Na construção da história do povo de Deus, não é raro observar momentos em que houve perseguição, lutas, guerras, perdas e mortes. Biblicamente podemos observar todos estes percalços na caminhada do povo que se comprometia com Deus.
Davi, o grande rei de Israel, teve muitos altos e baixos em sua biografia. Momentos em que claramente ofendeu a glória de Deus, bem como negligências em suas ações como rei, como pai e, talvez, como religioso (isso se quisermos forçar ao máximo o legalismo por ele ter comido pão que era para os sacerdotes, cf. 1Sm 21.2-7, mas sabemos que Jesus cita este fato, registrado em Mateus 12 e Marcos 2, mostrando a supremacia da vida e dos propósitos maiores de Deus; mas pense nisto com muita prudência), mas de covardia ninguém o podia acusar. Davi estava disposto a arrepender-se quando alertado, e a batalhar pelos propósitos de Deus.
O que lemos no Salmo 11, há quem diga que é sobre o conselho de Jônatas quando Davi estava sendo ameaçado por Saul; e outros dizem que seria sobre os conselhos do rei Davi para que ele fugisse quando as ameaças inimigas se levantaram contra ele como rei. Em ambos os casos o conselho seria que ele fugisse e não lutasse. Sendo um caso, o próprio salmo nos mostra um Davi diretamente questionando alguém que o chama a fugir, ao que ele começa o hino confirmando a sua confiança no Senhor, e questionando a audácia de o seu interlocutor o chamar a fugir... definitivamente esta não é uma opção.
Talvez falte esta leitura clara a muitos hoje, pois a determinação e aconselhamento dados é de fuga e covardia diante das injustiças e ataques. Mas, lembrem-se, trato aqui da virtude da coragem, não da audácia de malignos que estão dispostos a tudo pelo mal. A Coragem, como virtude, só acompanha aqueles que atentam para a virtude da Justiça. Coragem sem Justiça não é virtuosa, é criminosa! Então, assim sendo, talvez seja relevante aqui citar, sobre a falta de hombridade e coragem nas igrejas, o que disse C. H. Spurgeon, certa vez: "Não faltam homens na igreja, falta Cristo nos homens que frequentam a igreja"; completando com uma frase que, quando vi, era assinada por Ivani Moura, onde li: "Não confunda homens que vão à igreja, com homens de Deus. Não é porque alguém frequenta uma Igreja que é um homem de Deus.". Talvez a Ivani Moura buscava falar de outra coisa, mas a colocação é profunda e ampla, pois, ser um homem de Deus requer que este aceite carregar o peso da Glória de Deus expressa em Seus princípios e propósitos.
Davi não ignorava o risco dos ímpios, nem a ousadia deles em combater e ir até as últimas consequências, usando de recursos covardes e escusos, como lemos no verso 2 do Salmo. Davi era consciente das ameaças e disposição dos inimigos e isto ele canta para deixar claro a consciência do risco, mas há algo muito maior na mente do servo de Deus do que a contemplação da ameaça e do medo. Não estar entre os ímpios e preservar seu coração das mazelas da impiedade nos coloca diretamente contrários a eles. A isto deve-se também agradecer a Deus.
A preocupação com "a destruição dos fundamentos" se faz profunda, visto que a questão é: "que pode fazer o justo?". Entenda aqui os fundamentos como a forma padrão que o mundo deve caminhar. Assim como construtores fazem carros e máquinas para funcionar de formas específicas, toda a Criação tem suas especificações. Mudá-las é uma afronta ao Criador e fatalmente coloca toda a estrutura em risco. A intenção ou ação de provocar uma "revolução" contra o bem proceder da vida e de seus sistemas cobra que os "justos reajam" a estes atos, mas se toda a mentalidade for destruída, o que poderia fazer o justo em um cenário todo pervertido? Como seria entendido a Justiça e a Verdade se todos os parâmetros forem distorcidos?
Matinho Lutero pensava nestes "fundamentos" como sendo a ordem básica do mundo, as quais ele chamou de "estados", significando: (1) Religião, ou vida espiritual; (2) Poder, ou vida política; e (3) Economia Doméstica, ou vida familiar. Diz Lutero:
"Quando tais estados funcionam como deveriam, então as coisas vão bem no mundo, e existe a própria justiça de Deus. Mas quando tais estados não são mantidos, isto produz injustiça. Ora, Deus declara a respeito destes estados que eles devem permanecer enquanto o mundo permanecer, muito embora muitos se oponham e se enraiveçam contra eles. Por isso o salmista diz que a justiça de Deus permanece para sempre. Todas as seitas e justiças fabricadas pelos homens irão, por fim, perecer, mas estes estados permanecem e preservam a justiça [secular] no mundo."Comentário em Bíblia de Estudo da Reforma, cf. "Obras e Lutero, Edição Americana. Jaroslav Pelikan e Helmut T. Lehmann, eds. 56 vols. St. Louis: Concorrdia, e Filadelfia: Muhlenberg and Fortress, 1955-1986.
