quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Cidadão do céu enquanto na terra.

 



"Senhor, quem habitará no teu tabernáculo? Quem morará no teu santo monte?"
Salmo 15.1

Morar no céu por toda a eternidade, gozando a plenitude da presença de Deus onde não haverá mais dor, sofrimento, tristeza e Deus será tudo em todos. Este é o desejo expresso pela grandessíssima maioria das pessoas no mundo, e suprimido por aqueles que escolhem lutar contra tudo aquilo que é de Deus. Mas este é o verdadeiro grande dilema do ser humano: o seu fim eterno.

A eternidade é uma perspectiva que a humanidade manipula constantemente, buscando sentido a sua imanente existência. Isto vai desde o mais primitivo povo, buscando seus deuses em observações (que após Augusto Comte, podemos chamar de) positivistas daquilo que não podiam explicar, até os pseudo-eruditos atuais que, apesar de muita leitura e conhecimento, escolhem o ateísmo materialista como a fuga para vivenciarem seus mais egoístas desejos, buscando uma justificação social em suas narrativas sombrias de domínio egoístas.

O fato é que o desejo de eternidade é uma dádiva do próprio Criador. A natureza humana não consegue fugir do bem supremo da vida e sua origem divina, do Deus Único e Soberano que nos permitiu existir, e nos deu o livre arbítrio de escolher nossos caminhos, ainda que (já sabido por Ele) muitos o viessem a negá-lo. Mas como podemos ser livres se somos presos a uma determinação fundamental.

Dito isto, entramos no assunto do Salmo 15. Aqui o rei Davi, inspirado pelo Espírito Santo e anelante pela presença plena de Deus, pondera qualidades daqueles que deveriam ser Cidadão dos Céus. A descrição não é uma receita do que devemos fazer para outros verem, mas uma profunda percepção do que move intensamente o coração daquele que reconhece em Deus o seu único sentido e propósito de vida e ações. Claro que cada característica exposta pode ser maquiagem e superficialidade em alguém, e talvez por isso haverá nos céus quem agirá tantas "boas obras" que se sentirão no direito de questionar a Jesus quando forem repelidos na entrada no Reino (Cf. Mateus 7.21-23), mas assim como a nossa cidadania na terra precisa de compromisso profundo com nossa pátria (ou deveria assim ser), ainda mais intenso é o compromisso com o Reino de Deus, que nos conhece muito mais profundamente do que nós, a nós mesmos.

Listados 11 aspectos de ações daqueles que são Cidadão dos Céus, no meu contar, lendo a tradução Almeida Revista e Corrigida, somos levados a perceber formas de como são expressos os frutos de tais cidadãos, e os frutos são resultados de bons galhos em bons troncos.

No versículo 2 temos uma apresentação da integridade e retidão do Cidadão dos Céus.

"Aquele que anda em sinceridade,..."
Andar em sinceridade é um desafio constante, principalmente em um contexto de tempo em que as pessoas amam mascarar formas e padrão de vida apenas para serem aceitos. As opiniões sinceras são frutos das suas mais profundas convicções, e por mais que elas sejam ofensivas a outros, precisam ser ditas. Mas isto gera no Cidadão dos Céus privilégios e obrigações: Eles não precisam ficar preocupados com o que disseram pois são responsáveis por aqui, mas, caso estejam errados, SEGUNDO OS PADRÕES DE DEUS, devem estar totalmente dispostos a ouvir o contrário, refletir e mudar para que Deus seja glorificado em sua vida. A sinceridade lhe guarda de viver de aparência e lhe permite exortações assertivas daqueles que também são Cidadão dos Céus, mas também daqueles a quem Deus deseja usar como usou Balaão (Cf. Números 22-24). O prumo nunca será o interlocutor, mas o próprio Deus. Lembre-se que nem Balaão nem Balaque eram Cidadão dos Céus.

"e pratica a justiça,..."
Justiça é uma virtude extremamente prejudicada na percepção de mundo atualmente. Mas o salmista trata de quem age como justiça. O praticar a justiça não adjetiva o ato, nem muito menos perverte a virtude (se assim fosse não seria mais virtude, mas apenas uma instituição governamental). O Cidadão dos Céus está atento ao que é justo perante Deus, sobrepondo-se a determinações humanas que traspassem as Determinações do Criador, pois, Ele sim, é o detentor e Senhor de todas as coisas. Não há prejuízo para o Cidadão dos Céus em executar a Justiça de Deus sempre quando necessário, ainda que com prejuízo seu, pois o compromisso com o Reino de Deus é maior que sua própria vida.

