O ser humano e qualquer criatura com o mínimo de sensação de dor e angústia, racional ou instintivo (relacionado à criaturas animais irracionais), estão sujeitos a dominação pelo medo, força ou temor. Não é a toa que o terrorismo é abominável, em sociedades racionais, visto que consiste no uso de imposição de medo extremo, por meio da força, para causar temor na população alvo, visando a total incapacidade de reação diante de tirania e controle.
Na vida prática da sociedade (e quero enfatizar que não falo de animais, mas de seres humanos apenas, e como dói ter que explicar isso), podemos ver isto em diversas camadas da sociedade, em diferentes círculos de convivência, desde a infância até bem depois da maturidade. Isto porque o ser humano é totalmente inclinado ao mal, ao pecado e a ofensa a Deus e entender-se acima desta regra, buscando sabedoria e conhecimento moral, sem zelo ao (que é) Santo, faz com que cada um de nós nos tornemos em potenciais tiranos. Assim, ao mesmo tempo que podemos ser vítimas do temor a outros, que não Deus, podemos ser também os que impõe medo a outros para que nos temam acima de Deus. Deste modo, de toda forma, abandonamos a "ciência do Santo", achando ser "sabedoria" ignorar o "temor do Senhor" por alguma angústia ou necessidade momentânea, temporal.
O famoso texto do livro de Provérbios, citado acima, no destaque do artigo, vem seguindo um contexto imediato que nos desafia a atitudes, decisões, que visam encontrar o melhor caminho para a construção de relacionamentos edificantes e, assim sendo, que glorificam a Deus na busca pelo que vale a pena para o bem de todos, segundo as regras daquele que criou tudo que há. Este texto não é uma partícula solta, mas uma parte chave em um parágrafo que nos envolve na ideia de não sermos meros falastrões, ou que nos percamos em discussões vãs com quem não vale a pena. Se a Verdade não for o alvo ou o centro das preocupações na discussão, não vale a pena, nem merece atenção.
Mas porque nos perdemos, por vezes, em discussões sem sentido e sem finalidade? Isso se dá pela vaidade humana, por egos inflamados e uma necessidade de simplesmente suplantar outros. A falta de propósito de construção de um bem maior nos faz discutir pelo vento. Mas é preciso cuidado nesta perspectiva! Também não podemos abrir mão de estar "sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós", conforme 1Pedro3.15b, o que não significa vaidade, mas a cumprimento na comissão de anunciarmos a Verdade aos perdidos. Perdidos estes que são todos aqueles que saíram do prumo do projeto original de Deus, principalmente aqueles que fazem outros se perderem deste propósito natural.
Há no meio do caminho o medo, o temor, de não se expressar. E, acredite, este medo e temor constrange a muitos em momentos cruciais. Creio que muitos cristãos já estiveram em situações onde foram confrontados com o dilema de escolher entre Deus ou o mundo. Alguns decidiram escolher sempre pela perversão progressista e maligna de dividir a sua vida em espaços de vida cristã e vida secular, consciente ou inconscientemente, mas isso porque acham que sua sobrevivência "nesta carne" não está realmente sob o domínio de Deus... isso mostra o temor a homens, não a Deus. Escolhem pelas riquezas, pelas amizades, pelo poder, por qualquer coisa ou pessoa que não seja Deus.
Em provérbios temos na perícope imediata do texto em questão, no início do parágrafo:
"O que repreende o escarnecedor afronta toma para si; e o que censura o ímpio recebe a sua mancha." (Provérbios 9.7)
Aqui é importante pensar um pouco sobre o que seria o "escarnecedor". Não é simplesmente um ímpio, ou algum desatento ao que estaria em questão na repreensão. Não! O escarnecedor seria alguém que, entendendo o que está em jogo na disputa, continua a escolher o escárnio, a zombaria, o deleite em destratar alguém que está aplicando razão, sentido e valores na argumentação, focado na verdade e nos preceitos, sobretudo, de Deus. É deste o escarnecedor que, ao repreendê-lo, o justo, atento aos princípios de Deus, receberá afronta.
