não digo isso no sentido de mercado e serviço, onde há a perspectiva de troca de benefícios que cada um pode gerar, mas no prejuízo direto para que alguém venha a se beneficiar pelo mal que ao outro é infligido. O suborno ocorre quando alguém aceita um benefício neste sentido de, abdicando de justiça, verdade e integridade, visando apenas o próprio ganho, aceita prejudicar outro(s), por vezes mentindo ou mesmo omitindo a verdade que flui de Deus... ainda mais dano há quando o suborno é contra alguém inocente, sem peso de culpa diante de Deus. O Cidadão dos Céus jamais aceita esta falsa beneficência para prejudicar um justo.

"Quem faz isto nunca será abalado."
O ser abalado não está relacionado a mentalidade de total imanência da cultura materialista e ateísta de hoje. O Cidadão dos Céus está física, mental e emocionalmente expostos as tribulações da vida, mas seu espírito permanece inabalável. Não porque as coisas estão tranquilas, mas porque ele tem a consciência da Revelação do Eterno e Soberano Deus, e sabe que Suas promessas jamais falharão, ainda que ele venha a perecer nesta vida perante injustiças (tente trazer a memória o máximo de mártires da Igreja do Senhor Jesus Cristo), mas o Cidadão dos Céus sabe que, apesar de tudo, o Senhor continua fiel a Suas promessas: "e eis que eu estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos. Amém!" Mateus 28.20b


Conclusão

As percepções quanto ao Cidadão dos Céus não se trata de teologias, doutrinas denominacionais ou academicismo. O Cidadão dos Céus é o que a Bíblia diz que ele é, e pra onde ele está caminhando em sua constante e permanente caminhada de santificação pelo estudo diligente da Palavra de Deus, e constante oração para buscar a intimidade como Senhor. 

Claro que cada ponto poderíamos tratar com muitas e muitas ilustrações, com muitos mais referências de textos e ainda mais observações de princípios que fluem de cada trecho das Escrituras (e queria eu gozar de tanto tempo), mas de todo o mais importante é a tentativa de observar como o Cidadão dos Céus precisa ter uma cidadania da terra para vivenciar em suas atividades cotidiana a soberania da sua Cidadania dos Céus. Ouvi nos últimos dias uma fala de um proeminente teólogo que dizia que ouvir o Evangelho lhe dava vontade de largar tudo e viver integralmente para Deus. Estranhei de pronto a colocação emocionada do tal teólogo e o perguntaria (se eu não fosse bloqueado pelo tal cidadão) se há alguma outra opção para um Cidadão dos Céus. Não há meio termo. Com Deus ou você é, ou não é. Ou ajunta com Ele, ou separa. E há muitas formas de separar as pessoas de Deus, sendo algumas mais agressivas e diretas, e outras sutis e mascaradas em falsas doutrinas.

A sua Cidadania dos Céus só pode ser contemplada se você tem uma cidadania na terra na qual a vive para a glória de Deus... e isso não é possível com algo como um "monasticismo coletivo", é necessário comprometer-se com o bem comum, mesmo que a custo do próprio bem, sempre atento aos princípios e propósitos de Deus. Fácil? Não! Mas por isso que o Cidadão dos Céus recebe o Espírito Santo para podermos seguir e servir para a glória de Deus.


Deus abençoe a todos.
Davyson Gustavo de Moura Silva.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

A virtude da coragem para exercer o Bem.

 

"No Senhor confio; como dizeis, pois, à minha alma: Foge para a tua montanha como pássaro?"
Salmos 11.1

Na construção da história do povo de Deus, não é raro observar momentos em que houve perseguição, lutas, guerras, perdas e mortes. Biblicamente podemos observar todos estes percalços na caminhada do povo que se comprometia com Deus.

Davi, o grande rei de Israel, teve muitos altos e baixos em sua biografia. Momentos em que claramente ofendeu a glória de Deus, bem como negligências em suas ações como rei, como pai e, talvez, como religioso (isso se quisermos forçar ao máximo o legalismo por ele ter comido pão que era para os sacerdotes, cf. 1Sm 21.2-7, mas sabemos que Jesus cita este fato, registrado em Mateus 12 e Marcos 2, mostrando a supremacia da vida e dos propósitos maiores de Deus; mas pense nisto com muita prudência), mas de covardia ninguém o podia acusar. Davi estava disposto a arrepender-se quando alertado, e a batalhar pelos propósitos de Deus.