"e fala verazmente segundo o seu coração;"
Este verso dois do salmo enfatiza muito a clara integridade pessoal no caminhar e no falar. Aqui, além da sinceridade que é evocada no caráter do Cidadão dos Céus no início do versículo, também é enfatizada a verdade do coração. Tanto a sinceridade quanto a verdade que cremos, quando externalizada a outros, nos permite perceber quem somos, e a capacidade de mudança para a retidão aos propósitos de Deus dirá sobre a nossa "carteirinha" de Cidadão dos Céus. Apenas estes serão capazes de ser crucificados com Cristo para que não mais viva o seu próprio eu e suas paixões, mas apenas Cristo através dele (Cf.Gálatas 2.20) , e isso não é sobre atividades e vocabulário que se pratica, é sobre a profunda verdade do coração e se é um discípulo de Jesus, ou apenas um "falso irmão perigoso" (Cf. Gálatas 2.4,5; 2Coríntios 11.26) que segue "falsos profetas" (Cf. Mateus 7.15-20) e "falsos apóstolos" (Cf. 2Coríntios 11.13-15).

No versículo 3 temos a relação de Cidadão dos Céus com pessoas moralmente alinhadas.

"aquele que não difama com sua língua..."
Não difamar alguém precisa ser bem entendido. Nos últimos tempos tem ficado muito claro a total inversão de valores onde pessoas de poder e dinheiro são valorizadas, enquanto que pessoas moralmente alinhadas tem sido frequentemente alvos de ataques e humilhações covardes. Isto tudo sob um silêncio e apatia aterrorizante daqueles que se declaram "povo de Deus". A difamação é uma acusação pública à alguém inocente, que lhe causa dano à reputação, isto biblicamente. Mas na sociedade, a difamação, segundo o Código Penal Brasileiro, no artigo 139, versa que: "consiste em imputar a alguém um fato ofensivo à sua reputação, mesmo que esse fato seja verdadeiro, mas não constitua crime, protegendo a honra da pessoa (a imagem perante a sociedade). Pena prevista de detenção de 3 meses a um ano, e multa"; perceba aqui que o "poder estatal" se sobrepõe às Escrituras e à vontade de Deus que nos conduz a denunciar o pecado, ainda que de autoridades, para condução moral e ética do povo (Cf. 1Timóteo 5.20, acerca da repreensão pública aos presbíteros, ou seja, autoridades entre eles). Difamar alguém pela mentira não é papel do Cidadão dos Céus, mas expor a verdade, mesmo que ofenda a alguém é cuidado e obrigação daqueles que são chamados a ser sal da terra e luz para o mundo.

"nem faz mal ao seu próximo,..."
Fazer o mal é uma outra perversão imposta nos tempos atuais, visto que o mau não é mais contemplado da perspectiva virtuosa, e muito menos, obviamente, da perspectiva de Deus. Atuar na repreensão de quem age com covardia, mentira ou injustiça, é visto como fazer mal as pessoas, principalmente se os causadores destes malefícios são pessoas de cargo, poder ou de posses. Da perspectiva de Deus, onde observamos virtudes e propósitos edificantes, mesmo os mais simples, quando dirigidos pela verdade e justiça (estas só podem vir de Deus, deixo claro), são capazes de oferecer benignidades em seus atos. O mal que o salmista se refere não é a exortação ou condenação de quem age contra Deus e Seus princípios, mas sim condenar ou difamar quem está conforme a verdade e justiça. É à Verdade que nos dobramos, e à Justiça (necessário esclarecer: Justiça é diferente de judiciário) que nos submetemos. O mal ao próximo só é feito quando os atos estão em desacordo com os fundamentos de Deus. A parábola do Bom Samaritano é um grande farol para esta fundamentação principiológica.

"nem aceita nenhuma afronta contra o seu próximo;..."
Há uma indicação de uma atividade ativa (perdoem a redundância, talvez) em repelir afronta danosa contra o próximo. Esta afronta danosa se dá dentro de toda a construção anterior, observando justiça, verdade, e integridade de valores, evitando as superficialidades de discursos e atos e contemplando o que é de fato e verdade. A afronta contra o próximo considera a conduta dele, observando seu histórico. É possível termos um adversário como próximo, mas reconhecer nele honra e justiça em seus atos. Mas "próximos" incapazes de exercer justiça e verdade, bem como apenas sustentar uma falsa honra, não é alguém a ser defendido, visto que toda afronta não é a difamação tratada no verso dois, mas apenas a exposição de quem ele é. Mas o Cidadão dos Céus não está aceita de forma alguma afrontas e ataques injustos, mesmo que seja um adversário. O Cidadão dos Céus não se guia por oportunidade, mas pela diligência com o que é bom e edificante segundo Deus.

Os versículos 4 nos guia para atitudes objetivas contra maus e a favor dos bons, com misericórdia e justiça.