Mas ainda há neste versículo a figura do ímpio na segunda parte do verso. Mesmo parecendo serem as duas figuras sinônimas, mas não o são. O escarnecedor é um superior ao ímpio em termos de vida sem Deus. Enquanto o escarnecedor, além de, obviamente, negar a Deus, zomba e se orgulha de fazer outros se perverterem, o ímpio seria uma figura mais sutil e, digamos, palatável.
Hoje, com todas as perversões acerca de tolerância, amor, respeito, empatia e etc, temos atenuados a linha que o separa do que seria o povo de Deus, e aumentado os riscos de entrada entre aqueles que desejam agradar a Deus. O ímpio é aquela figura que apesar de não zombar de Deus com palavras e atos explícitos, vive uma vida como se Deus não existisse, e não houvesse os princípios transcendentes do Criador. Falando em linguagem mais próxima dos dias de hoje, vive de acordo com as convenções sociais, apartando-se da verdade, da razão, das virtudes e dos preceitos eternos que garantem ao homem uma condução que produza vida, justiça, beleza e bondade. O ímpio, certamente é mais arriscado do que o escarnecedor pela sutileza, e dado a sutileza há o risco de a insistência de tê-lo como alvo de insistência moral, visto que esta sutileza pode fazer sua mancha ser transmitido a quem o censura.
Parece difícil de ocorrer tal coisa? Observe como vivemos hoje, e o custo que foi a tolerância com ideais sutis progressistas, distorcendo toda a base moral judaico-cristã que estruturou o mundo livre no ocidente. Não é pouca a atenção que devemos ter. O Salmo 1.1, também adverte: "Bem-aventurado o varão que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores."; Não é um risco pequeno lidar com os tais. Melhor é para estes, dispormos apenas o Evangelho como possibilidade de arrependimento e Vida em Cristo. Mas a repreensão e exortação, ou seja, apontamento de desvio moral com vistas a melhoria baseado em preceitos de Deus, a escarnecedores e ímpios não nos cabe visto que colheremos ofensas e/ou manchas dos mesmos. Destacando que todo escarnecedor é um ímpio, mas nem todo ímpio é um escarnecedor. Aparentemente, neste verso, há uma sintonia entre estas duas qualidades de pessoas para que seja negado a possibilidade da insistência e correção por parte de um justo.
Quanto ao temor, não é que seja ruim a disputa com os tais, mas o que você busca na insistência com eles. Não é difícil observar que muito dos que se dizem cristãos insistem, não com o zelo pelo Santo, mas buscando aprovação e proximidade com os tais escarnecedores e ímpios. E por mais que muitos queiram empurrar a negligência de deixar perversões entrar no meio cristão para meios mais liberais, o fato é que os progressistas (escarnecedores e ímpios) assumiram lugares de destaque no meio cristão, e isso tem afetado o discernimento. Líderes temem os progressistas querendo sua aprovação; leigos temem estes líderes que temeram os progressistas, gerando um círculo de temor que tiram Deus do centro e colocam pessoas perversas, subjugando pessoas bem intencionadas que subjugam pessoas necessitadas de instrução. É um ciclo de temor que perverte a Justiça, o direito, a Graça e a Verdade na mente dos mais leigos.
"Não repreenda o escarnecedor, para que te não aborreça; repreende o sábio, e amar-te-á." (Provérbios 9.8)
Aqui há uma transição entre aqueles que se ofenderão com a Verdade e aqueles que serão gratos ao serem confrontados com ela.
A Verdade não habita em nossos sentimentos ou individualidades. Ela não subsiste pelo que sabemos ou pelo que somos. Ela simplesmente é, não como algo subjetivo, mas em uma pessoa bem definida e revelada: Jesus Cristo. Salomão não fala a qualquer um, ou como um qualquer. O rei mais sábio que existiu, escreve com intenção e propósito e cito abaixo a introdução do livro de Provérbios:
"Provérbios de Salomão, filho de Davi, rei de Israel. Para se conhecer a sabedoria e a instrução; para se entenderem as palavras da prudência; para se receber a instrução do entendimento, a justiça, o juízo e a equidade; para dar aos simples prudência, e aos jovens conhecimento e bom siso; para o sábio ouvir e crescer em sabedoria, e o instruído adquirir sábios conselhos; para entender provérbios e suas interpretação, como também as palavras dos sábios e suas advinhações."
