"Senhor, quem habitará no teu tabernáculo? Quem morará no teu santo monte?"
Salmo 15.1
Morar no céu por toda a eternidade, gozando a plenitude da presença de Deus onde não haverá mais dor, sofrimento, tristeza e Deus será tudo em todos. Este é o desejo expresso pela grandessíssima maioria das pessoas no mundo, e suprimido por aqueles que escolhem lutar contra tudo aquilo que é de Deus. Mas este é o verdadeiro grande dilema do ser humano: o seu fim eterno.
A eternidade é uma perspectiva que a humanidade manipula constantemente, buscando sentido a sua imanente existência. Isto vai desde o mais primitivo povo, buscando seus deuses em observações (que após Augusto Comte, podemos chamar de) positivistas daquilo que não podiam explicar, até os pseudo-eruditos atuais que, apesar de muita leitura e conhecimento, escolhem o ateísmo materialista como a fuga para vivenciarem seus mais egoístas desejos, buscando uma justificação social em suas narrativas sombrias de domínio egoístas.
O fato é que o desejo de eternidade é uma dádiva do próprio Criador. A natureza humana não consegue fugir do bem supremo da vida e sua origem divina, do Deus Único e Soberano que nos permitiu existir, e nos deu o livre arbítrio de escolher nossos caminhos, ainda que (já sabido por Ele) muitos o viessem a negá-lo. Mas como podemos ser livres se somos presos a uma determinação fundamental.
Dito isto, entramos no assunto do Salmo 15. Aqui o rei Davi, inspirado pelo Espírito Santo e anelante pela presença plena de Deus, pondera qualidades daqueles que deveriam ser Cidadão dos Céus. A descrição não é uma receita do que devemos fazer para outros verem, mas uma profunda percepção do que move intensamente o coração daquele que reconhece em Deus o seu único sentido e propósito de vida e ações. Claro que cada característica exposta pode ser maquiagem e superficialidade em alguém, e talvez por isso haverá nos céus quem agirá tantas "boas obras" que se sentirão no direito de questionar a Jesus quando forem repelidos na entrada no Reino (Cf. Mateus 7.21-23), mas assim como a nossa cidadania na terra precisa de compromisso profundo com nossa pátria (ou deveria assim ser), ainda mais intenso é o compromisso com o Reino de Deus, que nos conhece muito mais profundamente do que nós, a nós mesmos.
Listados 11 aspectos de ações daqueles que são Cidadão dos Céus, no meu contar, lendo a tradução Almeida Revista e Corrigida, somos levados a perceber formas de como são expressos os frutos de tais cidadãos, e os frutos são resultados de bons galhos em bons troncos.
No versículo 2 temos uma apresentação da integridade e retidão do Cidadão dos Céus.
"Aquele que anda em sinceridade,..."
Andar em sinceridade é um desafio constante, principalmente em um contexto de tempo em que as pessoas amam mascarar formas e padrão de vida apenas para serem aceitos. As opiniões sinceras são frutos das suas mais profundas convicções, e por mais que elas sejam ofensivas a outros, precisam ser ditas. Mas isto gera no Cidadão dos Céus privilégios e obrigações: Eles não precisam ficar preocupados com o que disseram pois são responsáveis por aqui, mas, caso estejam errados, SEGUNDO OS PADRÕES DE DEUS, devem estar totalmente dispostos a ouvir o contrário, refletir e mudar para que Deus seja glorificado em sua vida. A sinceridade lhe guarda de viver de aparência e lhe permite exortações assertivas daqueles que também são Cidadão dos Céus, mas também daqueles a quem Deus deseja usar como usou
Balaão (Cf.
Números 22-24). O prumo nunca será o interlocutor, mas o próprio Deus. Lembre-se que nem Balaão nem Balaque eram Cidadão dos Céus.
"e pratica a justiça,..."
Justiça é uma virtude extremamente prejudicada na percepção de mundo atualmente. Mas o salmista trata de quem age como justiça. O praticar a justiça não adjetiva o ato, nem muito menos perverte a virtude (se assim fosse não seria mais virtude, mas apenas uma instituição governamental). O Cidadão dos Céus está atento ao que é justo perante Deus, sobrepondo-se a determinações humanas que traspassem as Determinações do Criador, pois, Ele sim, é o detentor e Senhor de todas as coisas. Não há prejuízo para o Cidadão dos Céus em executar a Justiça de Deus sempre quando necessário, ainda que com prejuízo seu, pois o compromisso com o Reino de Deus é maior que sua própria vida.