"aquele a cujos olhos o réprobo é desprezado;..."
Os olhos do Cidadão dos Céus não julga por justo o que, diante de Deus é reprovável. Não há uma acomodação ao que é mau (diante de Deus, não diante do próprio umbigo, lembrando sempre) e os olhos do Cidadão dos Céus ver com discernimento sabendo separar o que é bom e mau, não simplesmente pela capacidade comum do ser humano, adquirida na rebelião do homem ainda no Éden quanto a condução moral apenas de Deus, mas por ter conhecimento e discernimento acerca da vontade de Deus para sua vida e para os que lhes cerca. Olhar para réprobos causa no Cidadão dos Céus repulsa e desprezo, palavra realmente forte, mas necessária fazendo uma clara separação entre luz e trevas que não há comunhão (Assim como em 2Coríntios 6.14 e 1João 1.5-7), e nem o Cidadão dos Céus tem a permissão de trazer confusão quanto a condução de valores. É reprovável? Deve ser desprezado! Sem negociação.

"mas honra os que temem ao Senhor;..."
Com uma conjunção adversativa no início (na tradução ARC), podemos perceber a diferenciação necessária entre a postura com os réprobos, e a postura com "os que temem ao Senhor". Não pode haver semelhança no trato, visto que o Cidadão dos Céus é detentor de um prumo de Deus, que pode não contemplar todos sendo salvos, mas que deve buscar que todos possam gozar do que promove o bom funcionamento da Criação, quando dentro os parâmetros que o Criador determinou. O sal da terra e luz para o mundo que é a Igreja do Senhor, o grande ajuntamento de muitos Cidadãos dos Céus, é responsável em mostrar a clara diferença entre ser bom e mau, certo e errado, abençoado e amaldiçoado. Em um momento de sociedade pervertida, até podemos ver os maus conquistando e aparentemente vencendo, mas o trabalho diligente e corajoso da Igreja do Senhor é capaz de mostrar ao mundo o quanto é desejável os preceitos de Deus na terra. Honrar os bons e desprezar os maus é uma obrigação moral e parte da comissão de Deus aos Cidadãos dos Céus. O nosso olhar deve estar para os frutos diante de Deus, não diante dos homens.

"aquele que, mesmo que jure com dano seu, não muda."
O compromisso aqui não é consigo mesmo, mas com aquilo que é superior a própria existência. O sentido de jurar, biblicamente, é um compromisso profundo com o próprio Deus. Mas imagina uma sociedade sem perspectiva da soberania plena de Deus, onde a circunstância e a oportunidade é quem dita as regras. Este é o quadro atual, e por isso o viver Cidadão dos Céus passa a ser um extremo desafio. A humanidade, academicamente e moralmente falando, na grande parte de sua totalidade, escolheu excluir a percepção de Deus e negociar com as ciências humanas que foram deturpadas pelo afastamento do temor a Deus, causando o desvio de muitos na fé para uma cultura materialista e ateísta extremamente arraigada no imaginário popular. Hoje o perceber-se compromissado com Deus (não com instituições ou líderes empossados de cargos e títulos) causa medo e temor às pessoas e instituições que nos cercam, apresentando uma frágil fé e nenhuma virtude. O Cidadão do Céus não teme o isolamento e luta pelo bem de outros, pelo compromisso supremo com o Único e Eterno Deus, atentando para seus preceitos e buscando visceralmente, mesmo que com dano próprio, atender os dois grandes mandamentos: Amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a si mesmo. (Cf. Mateus 22.37-39; Marcos 12.30,31. Também em Levítico 19.18 e Deuteronômio 6.5). Não é estranho para você que a sociedade não tenha mais o juramento diante de Deus para falar a verdade nem diante de uma autoridade do judiciário? Como cristão, não lhe incomoda saber que os rumos da sociedade foram conduzidos para um total afastamento da cidadania da terra dos olhos e cuidados do Criador? Se suas respostas foram não, repense seu cristianismo.

O versículo 5 aponta para o trato sobre aquilo que Jesus colocou como senhor em opositor de Deus: o dinheiro.

"Aquele que não empresta o seu dinheiro com usura,..."
O ato de emprestar dinheiro nas Escrituras Sagradas visa a ajuda ao necessitado, não o ganho do que detém dinheiro. Parece até uma doutrina de besta, mas é uma regra principiológica de desprendimento daquilo que mais nos aprisiona na avareza, e nos faz, por vezes, afastar de Deus. Os olhos não devem estar voltados para o quanto se pode ganhar em ajudar (e isso penso que pode ser abrangido para até favores, pois penso que ajudar em favor alguém buscando ganho parece algo corruptivo), mas no quanto Deus lhe permitiu ter em sobejo para poder ajudar alguém necessitado. O avarento é um dos adjetivos dados aos que não herdarão o Reino de Deus (1Coríntios 6.10), e a falta de cuidado com os necessitados (não no sentido socialista, por favor), na percepção cristã de cuidado, é um sério agravante de pecados para Deus. Nosso senhor não é o dinheiro, mas o Senhor nos alerta quanto ao cuidado com o nosso coração. Não haja usura no seu proceder de socorro, mas total entrega e compromisso com Deus. Assim procede o Cidadão dos Céus.