Olhando para o cenário de hoje, vendo esta abordagem de Davi, percebo o quanto o diabo enredou as sociedades ao ponto de o roubo, a corrupção, as perversões sexuais, a distorção do que é autoridade e tudo o mais que está quebrado hoje, serem aceitos e tolerados por aqueles que se dizem povo de Deus. Cada um destes pontos daria um livro ( e queria poder sentar e concentrar para abordar cada um), mas todos deveriam ser abordados no dia-a-dia da estrutura eclesiástica das comunidades cristãs, de forma a despertar a Igreja à ação imediata contra esta normalização do mal. Estamos dentro do medo de Davi e nos perguntamos com honesta preocupação, sim, mas o que assusta é a quase total inanição da virtude da Coragem para mudar o quadro. Como?
Como não descansar nesta percepção? Como não se cobrar diante desta consciência, quando ela é real na mente do que crê. E se crê, deve se apegar e servir CORAJOSAMENTE!!! A pergunta que se deve fazer é: "Creio de verdade?" Até para isto é necessário a virtude da Coragem para uma reflexão sincera acerca disto. É fácil falar que se acredita na Soberania de Deus e que está salvo em Cristo, mas diante das lutas para se propagar a Verdade e a Justiça, quanto se está verdadeiramente disposto a isto?
A Ira de Deus certamente cairá sobre os ímpios. Não há dúvidas de que no tempo certo eles terão a paga de seus atos eternamente. Mas é fato que no processo da vida, cada um de nós temos nossas responsabilidades, e a forma como reagimos e respondemos aos levantes do mal, mostra os frutos que produzimos como servos e filhos de Deus. Lembro que servos, todos somos, inclusive os homens maus. Por isso é necessário a atenção de o que somos, joio ou trigo?
Talvez a visão belicosa pela Justiça e Verdade deste que vos fala, inflame uma percepção de simples beligerância, mas atentem também para a virtude da prudência. Dito isto, o salmista termina com duas afirmações reflexivas que nos trazem à importância da responsabilidade em arvorar a bandeira o Reino de Deus que é de Justiça e Verdade: O Senhor é Justo. Seu rosto está voltado para os retos. Aleluia!
Ainda que hoje tenha se disseminado muito a importância da liberdade, mas tenho observado que, biblicamente, não há uma alusão a esta condição, visto que ela é básica a todos no que tange o livre arbítrio das pessoas. E é neste livre arbítrio que temos o maior perigo de desapontarmos Deus em escolher nos submeter a pessoas e sistemas humanos em prejuízo ao cuidado e zelo com as ordenanças de Deus. Logo, a Justiça é muito mais importante do que a liberdade, visto que a liberdade já é inata ao ser humano, mas a Justiça é algo que é necessário Coragem para se ter e preservar.
A vigilância em nossas escolhas e atitudes dirão o tamanho do nosso compromisso com o Reino de Deus. Se nossos olhos e intenções estiverem voltados apenas para ganhos e vantagens pessoais, sem se importar com os princípios de Deus, nem com o bem do próximo, defraudamos, resumidamente, os dois grandes mandamentos que o próprio Senhor Jesus nos apresentou, como registrado em Mateus 22.37-40:
"E Jesus disse-lhe: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. 38Este é o primeiro e grande mandamento. 39E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. 40Desses dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas."
Em tudo precisamos observar os preceitos de Deus, mas não se pode relutar em levantar-se contra a destruição dos fundamentos de funcionamento básico da sociedade e da vida humana na terra. Deus nos chamou à mordomia e ao cuidado de resplandecer Sua Glória e Majestade. Falhamos no Éden, mas as ordens continuam claras e objetivas. Não permitam que más pregações ou aconselhamento deturpem o que Deus nos ordenou.
Non Nobis Domine, Non Nobis, Sed nomini tuo da gloriam.
Não a nós, SENHOR, não a nós, mas ao teu nome dá glória (Salmo 115.1)
Em Cristo Jesus,
Davyson Gustavo de Moura Silva
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