"e fala verazmente segundo o seu coração;"
Este verso dois do salmo enfatiza muito a clara integridade pessoal no caminhar e no falar. Aqui, além da sinceridade que é evocada no caráter do Cidadão dos Céus no início do versículo, também é enfatizada a verdade do coração. Tanto a sinceridade quanto a verdade que cremos, quando externalizada a outros, nos permite perceber quem somos, e a capacidade de mudança para a retidão aos propósitos de Deus dirá sobre a nossa "carteirinha" de Cidadão dos Céus. Apenas estes serão capazes de ser crucificados com Cristo para que não mais viva o seu próprio eu e suas paixões, mas apenas Cristo através dele (
Cf.Gálatas 2.20) , e isso não é sobre atividades e vocabulário que se pratica, é sobre a profunda verdade do coração e se é um discípulo de Jesus, ou apenas um "
falso irmão perigoso" (Cf.
Gálatas 2.4,5; 2Coríntios 11.26) que segue "
falsos profetas" (Cf.
Mateus 7.15-20) e "
falsos apóstolos" (Cf.
2Coríntios 11.13-15).
No versículo 3 temos a relação de Cidadão dos Céus com pessoas moralmente alinhadas.
"aquele que não difama com sua língua..."
Não difamar alguém precisa ser bem entendido. Nos últimos tempos tem ficado muito claro a total inversão de valores onde pessoas de poder e dinheiro são valorizadas, enquanto que pessoas moralmente alinhadas tem sido frequentemente alvos de ataques e humilhações covardes. Isto tudo sob um silêncio e apatia aterrorizante daqueles que se declaram "povo de Deus". A difamação é uma acusação pública à alguém inocente, que lhe causa dano à reputação, isto biblicamente. Mas na sociedade, a difamação, segundo o
Código Penal Brasileiro, no
artigo 139, versa que: "consiste em imputar a alguém um fato ofensivo à sua reputação, mesmo que esse fato seja verdadeiro, mas não constitua crime, protegendo a honra da pessoa (a imagem perante a sociedade). Pena prevista de detenção de 3 meses a um ano, e multa"; perceba aqui que o "poder estatal" se sobrepõe às Escrituras e à vontade de Deus que nos conduz a denunciar o pecado, ainda que de autoridades, para condução moral e ética do povo (Cf.
1Timóteo 5.20, acerca da repreensão pública aos presbíteros, ou seja, autoridades entre eles). Difamar alguém pela mentira não é papel do Cidadão dos Céus, mas expor a verdade, mesmo que ofenda a alguém é cuidado e obrigação daqueles que são chamados a ser sal da terra e luz para o mundo.
"nem faz mal ao seu próximo,..."
Fazer o mal é uma outra perversão imposta nos tempos atuais, visto que o mau não é mais contemplado da perspectiva virtuosa, e muito menos, obviamente, da perspectiva de Deus. Atuar na repreensão de quem age com covardia, mentira ou injustiça, é visto como fazer mal as pessoas, principalmente se os causadores destes malefícios são pessoas de cargo, poder ou de posses. Da perspectiva de Deus, onde observamos virtudes e propósitos edificantes, mesmo os mais simples, quando dirigidos pela verdade e justiça (estas só podem vir de Deus, deixo claro), são capazes de oferecer benignidades em seus atos. O mal que o salmista se refere não é a exortação ou condenação de quem age contra Deus e Seus princípios, mas sim condenar ou difamar quem está conforme a verdade e justiça. É à Verdade que nos dobramos, e à Justiça (necessário esclarecer: Justiça é diferente de judiciário) que nos submetemos. O mal ao próximo só é feito quando os atos estão em desacordo com os fundamentos de Deus. A parábola do Bom Samaritano é um grande farol para esta fundamentação principiológica.
"nem aceita nenhuma afronta contra o seu próximo;..."
Há uma indicação de uma atividade ativa (perdoem a redundância, talvez) em repelir afronta danosa contra o próximo. Esta afronta danosa se dá dentro de toda a construção anterior, observando justiça, verdade, e integridade de valores, evitando as superficialidades de discursos e atos e contemplando o que é de fato e verdade. A afronta contra o próximo considera a conduta dele, observando seu histórico. É possível termos um adversário como próximo, mas reconhecer nele honra e justiça em seus atos. Mas "próximos" incapazes de exercer justiça e verdade, bem como apenas sustentar uma falsa honra, não é alguém a ser defendido, visto que toda afronta não é a difamação tratada no verso dois, mas apenas a exposição de quem ele é. Mas o Cidadão dos Céus não está aceita de forma alguma afrontas e ataques injustos, mesmo que seja um adversário. O Cidadão dos Céus não se guia por oportunidade, mas pela diligência com o que é bom e edificante segundo Deus.