"nem recebe subornos contra o inocente;"
Pode parecer um total absurdo, mas meus avós já diziam: "A oportunidade faz o ladrão."; claro que esta não era uma palavra de aceitação da realidade maligna que envolve a humanidade em suas tentações e paixões pelo que é mal, mas um alerta para que nos mantêssemos vigilantes quanto as virtudes de honestidade e honra. Há muitos que anseiam poder e projeção, não é difícil utilizar-se do caminho curto em tirar proveito do prejuízo de outros, e não digo isso no sentido de mercado e serviço, onde há a perspectiva de troca de benefícios que cada um pode gerar, mas no prejuízo direto para que alguém venha a se beneficiar pelo mal que ao outro é infligido. O suborno ocorre quando alguém aceita um benefício neste sentido de, abdicando de justiça, verdade e integridade, visando apenas o próprio ganho, aceita prejudicar outro(s), por vezes mentindo ou mesmo omitindo a verdade que flui de Deus... ainda mais dano há quando o suborno é contra alguém inocente, sem peso de culpa diante de Deus. O Cidadão dos Céus jamais aceita esta falsa beneficência para prejudicar um justo.

"Quem faz isto nunca será abalado."
O ser abalado não está relacionado a mentalidade de total imanência da cultura materialista e ateísta de hoje. O Cidadão dos Céus está física, mental e emocionalmente expostos as tribulações da vida, mas seu espírito permanece inabalável. Não porque as coisas estão tranquilas, mas porque ele tem a consciência da Revelação do Eterno e Soberano Deus, e sabe que Suas promessas jamais falharão, ainda que ele venha a perecer nesta vida perante injustiças (tente trazer a memória o máximo de mártires da Igreja do Senhor Jesus Cristo), mas o Cidadão dos Céus sabe que, apesar de tudo, o Senhor continua fiel a Suas promessas: "e eis que eu estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos. Amém!" Mateus 28.20b


Conclusão

As percepções quanto ao Cidadão dos Céus não se trata de teologias, doutrinas denominacionais ou academicismo. O Cidadão dos Céus é o que a Bíblia diz que ele é, e pra onde ele está caminhando em sua constante e permanente caminhada de santificação pelo estudo diligente da Palavra de Deus, e constante oração para buscar a intimidade como Senhor. 

Claro que cada ponto poderíamos tratar com muitas e muitas ilustrações, com muitos mais referências de textos e ainda mais observações de princípios que fluem de cada trecho das Escrituras (e queria eu gozar de tanto tempo), mas de todo o mais importante é a tentativa de observar como o Cidadão dos Céus precisa ter uma cidadania da terra para vivenciar em suas atividades cotidiana a soberania da sua Cidadania dos Céus. Ouvi nos últimos dias uma fala de um proeminente teólogo que dizia que ouvir o Evangelho lhe dava vontade de largar tudo e viver integralmente para Deus. Estranhei de pronto a colocação emocionada do tal teólogo e o perguntaria (se eu não fosse bloqueado pelo tal cidadão) se há alguma outra opção para um Cidadão dos Céus. Não há meio termo. Com Deus ou você é, ou não é. Ou ajunta com Ele, ou separa. E há muitas formas de separar as pessoas de Deus, sendo algumas mais agressivas e diretas, e outras sutis e mascaradas em falsas doutrinas.

A sua Cidadania dos Céus só pode ser contemplada se você tem uma cidadania na terra na qual a vive para a glória de Deus... e isso não é possível com algo como um "monasticismo coletivo", é necessário comprometer-se com o bem comum, mesmo que a custo do próprio bem, sempre atento aos princípios e propósitos de Deus. Fácil? Não! Mas por isso que o Cidadão dos Céus recebe o Espírito Santo para podermos seguir e servir para a glória de Deus.


Deus abençoe a todos.
Davyson Gustavo de Moura Silva.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

A virtude da coragem para exercer o Bem.

 

"No Senhor confio; como dizeis, pois, à minha alma: Foge para a tua montanha como pássaro?"
Salmos 11.1

Na construção da história do povo de Deus, não é raro observar momentos em que houve perseguição, lutas, guerras, perdas e mortes. Biblicamente podemos observar todos estes percalços na caminhada do povo que se comprometia com Deus.