O que lemos no Salmo 11, há quem diga que é sobre o conselho de Jônatas quando Davi estava sendo ameaçado por Saul; e outros dizem que seria sobre os conselhos do rei Davi para que ele fugisse quando as ameaças inimigas se levantaram contra ele como rei. Em ambos os casos o conselho seria que ele fugisse e não lutasse. Sendo um caso, o próprio salmo nos mostra um Davi diretamente questionando alguém que o chama a fugir, ao que ele começa o hino confirmando a sua confiança no Senhor, e questionando a audácia de o seu interlocutor o chamar a fugir... definitivamente esta não é uma opção.

Talvez falte esta leitura clara a muitos hoje, pois a determinação e aconselhamento dados é de fuga e covardia diante das  injustiças e ataques. Mas, lembrem-se, trato aqui da virtude da coragem, não da audácia de malignos que estão dispostos a tudo pelo mal. A Coragem, como virtude, só acompanha aqueles que atentam para a virtude da Justiça. Coragem sem Justiça não é virtuosa, é criminosa! Então, assim sendo, talvez seja relevante aqui citar, sobre a falta de hombridade e coragem nas igrejas, o que disse C. H. Spurgeon, certa vez: "Não faltam homens na igreja, falta Cristo nos homens que frequentam a igreja"; completando com uma frase que, quando vi, era assinada por Ivani Moura, onde li: "Não confunda homens que vão à igreja, com homens de Deus. Não é porque alguém frequenta uma Igreja que é um homem de Deus.". Talvez a Ivani Moura buscava falar de outra coisa, mas a colocação é profunda e ampla, pois, ser um homem de Deus requer que este aceite carregar o peso da Glória de Deus expressa em Seus princípios e propósitos.

Davi não ignorava o risco dos ímpios, nem a ousadia deles em combater e ir até as últimas consequências, usando de recursos covardes e escusos, como lemos no verso 2 do Salmo. Davi era consciente das ameaças e disposição dos inimigos e isto ele canta para deixar claro a consciência do risco, mas há algo muito maior na mente do servo de Deus do que a contemplação da ameaça e do medo. Não estar entre os ímpios e preservar seu coração das mazelas da impiedade nos coloca diretamente contrários a eles. A isto deve-se também agradecer a Deus.

A preocupação com "a destruição dos fundamentos" se faz profunda, visto que a questão é: "que pode fazer o justo?". Entenda aqui os fundamentos como a forma padrão que o mundo deve caminhar. Assim como construtores fazem carros e máquinas para funcionar de formas específicas, toda a Criação tem suas especificações. Mudá-las é uma afronta ao Criador e fatalmente coloca toda a estrutura em risco. A intenção ou ação de provocar uma "revolução" contra o bem proceder da vida e de seus sistemas cobra que os "justos reajam" a estes atos, mas se toda a mentalidade for destruída, o que poderia fazer o justo em um cenário todo pervertido? Como seria entendido a Justiça e a Verdade se todos os parâmetros forem distorcidos?

Matinho Lutero pensava nestes "fundamentos" como sendo a ordem básica do mundo, as quais ele chamou de "estados", significando: (1) Religião, ou vida espiritual; (2) Poder, ou vida política; e (3) Economia Doméstica, ou vida familiar. Diz Lutero: 

"Quando tais estados funcionam como deveriam, então as coisas vão bem no mundo, e existe a própria justiça de Deus. Mas quando tais estados não são mantidos, isto produz injustiça. Ora, Deus declara a respeito destes estados que eles devem permanecer enquanto o mundo permanecer, muito embora muitos se oponham e se enraiveçam contra eles. Por isso o salmista diz que a justiça de Deus permanece para sempre. Todas as seitas e justiças fabricadas pelos homens irão, por fim, perecer, mas estes estados permanecem e preservam a justiça [secular] no mundo."
 Comentário em Bíblia de Estudo da Reforma, cf. "Obras e Lutero, Edição Americana. Jaroslav Pelikan e Helmut T. Lehmann, eds. 56 vols. St. Louis: Concorrdia, e Filadelfia: Muhlenberg and Fortress, 1955-1986.

Olhando para o cenário de hoje, vendo esta abordagem de Davi, percebo o quanto o diabo enredou as sociedades ao ponto de o roubo, a corrupção, as perversões sexuais, a distorção do que é autoridade e tudo o mais que está quebrado hoje, serem aceitos e tolerados por aqueles que se dizem povo de Deus. Cada um destes pontos daria um livro ( e queria poder sentar e concentrar para abordar cada um), mas todos deveriam ser abordados no dia-a-dia da estrutura eclesiástica das comunidades cristãs, de forma a despertar a Igreja à ação imediata contra esta normalização do mal. Estamos dentro do medo de Davi e nos perguntamos com honesta preocupação, sim, mas o que assusta é a quase total inanição da virtude da Coragem para mudar o quadro. Como?