Os versículos 4 nos guia para atitudes objetivas contra maus e a favor dos bons, com misericórdia e justiça.
"aquele a cujos olhos o réprobo é desprezado;..."
Os olhos do Cidadão dos Céus não julga por justo o que, diante de Deus é reprovável. Não há uma acomodação ao que é mau (diante de Deus, não diante do próprio umbigo, lembrando sempre) e os olhos do Cidadão dos Céus ver com discernimento sabendo separar o que é bom e mau, não simplesmente pela capacidade comum do ser humano, adquirida na rebelião do homem ainda no Éden quanto a condução moral apenas de Deus, mas por ter conhecimento e discernimento acerca da vontade de Deus para sua vida e para os que lhes cerca. Olhar para réprobos causa no Cidadão dos Céus repulsa e desprezo, palavra realmente forte, mas necessária fazendo uma clara separação entre luz e trevas que não há comunhão (Assim como em
2Coríntios 6.14 e
1João 1.5-7), e nem o Cidadão dos Céus tem a permissão de trazer confusão quanto a condução de valores. É reprovável? Deve ser desprezado! Sem negociação.
"mas honra os que temem ao Senhor;..."
Com uma conjunção adversativa no início (na tradução ARC), podemos perceber a diferenciação necessária entre a postura com os réprobos, e a postura com "os que temem ao Senhor". Não pode haver semelhança no trato, visto que o Cidadão dos Céus é detentor de um prumo de Deus, que pode não contemplar todos sendo salvos, mas que deve buscar que todos possam gozar do que promove o bom funcionamento da Criação, quando dentro os parâmetros que o Criador determinou. O sal da terra e luz para o mundo que é a Igreja do Senhor, o grande ajuntamento de muitos Cidadãos dos Céus, é responsável em mostrar a clara diferença entre ser bom e mau, certo e errado, abençoado e amaldiçoado. Em um momento de sociedade pervertida, até podemos ver os maus conquistando e aparentemente vencendo, mas o trabalho diligente e corajoso da Igreja do Senhor é capaz de mostrar ao mundo o quanto é desejável os preceitos de Deus na terra. Honrar os bons e desprezar os maus é uma obrigação moral e parte da comissão de Deus aos Cidadãos dos Céus. O nosso olhar deve estar para os frutos diante de Deus, não diante dos homens.
"aquele que, mesmo que jure com dano seu, não muda."
O compromisso aqui não é consigo mesmo, mas com aquilo que é superior a própria existência. O sentido de jurar, biblicamente, é um compromisso profundo com o próprio Deus. Mas imagina uma sociedade sem perspectiva da soberania plena de Deus, onde a circunstância e a oportunidade é quem dita as regras. Este é o quadro atual, e por isso o viver Cidadão dos Céus passa a ser um extremo desafio. A humanidade, academicamente e moralmente falando, na grande parte de sua totalidade, escolheu excluir a percepção de Deus e negociar com as ciências humanas que foram deturpadas pelo afastamento do temor a Deus, causando o desvio de muitos na fé para uma cultura materialista e ateísta extremamente arraigada no imaginário popular. Hoje o perceber-se compromissado com Deus (não com instituições ou líderes empossados de cargos e títulos) causa medo e temor às pessoas e instituições que nos cercam, apresentando uma frágil fé e nenhuma virtude. O Cidadão do Céus não teme o isolamento e luta pelo bem de outros, pelo compromisso supremo com o Único e Eterno Deus, atentando para seus preceitos e buscando visceralmente, mesmo que com dano próprio, atender os dois grandes mandamentos: Amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a si mesmo. (Cf.
Mateus 22.37-39;
Marcos 12.30,31. Também em
Levítico 19.18 e
Deuteronômio 6.5). Não é estranho para você que a sociedade não tenha mais o juramento diante de Deus para falar a verdade nem diante de uma autoridade do judiciário? Como cristão, não lhe incomoda saber que os rumos da sociedade foram conduzidos para um total afastamento da cidadania da terra dos olhos e cuidados do Criador? Se suas respostas foram não, repense seu cristianismo.
O versículo 5 aponta para o trato sobre aquilo que Jesus colocou como senhor em opositor de Deus: o dinheiro.
"Aquele que não empresta o seu dinheiro com usura,..."