Davi, o grande rei de Israel, teve muitos altos e baixos em sua biografia. Momentos em que claramente ofendeu a glória de Deus, bem como negligências em suas ações como rei, como pai e, talvez, como religioso (isso se quisermos forçar ao máximo o legalismo por ele ter comido pão que era para os sacerdotes, cf. 1Sm 21.2-7, mas sabemos que Jesus cita este fato, registrado em Mateus 12 e Marcos 2, mostrando a supremacia da vida e dos propósitos maiores de Deus; mas pense nisto com muita prudência), mas de covardia ninguém o podia acusar. Davi estava disposto a arrepender-se quando alertado, e a batalhar pelos propósitos de Deus.

O que lemos no Salmo 11, há quem diga que é sobre o conselho de Jônatas quando Davi estava sendo ameaçado por Saul; e outros dizem que seria sobre os conselhos do rei Davi para que ele fugisse quando as ameaças inimigas se levantaram contra ele como rei. Em ambos os casos o conselho seria que ele fugisse e não lutasse. Sendo um caso, o próprio salmo nos mostra um Davi diretamente questionando alguém que o chama a fugir, ao que ele começa o hino confirmando a sua confiança no Senhor, e questionando a audácia de o seu interlocutor o chamar a fugir... definitivamente esta não é uma opção.

Talvez falte esta leitura clara a muitos hoje, pois a determinação e aconselhamento dados é de fuga e covardia diante das  injustiças e ataques. Mas, lembrem-se, trato aqui da virtude da coragem, não da audácia de malignos que estão dispostos a tudo pelo mal. A Coragem, como virtude, só acompanha aqueles que atentam para a virtude da Justiça. Coragem sem Justiça não é virtuosa, é criminosa! Então, assim sendo, talvez seja relevante aqui citar, sobre a falta de hombridade e coragem nas igrejas, o que disse C. H. Spurgeon, certa vez: "Não faltam homens na igreja, falta Cristo nos homens que frequentam a igreja"; completando com uma frase que, quando vi, era assinada por Ivani Moura, onde li: "Não confunda homens que vão à igreja, com homens de Deus. Não é porque alguém frequenta uma Igreja que é um homem de Deus.". Talvez a Ivani Moura buscava falar de outra coisa, mas a colocação é profunda e ampla, pois, ser um homem de Deus requer que este aceite carregar o peso da Glória de Deus expressa em Seus princípios e propósitos.

Davi não ignorava o risco dos ímpios, nem a ousadia deles em combater e ir até as últimas consequências, usando de recursos covardes e escusos, como lemos no verso 2 do Salmo. Davi era consciente das ameaças e disposição dos inimigos e isto ele canta para deixar claro a consciência do risco, mas há algo muito maior na mente do servo de Deus do que a contemplação da ameaça e do medo. Não estar entre os ímpios e preservar seu coração das mazelas da impiedade nos coloca diretamente contrários a eles. A isto deve-se também agradecer a Deus.

A preocupação com "a destruição dos fundamentos" se faz profunda, visto que a questão é: "que pode fazer o justo?". Entenda aqui os fundamentos como a forma padrão que o mundo deve caminhar. Assim como construtores fazem carros e máquinas para funcionar de formas específicas, toda a Criação tem suas especificações. Mudá-las é uma afronta ao Criador e fatalmente coloca toda a estrutura em risco. A intenção ou ação de provocar uma "revolução" contra o bem proceder da vida e de seus sistemas cobra que os "justos reajam" a estes atos, mas se toda a mentalidade for destruída, o que poderia fazer o justo em um cenário todo pervertido? Como seria entendido a Justiça e a Verdade se todos os parâmetros forem distorcidos?

Matinho Lutero pensava nestes "fundamentos" como sendo a ordem básica do mundo, as quais ele chamou de "estados", significando: (1) Religião, ou vida espiritual; (2) Poder, ou vida política; e (3) Economia Doméstica, ou vida familiar. Diz Lutero: 

"Quando tais estados funcionam como deveriam, então as coisas vão bem no mundo, e existe a própria justiça de Deus. Mas quando tais estados não são mantidos, isto produz injustiça. Ora, Deus declara a respeito destes estados que eles devem permanecer enquanto o mundo permanecer, muito embora muitos se oponham e se enraiveçam contra eles. Por isso o salmista diz que a justiça de Deus permanece para sempre. Todas as seitas e justiças fabricadas pelos homens irão, por fim, perecer, mas estes estados permanecem e preservam a justiça [secular] no mundo."
 Comentário em Bíblia de Estudo da Reforma, cf. "Obras e Lutero, Edição Americana. Jaroslav Pelikan e Helmut T. Lehmann, eds. 56 vols. St. Louis: Concorrdia, e Filadelfia: Muhlenberg and Fortress, 1955-1986.