"O Senhor está no seu santo templo; o trono do Senhor está nos céus; os seus olhos estão atentos, e as suas pálpebras provam os filhos dos homens. O Senhor prova o justo, mas a sua alma aborrece o ímpio e o que ama a violência."
Salmo 11.4,5

Como não descansar nesta percepção? Como não se cobrar diante desta consciência, quando ela é real na mente do que crê. E se crê, deve se apegar e servir CORAJOSAMENTE!!! A pergunta que se deve fazer é: "Creio de verdade?" Até para isto é necessário a virtude da Coragem para uma reflexão sincera acerca disto. É fácil falar que se acredita na Soberania de Deus e que está salvo em Cristo, mas diante das lutas para se propagar a Verdade e a Justiça, quanto se está verdadeiramente disposto a isto?

A Ira de Deus certamente cairá sobre os ímpios. Não há dúvidas de que no tempo certo eles terão a paga de seus atos eternamente. Mas é fato que no processo da vida, cada um de nós temos nossas responsabilidades, e a forma como reagimos e respondemos aos levantes do mal, mostra os frutos que produzimos como servos e filhos de Deus. Lembro que servos, todos somos, inclusive os homens maus. Por isso é necessário a atenção de o que somos, joio ou trigo?

"Porque o Senhor é justo e ama a justiça; o seu rosto está voltado para os retos."
Salmo 11.7

Talvez a visão belicosa pela Justiça e Verdade deste que vos fala, inflame uma percepção de simples beligerância, mas atentem também para a virtude da prudência. Dito isto, o salmista termina com duas afirmações reflexivas que nos trazem à importância da responsabilidade em arvorar a bandeira o Reino de Deus que é de Justiça e Verdade: O Senhor é Justo. Seu rosto está voltado para os retos. Aleluia!

Ainda que hoje tenha se disseminado muito a importância da liberdade, mas tenho observado que, biblicamente, não há uma alusão a esta condição, visto que ela é básica a todos no que tange o livre arbítrio das pessoas. E é neste livre arbítrio que temos o maior perigo de desapontarmos Deus em escolher nos submeter a pessoas e sistemas humanos em prejuízo ao cuidado e zelo com as ordenanças de Deus. Logo, a Justiça é muito mais importante do que a liberdade, visto que a liberdade já é inata ao ser humano, mas a Justiça é algo que é necessário Coragem para se ter e preservar.

 A vigilância em nossas escolhas e atitudes dirão o tamanho do nosso compromisso com o Reino de Deus. Se nossos olhos e intenções estiverem voltados apenas para ganhos e vantagens pessoais, sem se importar com os princípios de Deus, nem com o bem do próximo, defraudamos, resumidamente, os dois grandes mandamentos que o próprio Senhor Jesus nos apresentou, como registrado em Mateus 22.37-40

"E Jesus disse-lhe: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. 38Este é o primeiro e grande mandamento. 39E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. 40Desses dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas."

Em tudo precisamos observar os preceitos de Deus, mas não se pode relutar em levantar-se contra a destruição dos fundamentos de funcionamento básico da sociedade e da vida humana na terra. Deus nos chamou à mordomia e ao cuidado de resplandecer Sua Glória e Majestade. Falhamos no Éden, mas as ordens continuam claras e objetivas. Não permitam que más pregações ou aconselhamento deturpem o que Deus nos ordenou.

Non Nobis Domine, Non Nobis, Sed nomini tuo da gloriam.
Não a nós, SENHOR, não a nós, mas ao teu nome dá glória (Salmo 115.1)

Em Cristo Jesus,
Davyson Gustavo de Moura Silva

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Mesmo escondendo-se, Deus encontrará!

 



"E ouviram a voz do Senhor Deus, que passeava no jardim pela viração do dia; e escondeu-se Adão e sua mulher da presença do SENHOR Deus, entre as árvores do jardim."