O ato de emprestar dinheiro nas Escrituras Sagradas visa a ajuda ao necessitado, não o ganho do que detém dinheiro. Parece até uma doutrina de besta, mas é uma regra principiológica de desprendimento daquilo que mais nos aprisiona na avareza, e nos faz, por vezes, afastar de Deus. Os olhos não devem estar voltados para o quanto se pode ganhar em ajudar (e isso penso que pode ser abrangido para até favores, pois penso que ajudar em favor alguém buscando ganho parece algo corruptivo), mas no quanto Deus lhe permitiu ter em sobejo para poder ajudar alguém necessitado. O avarento é um dos adjetivos dados aos que não herdarão o Reino de Deus (
1Coríntios 6.10), e a falta de cuidado com os necessitados (não no sentido socialista, por favor), na percepção cristã de cuidado, é um sério agravante de pecados para Deus. Nosso senhor não é o dinheiro, mas o Senhor nos alerta quanto ao cuidado com o nosso coração. Não haja usura no seu proceder de socorro, mas total entrega e compromisso com Deus. Assim procede o Cidadão dos Céus.
"nem recebe subornos contra o inocente;"
Pode parecer um total absurdo, mas meus avós já diziam: "A oportunidade faz o ladrão."; claro que esta não era uma palavra de aceitação da realidade maligna que envolve a humanidade em suas tentações e paixões pelo que é mal, mas um alerta para que nos mantêssemos vigilantes quanto as virtudes de honestidade e honra. Há muitos que anseiam poder e projeção, não é difícil utilizar-se do caminho curto em tirar proveito do prejuízo de outros, e não digo isso no sentido de mercado e serviço, onde há a perspectiva de troca de benefícios que cada um pode gerar, mas no prejuízo direto para que alguém venha a se beneficiar pelo mal que ao outro é infligido. O suborno ocorre quando alguém aceita um benefício neste sentido de, abdicando de justiça, verdade e integridade, visando apenas o próprio ganho, aceita prejudicar outro(s), por vezes mentindo ou mesmo omitindo a verdade que flui de Deus... ainda mais dano há quando o suborno é contra alguém inocente, sem peso de culpa diante de Deus. O Cidadão dos Céus jamais aceita esta falsa beneficência para prejudicar um justo.
"Quem faz isto nunca será abalado."
O ser abalado não está relacionado a mentalidade de total imanência da cultura materialista e ateísta de hoje. O Cidadão dos Céus está física, mental e emocionalmente expostos as tribulações da vida, mas seu espírito permanece inabalável. Não porque as coisas estão tranquilas, mas porque ele tem a consciência da Revelação do Eterno e Soberano Deus, e sabe que Suas promessas jamais falharão, ainda que ele venha a perecer nesta vida perante injustiças (tente trazer a memória o máximo de mártires da Igreja do Senhor Jesus Cristo), mas o Cidadão dos Céus sabe que, apesar de tudo, o Senhor continua fiel a Suas promessas: "e eis que eu estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos. Amém!" Mateus 28.20b
Conclusão
As percepções quanto ao Cidadão dos Céus não se trata de teologias, doutrinas denominacionais ou academicismo. O Cidadão dos Céus é o que a Bíblia diz que ele é, e pra onde ele está caminhando em sua constante e permanente caminhada de santificação pelo estudo diligente da Palavra de Deus, e constante oração para buscar a intimidade como Senhor.
Claro que cada ponto poderíamos tratar com muitas e muitas ilustrações, com muitos mais referências de textos e ainda mais observações de princípios que fluem de cada trecho das Escrituras (e queria eu gozar de tanto tempo), mas de todo o mais importante é a tentativa de observar como o Cidadão dos Céus precisa ter uma cidadania da terra para vivenciar em suas atividades cotidiana a soberania da sua Cidadania dos Céus. Ouvi nos últimos dias uma fala de um proeminente teólogo que dizia que ouvir o Evangelho lhe dava vontade de largar tudo e viver integralmente para Deus. Estranhei de pronto a colocação emocionada do tal teólogo e o perguntaria (se eu não fosse bloqueado pelo tal cidadão) se há alguma outra opção para um Cidadão dos Céus. Não há meio termo. Com Deus ou você é, ou não é. Ou ajunta com Ele, ou separa. E há muitas formas de separar as pessoas de Deus, sendo algumas mais agressivas e diretas, e outras sutis e mascaradas em falsas doutrinas.
A sua Cidadania dos Céus só pode ser contemplada se você tem uma cidadania na terra na qual a vive para a glória de Deus... e isso não é possível com algo como um "monasticismo coletivo", é necessário comprometer-se com o bem comum, mesmo que a custo do próprio bem, sempre atento aos princípios e propósitos de Deus. Fácil? Não! Mas por isso que o Cidadão dos Céus recebe o Espírito Santo para podermos seguir e servir para a glória de Deus.
Deus abençoe a todos.
Davyson Gustavo de Moura Silva.
Que o SENHOR Deus nos capacite cada dia mais a sermos bons Cidadãos dos Céus.
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