Olhando para o cenário de hoje, vendo esta abordagem de Davi, percebo o quanto o diabo enredou as sociedades ao ponto de o roubo, a corrupção, as perversões sexuais, a distorção do que é autoridade e tudo o mais que está quebrado hoje, serem aceitos e tolerados por aqueles que se dizem povo de Deus. Cada um destes pontos daria um livro ( e queria poder sentar e concentrar para abordar cada um), mas todos deveriam ser abordados no dia-a-dia da estrutura eclesiástica das comunidades cristãs, de forma a despertar a Igreja à ação imediata contra esta normalização do mal. Estamos dentro do medo de Davi e nos perguntamos com honesta preocupação, sim, mas o que assusta é a quase total inanição da virtude da Coragem para mudar o quadro. Como?

"O Senhor está no seu santo templo; o trono do Senhor está nos céus; os seus olhos estão atentos, e as suas pálpebras provam os filhos dos homens. O Senhor prova o justo, mas a sua alma aborrece o ímpio e o que ama a violência."
Salmo 11.4,5

Como não descansar nesta percepção? Como não se cobrar diante desta consciência, quando ela é real na mente do que crê. E se crê, deve se apegar e servir CORAJOSAMENTE!!! A pergunta que se deve fazer é: "Creio de verdade?" Até para isto é necessário a virtude da Coragem para uma reflexão sincera acerca disto. É fácil falar que se acredita na Soberania de Deus e que está salvo em Cristo, mas diante das lutas para se propagar a Verdade e a Justiça, quanto se está verdadeiramente disposto a isto?

A Ira de Deus certamente cairá sobre os ímpios. Não há dúvidas de que no tempo certo eles terão a paga de seus atos eternamente. Mas é fato que no processo da vida, cada um de nós temos nossas responsabilidades, e a forma como reagimos e respondemos aos levantes do mal, mostra os frutos que produzimos como servos e filhos de Deus. Lembro que servos, todos somos, inclusive os homens maus. Por isso é necessário a atenção de o que somos, joio ou trigo?

"Porque o Senhor é justo e ama a justiça; o seu rosto está voltado para os retos."
Salmo 11.7

Talvez a visão belicosa pela Justiça e Verdade deste que vos fala, inflame uma percepção de simples beligerância, mas atentem também para a virtude da prudência. Dito isto, o salmista termina com duas afirmações reflexivas que nos trazem à importância da responsabilidade em arvorar a bandeira o Reino de Deus que é de Justiça e Verdade: O Senhor é Justo. Seu rosto está voltado para os retos. Aleluia!

Ainda que hoje tenha se disseminado muito a importância da liberdade, mas tenho observado que, biblicamente, não há uma alusão a esta condição, visto que ela é básica a todos no que tange o livre arbítrio das pessoas. E é neste livre arbítrio que temos o maior perigo de desapontarmos Deus em escolher nos submeter a pessoas e sistemas humanos em prejuízo ao cuidado e zelo com as ordenanças de Deus. Logo, a Justiça é muito mais importante do que a liberdade, visto que a liberdade já é inata ao ser humano, mas a Justiça é algo que é necessário Coragem para se ter e preservar.

 A vigilância em nossas escolhas e atitudes dirão o tamanho do nosso compromisso com o Reino de Deus. Se nossos olhos e intenções estiverem voltados apenas para ganhos e vantagens pessoais, sem se importar com os princípios de Deus, nem com o bem do próximo, defraudamos, resumidamente, os dois grandes mandamentos que o próprio Senhor Jesus nos apresentou, como registrado em Mateus 22.37-40

"E Jesus disse-lhe: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. 38Este é o primeiro e grande mandamento. 39E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. 40Desses dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas."

Em tudo precisamos observar os preceitos de Deus, mas não se pode relutar em levantar-se contra a destruição dos fundamentos de funcionamento básico da sociedade e da vida humana na terra. Deus nos chamou à mordomia e ao cuidado de resplandecer Sua Glória e Majestade. Falhamos no Éden, mas as ordens continuam claras e objetivas. Não permitam que más pregações ou aconselhamento deturpem o que Deus nos ordenou.

Non Nobis Domine, Non Nobis, Sed nomini tuo da gloriam.
Não a nós, SENHOR, não a nós, mas ao teu nome dá glória (Salmo 115.1)

Em Cristo Jesus,
Davyson Gustavo de Moura Silva

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Mesmo escondendo-se, Deus encontrará!