Gênesis 3.8

No meu início de caminhada cristã, já liberto das perspectivas católico romanas, bem como das perspectivas socialistas/comunistas (que acabam por ser um meio de percepção de fé e religiosidade por obras, ainda que pervertida), tive diversas pessoas que contribuíram no meu crescimento espiritual e me deram possibilidades de observar formas práticas e viver o cristianismo bíblico no dia-a-dia (e como isso soa absurdamente redundante e óbvio, eu sei). Dentre estas pessoas importantes destaco nossa irmã em Cristo, e a quem chamamos como "mãe na fé", que, ao nos "soltar" de uma caminhada discipular mais intensa, a mim e a minha esposa, nos ofereceu uma ilustração de florestas para soltar os anãzinhos (nós dois), agora, para caminharmos sozinhos e, volta e meia nos encontraríamos entre nossas "florestas da vida".

Pode não fazer muito sentido com relação ao texto posto de início, mas explico. Imaginamos florestas diferentes, pela condução como ela nos levou. Minha esposa viu uma floresta mais densa, eu vi uma floresta mais leve, tipo um bosque. Ficou muito próprio sobre em que momentos estávamos na nossa caminhada naquele momento. Eu estava já bastante esclarecido na caminhada, mas com muitos desafios (como ainda o é, e não creio que deixará de ser pela complexidade da vida), e minha esposa ainda bem fechada em um momento de muitas barreiras para ver mais a frente e decisões pessoais a tomar. As árvores significavam a densidade e tamanho dos desafios da nossa caminhada cristã, mas nossa querida discipuladora foi usada por Deus para nos permitir perceber em que ponto estávamos para esta caminhada mais solo, daquele momento em diante.

Pois bem! E o que isso tem a ver com Adão e Eva no texto?

Creio que alguns mais perspicazes tenham feito algumas associações. Aconselho, de preferência, que tais associações sejam mediante um momento de reflexão pessoal e de percepção da própria caminhada. Assim é como será mais útil, certamente. Adão e Eva tinham acabado de realizar a única coisa que lhes era proibida no Jardim, e comido a fruta da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. Não pelo fruto em si, ou pela sua já sempre vista aparência, mas pelo fustigar da Serpente, e de seus próprios anseios de desejarem "ser como Deus", e de se tornarem independentes em suas percepções, por óbvia constatação dos desdobramentos.

Estes desejos de "independência de Deus" continuam a nos tentar, e tão evidente são que, não raramente, vemos muitas pregações que falam da importância da dependência total de Deus, e não de confiarmos em nossas próprias forças. Como bem vemos, em Jeremias 17.5: "Maldito o homem que confia no homem, faz da carne mortal o seu braço e aparta o seu coração do Senhor!"; por vezes este texto é usado para a fragmentação da vivência de grupo, levando a considerar apenas a desconfiança em outras pessoas, mas a leitura correta é a maldição em o homem confiar na própria humanidade, apartando-se diretamente da dependência das orientações de Deus. Este é o erro principiológico do Éden, nas pessoas de Adão e Eva. Erro este que, sorrateiramente repetimos continuamente quando escolhemos achar que nossas escolhas, segundo nossos achismos, são a melhor solução para as situações, considerando até, ainda que não declarados, que podemos corrigir os "erros de permissão de Deus"... a humanidade miserável, pobre, cega e nua...

As tentações se seguem na humanidade por toda a sua existência, e Deus as observa. E, na mesma certeza que tinha Adão e Eva que o SENHOR Deus caminhava no Jardim na viração do dia, podemos constatar na história que sempre Deus se revelou na história causando o terror nesta humanidade caída, e, agora, muitos estando consciente de sua miserabilidade e incapacidade de fundamentalmente agradar a Deus. Por muitas vezes, e de diferentes formas, Deus atuou na história humana de forma a reconduzir esta humanidade a recentralizar a sua caminhada conforme a ordem original, e não da forma revolucionária que o pecado humano oferece. E aqui já deixo claro que é a única centralização de poder e força que podemos considerar e desejar: Centralizar as ações humanas na vontade de Deus. Qualquer outra centralização, sob perspectivas estritamente humanas, sempre serão prejudiciais e perigosas.

Mas quais as árvores e arbustos que o homem hoje utiliza para esconder-se? Quais as formas que a humanidade desenvolveu para iludir-se que conseguem ocultar-se do SENHOR Deus, ou mesmo ocultar os seus pecados de independência do Criador?

A resposta é: Instituições e cargos!

Não! Não creio que não devamos congregar e termos lideranças. Esta não é uma ideia biblicamente sustentável, apenas se alimenta dentro do mesmo sistema de "árvores e arbustos" que os que se denominam "desigrejados" tanto apontam. E, esclareço, mesmo hoje sendo um crítico das estruturas existentes, não defendo o fim de estruturas, mas a conversão destas para a centralidade das Escrituras e de Cristo, distanciando-se das paixões e devaneios arrogantes e egoístas dos que tomaram por assalto púlpitos e lugares de autoridade dizendo-se cristãos. Dito isto, sigo.

