Otniel (Jz 3.7-11), Eúde (Jz 3.12-30), Sangar Jz3.31), (...), Gideão (Jz 4-5), Gideão (Jz 6-8), Jefté (Jz 10-12), Tola (Jz 10.1-2), Jair (Jz 10.3-5), Ibzã (Jz 12.9-10); Elom (Jz 12.11-12), Abdom (Jz 12.13-15) e Sansão (13-16). Estes são todos os Juízes que julgaram e libertaram Israel em um período registrado na Bíblia (O Livro de Juízes) onde, entre tantas outras lições, a inconsistência de fidelidade do povo de Deus é escancarada. Todos os homens listados acima. Mas há neste período uma juíza que julgou o povo de Israel em dado período, Débora (Jz 4-5), mas não foi ela a libertadora em seu período, nem o general que Deus teria incumbido de libertar Seu povo, Baraque, mas sim uma outra mulher, Jael (Jz 4. 18-21), por vezes esquecida.
Desde já conclamo à paciência toda e qualquer mulher que tenha a intenção e a fundamentação como conservadora para não julgar de imediato como ofensa, mas me permita o benefício da dúvida e me permita apresentar uma perspectiva construtiva, mostrando que, se até aqui você se sentiu ofendida é apenas fruto de uma cultura que perverteu os princípios que você corrobora.
O período do livro de Juízes na Bíblia Sagrada onde havia uma ênfase no ciclo de comportamento do povo e de Deus onde, basicamente: O povo se rebelava - Deus mandava a opressão - O povo se arrependia - Deus levantava um libertador (Juiz). Mais detalhadamente na imagem gerada por IA abaixo.
Neste período há uma predominância quase que total de ações por parte de homens que foram levantados por Deus, tanto para julgar o povo como para libertar através de ações bélicas ou ataques estratégicos contra os inimigos que foram levantados para levar o povo ao arrependimento. Mas há, entre eles, uma ocorrência que nos chama a atenção: A Juíza Débora.
É importante enfatizar o padrão que foi quebrado, e perceber a forma e a motivação que levaram (ao meu ver, destaco isto) o levante de Débora como juíza, bem como o uso e a honra dada a uma mulher para matar o general inimigo. Se evitarmos estes porquês, creio eu, estamos abrindo mão de fortes e importantes indicativos principiológicos da fé e orientação de Deus nas Escrituras. Mas não podemos perder de vista que Deus nunca se permitiu ser colocado em caixinhas limitadas, mas não rompe princípios sem motivação maior e de forma didática, assim creio e assim harmonizo questões de difíceis entendimento, como é o caso.
Depois da morte de Eúde, o texto bíblico apresenta brevemente Sangar que havia "feriu seiscentos homens filisteus com uma aguilhada de bois; e também libertou Israel" (Jz 3.31). Depois deste impressionante testemunho, é apresentado mais um momento de rebelião de Israel contra Deus, o que gera a punição do Senhor os entregando nas mãos de Jabim, um rei cananeu.
Há Juízes que o texto fala claramente que Deus o levantara para livrar Israel, outros que levantou-se o juiz, há Jefté que foi convocado pelo povo a lutar por eles, e outros que foram visitados por anjos como Sansão e Gideão.
No caso de Débora há uma particularidade. Há o registro da rebelião (4.1), a opressão enviada por Deus (4.2), e o clamor dos filhos de Israel (4.3). Os versos quatro e cinco do capítulo quatro nos informa que Débora já "julgava Israel naquele tempo", e referencia que ela atendia o povo sobre as questões de juízo.
A primeira olhada parece apenas uma ocorrência de um diferente modo de agir, mesmo já deixando a surpresa de haver uma mulher a frente de um importante ofício entre o povo de Israel, que tinha uma estrutura patriarcal e, dado o contexto de constantes conflitos, não dava muita ênfase nas atividades das mulheres na sociedade. Mas o que vem a seguir, penso eu, pode trazer luz a uma possível explicação para esta particularidade feminina em conduzir tal ofício.
Os versos seis e sete apresenta a juíza convocando o homem que seria o braço bélico para a libertação do povo. Baraque não foi convocado à juiz, mas para ser o general de guerra contra Sísera, o general cananeu do rei Jabim. A resposta de Baraque pode ser uma referência à postura dos homens naquele momento de covardia, transferindo a responsabilidade para a persona feminina que estava à frente (talvez por falta de disposição masculina, especulo eu, não que a Bíblia diga isto). Baraque, ouve de Débora a ordem de Deus de que ele deveria convocar "dez mil homens dos filhos de Naftali e dos filhos de Zebulom", com a garantia de que Deus entregaria a Sísera, seus carros de guerra e suas tropas nas mãos dele. Não era que Débora o faria, mas que o próprio Deus o tinha garantido a vitória.
Um homem, general de guerra, convocado pela Juíza em exercício naquela região e momento, entregando uma ordem direta de Deus de que ele deveria ir ao front e que lhe estava garantida a vitória por Deus. Qual deveria ser a resposta neste quadro? Como deveria ser portar alguém que foi dotado com o dom da violência para guiar tropas em defesa do povo? Espero que sua resposta seja a contento, pois a de Baraque não foi.
O verso oito mostra um general, aparentemente (vou colocar este advérbio para aliviar o julgamento), amedrontado, respondendo: "Se fores comigo, irei, porém, se não fores comigo, não irei."