 



"E ouviram a voz do Senhor Deus, que passeava no jardim pela viração do dia; e escondeu-se Adão e sua mulher da presença do SENHOR Deus, entre as árvores do jardim."

Gênesis 3.8

No meu início de caminhada cristã, já liberto das perspectivas católico romanas, bem como das perspectivas socialistas/comunistas (que acabam por ser um meio de percepção de fé e religiosidade por obras, ainda que pervertida), tive diversas pessoas que contribuíram no meu crescimento espiritual e me deram possibilidades de observar formas práticas e viver o cristianismo bíblico no dia-a-dia (e como isso soa absurdamente redundante e óbvio, eu sei). Dentre estas pessoas importantes destaco nossa irmã em Cristo, e a quem chamamos como "mãe na fé", que, ao nos "soltar" de uma caminhada discipular mais intensa, a mim e a minha esposa, nos ofereceu uma ilustração de florestas para soltar os anãzinhos (nós dois), agora, para caminharmos sozinhos e, volta e meia nos encontraríamos entre nossas "florestas da vida".

Pode não fazer muito sentido com relação ao texto posto de início, mas explico. Imaginamos florestas diferentes, pela condução como ela nos levou. Minha esposa viu uma floresta mais densa, eu vi uma floresta mais leve, tipo um bosque. Ficou muito próprio sobre em que momentos estávamos na nossa caminhada naquele momento. Eu estava já bastante esclarecido na caminhada, mas com muitos desafios (como ainda o é, e não creio que deixará de ser pela complexidade da vida), e minha esposa ainda bem fechada em um momento de muitas barreiras para ver mais a frente e decisões pessoais a tomar. As árvores significavam a densidade e tamanho dos desafios da nossa caminhada cristã, mas nossa querida discipuladora foi usada por Deus para nos permitir perceber em que ponto estávamos para esta caminhada mais solo, daquele momento em diante.

Pois bem! E o que isso tem a ver com Adão e Eva no texto?

Creio que alguns mais perspicazes tenham feito algumas associações. Aconselho, de preferência, que tais associações sejam mediante um momento de reflexão pessoal e de percepção da própria caminhada. Assim é como será mais útil, certamente. Adão e Eva tinham acabado de realizar a única coisa que lhes era proibida no Jardim, e comido a fruta da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. Não pelo fruto em si, ou pela sua já sempre vista aparência, mas pelo fustigar da Serpente, e de seus próprios anseios de desejarem "ser como Deus", e de se tornarem independentes em suas percepções, por óbvia constatação dos desdobramentos.

Estes desejos de "independência de Deus" continuam a nos tentar, e tão evidente são que, não raramente, vemos muitas pregações que falam da importância da dependência total de Deus, e não de confiarmos em nossas próprias forças. Como bem vemos, em Jeremias 17.5: "Maldito o homem que confia no homem, faz da carne mortal o seu braço e aparta o seu coração do Senhor!"; por vezes este texto é usado para a fragmentação da vivência de grupo, levando a considerar apenas a desconfiança em outras pessoas, mas a leitura correta é a maldição em o homem confiar na própria humanidade, apartando-se diretamente da dependência das orientações de Deus. Este é o erro principiológico do Éden, nas pessoas de Adão e Eva. Erro este que, sorrateiramente repetimos continuamente quando escolhemos achar que nossas escolhas, segundo nossos achismos, são a melhor solução para as situações, considerando até, ainda que não declarados, que podemos corrigir os "erros de permissão de Deus"... a humanidade miserável, pobre, cega e nua...

As tentações se seguem na humanidade por toda a sua existência, e Deus as observa. E, na mesma certeza que tinha Adão e Eva que o SENHOR Deus caminhava no Jardim na viração do dia, podemos constatar na história que sempre Deus se revelou na história causando o terror nesta humanidade caída, e, agora, muitos estando consciente de sua miserabilidade e incapacidade de fundamentalmente agradar a Deus. Por muitas vezes, e de diferentes formas, Deus atuou na história humana de forma a reconduzir esta humanidade a recentralizar a sua caminhada conforme a ordem original, e não da forma revolucionária que o pecado humano oferece. E aqui já deixo claro que é a única centralização de poder e força que podemos considerar e desejar: Centralizar as ações humanas na vontade de Deus. Qualquer outra centralização, sob perspectivas estritamente humanas, sempre serão prejudiciais e perigosas.

Mas quais as árvores e arbustos que o homem hoje utiliza para esconder-se? Quais as formas que a humanidade desenvolveu para iludir-se que conseguem ocultar-se do SENHOR Deus, ou mesmo ocultar os seus pecados de independência do Criador?

A resposta é: Instituições e cargos!