As instituições e cargos como vemos hoje (e aqui estou me referindo apenas aos sistemas eclesiásticos que se dizem cristãos), na sua grande maioria, não seguem a dependência em Deus, e muito menos buscam observar os preceitos das Escrituras para a condução da administração eclesiástica. Há a intenção, mas não há o pleno compromisso, ficando os direcionamentos e decisões muito mais cadenciados pela estrutura social e de oportunidades, do que da santa e majestosa vontade de Deus. Certa vez ouvi em um vídeo do Josemar Bessa a seguinte frase: "Quando a verdade perde a dureza que santifica, perde também o poder que liberta.".

Estas são as formas atuais de "esconder-se" do SENHOR Deus. Os líderes e os associados das instituições religiosas até escutam e sabem da presença de Deus pela possibilidade de O conhecerem em suas leituras e orações, sabem que suas ordens são claras e que nossas decisões nEle implicam abrir mão de nossos desejos e anseios, nos submetendo totalmente a Ele, por vezes a custo e nossas comodidades, mas, utilizam-se da suposta "autoridade eclesiológica" e das lideranças postas para ouvirem que "o amor de Deus supera todos os seus pecados"... nisto estamos nos enganando, não de forma inocente, mas de forma negligente. Temos as cartas às Igrejas no livro de Apocalipse que nos mostra uma realidade de que, nossas omissões serão cobradas por Deus no Grande Dia, e nada sairá impune. Não porque o Sangue de Jesus, derramado na Cruz do Calvário não seja suficiente, mas porque, invariavelmente, ao sermos lavados neste sangue, isto nos dá responsabilidades que não podemos negligenciar. Mesmo vivendo milagres e sobrenaturais, há a necessidade de conhecermos Ele e sermos conhecidos por Ele (Cf. Mateus 7.22-23).

Preciso explicar que aqui não trato de salvação por obras, mas sim que sendo salvos, invariavelmente, teremos obras que glorificam a Deus a apresentar. Isto se verá nos frutos que produziremos, pois, mesmo sendo maus galhos, ao sermos enxertados na Videira Verdadeira, não deixaremos de produzir bons frutos. E a história da Igreja do Senhor nos mostra que os frutos não estão restritos ao ativismo eclesiástico, mas a nossa capacidade de transformação e domínio da sociedade dentro dos preceitos de Deus. Acomodarmo-nos nos modelos pervertidos humanos, com a narrativa de amor e compreensão, é apenas mais uma "árvore e arbusto" de nossas dificuldades na caminhada no Caminho.

Adão e Eva se esconderam. A sociedade ocidental continua escolhendo deixar densas as florestas eclesiásticas para que seja fácil se esconder, mas esquecem-se de que Deus é, dentre outros atributos, Onisciente e Onipresente. Apesar de serem, talvez, dois os mais conhecidos atributos de Deus, mas são os que os tais "arbustos e árvores" ajudam a desmerecer no subconsciente dos que buscam a cristandade em seu caminhar, mas se faz necessário lembrar que, ao mesmo tempo que há um apontamento de maldição daqueles que buscam se apoiar em sua humanidade, Jeremias profetiza a bênção sobre aqueles que inteiramente confiam em Deus.

"Bendito o homem que confia no Senhor e cuja esperança é o SenhorPorque ele é como a árvore plantada junto às águas, que estende as suas raízes para o ribeiro e não receia quando vem o calor, mas a sua folha fica verde; e, no ano de sequidão, não se perturba, nem deixa de dar fruto."

Jeremias 17.7-8 

A ilustração que nossa "mãe na fé" utilizou na nossa despedida discipular fez ainda mais sentido depois deste momento. Mostra que o discipulado não é uma atividade pontual na vida, mas gera na vida uma vida de aprendizado. Depois de 13 anos de um momento de conversa, percebo que a visualização de nossa condição na caminhada cristã, naquele momento, ainda gera frutos e reflexões.

Que o Senhor, Deus todo poderoso, guarde a cada um de se desviar de Seus propósitos, e que nos fortaleça na caminhada cristã, nos permitindo testemunhar com ousadia e intrepidez a única Verdade que liberta e salva: Jesus Cristo.

Deus abençoe a todos, em nome de Jesus.