Confesso aqui que não estou habilitado para uma profunda exegese no hebraico bíblico, mas avaliando comentários e outras versões, esta seria a categorização mais provável. Mas também há os que entendem que a posição de Baraque seria "uma louvável relutância em lutar sem o apoio do Senhor". Sou obrigado por regras hermenêuticas a olhar para o texto em seu contexto, observar a historicidade e o que gramaticalmente ele apresenta (como disse da minha limitação de exegese em hebraico, fico limitado neste ponto a comentários e versões relevantes do texto).
Há uma particularidade ainda maior no registro de juízes, no caso da juíza Débora que, diante da recusa, a solução não vem pelo uso da juíza como ferramenta bélica, mas sendo profetizado que "a honra" de matar o general inimigo não seria do general Baraque, mas de uma mulher. Até aqui sem nome, e sem o modo como o seria. Mas como poderia ocorrer assim se não havia mulher convocada para a batalha? O texto relata que Débora foi com Baraque, mas porque ela não se identifica como um "eu o farei"?
Penso que pelo quadro que foi pintado até aqui no texto, o objetivo era apenas mostrar a Baraque sua covardia diante do mandado de Deus, e que isto lhe seria custoso no campo de batalha.
Não vou passar pelos versículos sobre o posicionamento de tropas e batalha. Este não seria o alvo do texto, mas sim o aparecimento da mulher que faria Sísera ser morto. Jael, mulher de Héber, queneu. Entre Jabim e Héber havia paz, e ao cair as tropas de Jabim, sob o comando de Sísera, este foge do campo de batalha e se abriga na tenda de Jael a convite da mulher. Sísera é acolhido, coberto com uma coberta, recebe leite para matar a sede e instrui Jael a negar caso alguém passe pela tenda perguntando se há alguém ali. E ele dorme, sentindo-se seguro. (Jz 4. 17-20)
Nada mais racional do que se buscar abrigo entre amigos. Sísera em nada parecia ter errado depois de sua fuga. Jael, por sua vez, que fazia parte do povo de Hobabe, sogro de Moisés (Jz 4.11), parece ter agido de forma a trair o povo de Deus dando cobertura a um inimigo de Israel. Acolheu e providenciou leite, coberta e abrigo, bem como vigia para que ninguém o encontrasse na sua fuga. Aqui surge um fator que deve ser visto com cuidado diante dos fatos. Jael usou de perfídia contra Sísera.
O verso 21 apresenta uma Jael fiel aos propósitos de Deus e imprimindo a violência necessária para, em tempo de guerra, tratar um inimigo declarado do povo de Deus e, portanto, do próprio Deus. Jael toma uma estaca da tenda e um martelo, sorrateiramente vai até Sísera que estava em profundo sono, dado o seu cansaço, e crava-lhe a estaca na fonte atravessando até a terra.
Baraque se recusou a ir diante da ordem de Deus. Débora era a juíza mais não foi a libertadora. Jael foi que venceu o general de guerra inimigo mas não em campo de combate. Muita coisa fora de ordem e fora de padrões que poderíamos entender como sensatos para uma guerra, mas foi o que foi oferecido neste momento.
Débora já julgava o povo em um momento que o povo, novamente, se rebelava contra Deus e este os condenava a mais um período de servidão. O homem convocado a batalha por Deus se recusa a lutar sem a presença da mulher que julgava, não um homem, e ele recebe a punição de não ter a honra de matar o general inimigo. Jael com a perfídia necessária a uma mulher, que tem menos recursos físicos para vencer um homem, quanto mais um general de guerra, mata o líder do exército opositor. Claramente a responsabilidade de juiz não cabia, em totalidade, para uma mulher, bem como exercer a fúria necessária para matar um general, mas, aparentemente (uso novamente este advérbio para suavizar o julgamento de Baraque e dos homens contemporâneos a ele), a covardia dos homens levou a esta condenação.
Não é uma guerra contra as mulheres, este texto, mas uma reflexão sobre padrões e meios de ação que devem ser observados diante de Deus. Creio que Deus pode fazer diferente em determinados momentos? Claro. O texto em questão, e outros na Bíblia nos mostra que Deus nos coloca situações que, apesar de conflituosos, servem para o processo de ensino e correção do Seu povo e claro ajustamento na história da Salvação que temos.
Até onde estamos dispostos a sermos fiés a Deus, não temendo o mundo nem a morte para que Ele seja glorificado?
Será que temos todo o nosso ser comprometidos e submissos ao Senhor? Somos realmente entendidos que já morremos em Cristo e que nos espera uma eternidade de plenitude em Deus, ou buscamos apenas a satisfação e segurança nesta vida entrando na categoria de mais miserável dos pecadores, como diz Paulo em 1Coríntios 1.19?
Acredito que a quebra de padrões em Débora e Jael, é um alerta para que os homens não deixem de ser corajosos e dispostos a exercer o Bem para a glória de Deus quando isto for necessário. Bem como nos apresenta a fragilidade da mulher em não ser elas as vocacionadas à violência e proteção. Sobretudo, aos homens e mulheres de Deus, fica a mensagem de que tudo em nossas vidas devem ser para a glória do Senhor e devemos sempre estar atentos as nossas responsabilidades sem cair em narrativas mundanas que buscam inverter padrões e princípios de Deus, o que compromete não só a sociedade civil, como a nossa saúde e relevância espiritual.
Que Deus nos permita coragem, prudência e Sabedoria para o servimos com fidelidade.
Davyson Gustavo.