Não! Não creio que não devamos congregar e termos lideranças. Esta não é uma ideia biblicamente sustentável, apenas se alimenta dentro do mesmo sistema de "árvores e arbustos" que os que se denominam "desigrejados" tanto apontam. E, esclareço, mesmo hoje sendo um crítico das estruturas existentes, não defendo o fim de estruturas, mas a conversão destas para a centralidade das Escrituras e de Cristo, distanciando-se das paixões e devaneios arrogantes e egoístas dos que tomaram por assalto púlpitos e lugares de autoridade dizendo-se cristãos. Dito isto, sigo.

As instituições e cargos como vemos hoje (e aqui estou me referindo apenas aos sistemas eclesiásticos que se dizem cristãos), na sua grande maioria, não seguem a dependência em Deus, e muito menos buscam observar os preceitos das Escrituras para a condução da administração eclesiástica. Há a intenção, mas não há o pleno compromisso, ficando os direcionamentos e decisões muito mais cadenciados pela estrutura social e de oportunidades, do que da santa e majestosa vontade de Deus. Certa vez ouvi em um vídeo do Josemar Bessa a seguinte frase: "Quando a verdade perde a dureza que santifica, perde também o poder que liberta.".

Estas são as formas atuais de "esconder-se" do SENHOR Deus. Os líderes e os associados das instituições religiosas até escutam e sabem da presença de Deus pela possibilidade de O conhecerem em suas leituras e orações, sabem que suas ordens são claras e que nossas decisões nEle implicam abrir mão de nossos desejos e anseios, nos submetendo totalmente a Ele, por vezes a custo e nossas comodidades, mas, utilizam-se da suposta "autoridade eclesiológica" e das lideranças postas para ouvirem que "o amor de Deus supera todos os seus pecados"... nisto estamos nos enganando, não de forma inocente, mas de forma negligente. Temos as cartas às Igrejas no livro de Apocalipse que nos mostra uma realidade de que, nossas omissões serão cobradas por Deus no Grande Dia, e nada sairá impune. Não porque o Sangue de Jesus, derramado na Cruz do Calvário não seja suficiente, mas porque, invariavelmente, ao sermos lavados neste sangue, isto nos dá responsabilidades que não podemos negligenciar. Mesmo vivendo milagres e sobrenaturais, há a necessidade de conhecermos Ele e sermos conhecidos por Ele (Cf. Mateus 7.22-23).

Preciso explicar que aqui não trato de salvação por obras, mas sim que sendo salvos, invariavelmente, teremos obras que glorificam a Deus a apresentar. Isto se verá nos frutos que produziremos, pois, mesmo sendo maus galhos, ao sermos enxertados na Videira Verdadeira, não deixaremos de produzir bons frutos. E a história da Igreja do Senhor nos mostra que os frutos não estão restritos ao ativismo eclesiástico, mas a nossa capacidade de transformação e domínio da sociedade dentro dos preceitos de Deus. Acomodarmo-nos nos modelos pervertidos humanos, com a narrativa de amor e compreensão, é apenas mais uma "árvore e arbusto" de nossas dificuldades na caminhada no Caminho.

Adão e Eva se esconderam. A sociedade ocidental continua escolhendo deixar densas as florestas eclesiásticas para que seja fácil se esconder, mas esquecem-se de que Deus é, dentre outros atributos, Onisciente e Onipresente. Apesar de serem, talvez, dois os mais conhecidos atributos de Deus, mas são os que os tais "arbustos e árvores" ajudam a desmerecer no subconsciente dos que buscam a cristandade em seu caminhar, mas se faz necessário lembrar que, ao mesmo tempo que há um apontamento de maldição daqueles que buscam se apoiar em sua humanidade, Jeremias profetiza a bênção sobre aqueles que inteiramente confiam em Deus.

"Bendito o homem que confia no Senhor e cuja esperança é o SenhorPorque ele é como a árvore plantada junto às águas, que estende as suas raízes para o ribeiro e não receia quando vem o calor, mas a sua folha fica verde; e, no ano de sequidão, não se perturba, nem deixa de dar fruto."

Jeremias 17.7-8 

A ilustração que nossa "mãe na fé" utilizou na nossa despedida discipular fez ainda mais sentido depois deste momento. Mostra que o discipulado não é uma atividade pontual na vida, mas gera na vida uma vida de aprendizado. Depois de 13 anos de um momento de conversa, percebo que a visualização de nossa condição na caminhada cristã, naquele momento, ainda gera frutos e reflexões.

Que o Senhor, Deus todo poderoso, guarde a cada um de se desviar de Seus propósitos, e que nos fortaleça na caminhada cristã, nos permitindo testemunhar com ousadia e intrepidez a única Verdade que liberta e salva: Jesus Cristo.

Deus abençoe a todos, em nome de Jesus.