- Provérbios 1.1-6-
Assim sendo, fica claro o objetivo fim de Salomão ao escrever. No verso 8 vemos que o fruto da repreensão muda de acordo com quem é repreendido. O escarnecedor, como vimos, se ofenderá e retribuirá o justo e sábio que o repreender com ofensas e, no mais ameno ataque, manchará o justo pela sutileza. Mas ao se repreender um sábio, este não proferirá ofensa ou manchará o justo, mas se alegrará em ser corrigido de seu erro. Temer a verdade acima de tudo é o nosso compromisso com Deus.
O que diferencia o sábio do escarnecedor? O que eles buscam. O escarnecedor sempre vai querer glória e conquistas próprias, enquanto o sábio desejará que a Verdade e Justiça prevaleçam a qualquer custo, ainda que ele mesmo seja o prejudicado. Por isso o que é de Deus deve, antes, sofrer o dano, desde que a Verdade e Justiça prevaleçam. Agora cuidado para não se deixarem guiar por perversões de termo, que confundem o entendimento de justiça e verdade. Os preceitos de Deus são nossos norteadores, e apenas eles.
"Dá instrução ao sábio, e ele se fará mais sábio; ensina ao justo, e ele crescerá em entendimento." (Provérbios 9.9)
Salomão instrui ao melhor dos quadros de correção e exortação. Sábios e justos corrigindo sábios e justos. Este, sem dúvida, é o melhor dos quadros possíveis para qualquer meio de convivência. Mas lembrem-se, esta sabedoria e justiça não são relativizadas a nenhum dos interlocutores, mas a fonte primária. Deus é o centro da instrução para gerar bons e desejáveis frutos.
O sábio não se faz sábio pelo muito a falar, mas pela qualidade do que fala e pensa e, sobretudo, pelo compromisso em dobrar-se ao que realmente é bom. O sábio sabe que ocasionalmente estará em erro e o ter outro sábio a corrigi-lo lhe garante crescimento e maturidade.
O sábio e o justo, citados no versículo, não são condições inatas ao ser humano visto que todos somos pecadores. Mas o sábio e o justo são aqueles que sabem o que buscam e estão dispostos a se expor e absorver o ensino da Verdade quando este se expressar. É fato e verdade que todos tropeçamos na vida diária. Mas aos justos e sábios, quando confrontados com o que é Verdadeiro, Bom e Justo, a disposição imediata é a concordância e arrependimento, somados a alegria e crescimento pessoal segundo os estatutos de Deus. Saber o que se busca, faz toda a diferença. Mas lembre-se, o ímpio e escarnecedor até consegue diferenciar algo que é bom e ruim, mas não há disposição de mudança e arrependimento neles, no sábio e no justo sim.
"O temor do Senhor é o princípio da sabedoria, e a ciência do Santo, a prudência." (Provérbios 10.10)
Aqui encontramos a resposta chave, como já dito, para o proceder com sabedoria e justiça.
Temer ao Senhor não é apenas "saber que há um deus", esta percepção não traz a ninguém temor, apenas vaidade e um espaço argumentativo onde há pessoas que creem no Único e Eterno Deus possível. O simples considerar a existência de "um deus" (deísmo) não expressa o que a palavra temor significa.
O princípio da sabedoria é o temor do Senhor. Este temor relaciona diretamente a consciência do que teme a total dependência dos direcionamentos de Deus e Sua Revelação. A sabedoria flui justamente da posição humilde e leal, que confia plenamente que o que Deus provê, diante da observação obediente de suas orientações, é o melhor para si e para outros. Por este motivo, que vemos a proposta de morrermos para o mundo e vivermos para Deus, não fazendo de nossa vida valiosa em momento algum, desde que atentos ao Senhor. O ser sábio em um mundo onde os valores e princípios comuns glorificam a Deus nos traz vantagens e respeito; Em um mundo pervertido e afastado dos valores de Deus, nos traz perseguições e aflições. O temor aqui posto, é a total aceitação de que tanto a permissão como a intervenção de Deus coopera para o bem dos que temem a Ele
A sabedoria que alcançamos, não é a que pode nos dá privilégios, mas a que permite que Deus seja visto em tudo o que somos e fazemos. Por isso o temor do Senhor é o princípio da sabedoria, pois de acordo com o que aprendemos dEle, e sabendo reconhecê-lo em Seus princípios, estaremos voltados a reconhecer quando Ele se expressar por outros, ou mesmo pelas circunstâncias que nos cercar.
E a "ciência do Santo" como sendo norteador da "prudência", se dá justamente pelo cuidado do sábio e justo de observar o Santo em todos os momentos. A prudência é uma das virtudes mais importantes (prudência, justiça, fortaleza e temperança) e não é surpresa entendê-la como sendo fruto de atenção ao Senhor, ao Santo.
No seminário adquiri uma ilustração que carrego até hoje. Não preciso me especializar em conhecer todas as coisas erradas para conseguir identificá-las na vida comum. Escolho utilizar a prática de um bom bancário em lidar com o preparo para identificar notas falsas. Ele não conseguirá estudar todas as notas falsas possíveis, mas ele se dedicará a conhecer profundamente as notas verdadeiras para que, quando de frente a uma falsificação, logo poder identificá-la. Assim devemos proceder como "a ciência do Santo", de forma que gozemos da prudência em todo o nosso proceder para que Deus seja glorificado.
Por tudo isto, suas ações definirá quem realmente você teme.
Não poucas vezes ouvi (e ainda ouço) muitos dizerem coisas do tipo: "O certo é assim, mas não é desta forma que as coisas funcionam", ou; "ninguém é perfeito", ou; "cada um tem a sua verdade", e por aí vai. Estas colocações demonstra de forma clara que não há temor do Senhor, mas sim um temor a outras pessoas, uma necessidade de aceitação que perigosamente os afasta de Deus e Seus preceitos. E este afastamento é comunicado a medida que, silenciosamente, a necessidade de aceitação se torna mais importante do que o processo de Santificação que, por vezes, nos cobra completar as dores de Cristo, no mesmo sentido que Paulo cita em Colossenses 1.24, onde lemos:
"Agora, me regozijo nos meus sofrimentos por vós; e preencho o que resta das aflições de Cristo, na minha carne, a favor do seu corpo, que é a igreja; na qual me tornei ministro de acordo com a dispensação da parte de Deus, que me foi confiada a vosso favor, para dar pleno cumprimento à palavra de Deus"
Em Efésios 4.11-16 temos a descrição dos responsáveis para se criar o temor (conhecimento que gera prontidão de arrependimento a Deus quando percebidos afrontosos a Ele), e o que é gerado na Igreja mediante tal ensino. Creio que deve haver algum erro tremendo na designação dos que assumem tais postos de ensino, visto que, conforme Paulo diz, tanto no texto de Efésios como no de Colossenses, eles não são comissionados por homens, mas diretamente por Deus. E, creio, por se perder esta direção vocacional de Deus, e tornado cargos e títulos como meros instrumentos de promoção institucional (temor de perder pessoas?!) as vocações foram atenuadas para "cargos de igreja", onde a ambição e busca de auto justificação direciona muitos no convívio eclesiástico.
Não há outra forma de sermos Sal da Terra e Luz para o mundo se não seguirmos sob o Temor do Senhor, e este só será obtido mediante o ensino, perceptível e aplicável de forma contemporânea, segundo Jesus Cristo nos deixou, e o Espírito Santo inspirou aos escritores das Sagradas Escrituras, nos dando uma missão importante:
"(...) e nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor e glória da sua graça, e pela qual nos fez agradáveis a si no Amado. Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas, segundo as riquezas da sua graça, que Ele tornou abundante para conosco em toda a sabedoria e prudência, descobrindo-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, que propusera em si mesmo, de tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra;"
- Efésios 1.5-10 -
Há uns que creem em predestinação, outros creem em livre arbítrio, teologicamente falando. Mas na prática, digo com tristeza, que poucos há os que assumem para si a responsabilidades como cristãos de serem agentes de transformação no mundo, buscando uma postura tal que, até os que não confessam a fé cristã, sejam convencidos das grandes vantagens de se construir uma sociedade que teme apenas os preceitos e mandamentos Daquele que criou todas as coisas.
Que Deus permita temor, sabedoria, graça e prudência aos que se chamam pelo Seu nome.
Deus abençoe a todos.
Davyson Gustavo de Moura Silva
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