Muito se discute hoje sobre a entrada da Igreja no cenário político, visto que houve uma demonização desta ciência, e também as instituições religiosas ganharam um contorno de recurso de controle da sociedade. Assim sendo, muitos líderes religiosos, conscientemente ou não, acabaram caindo na afirmativa atribuída a Karl Marx, lida na obra "Crítica da Filosofia do Direito" de Hegel, onde se lê que "a religião é o ópio do povo", no sentido de que a religião é um meio de entorpecer as massas. E a religião contemporânea, especialmente as que se dizem cristãs, saíram do palco de proeminência de grandes transformações na sociedade, para meros expectadores de acontecimentos políticos, chegando ao ponto inicial de demonização desta tão importante área da vida humana. Mas isto não sem as marcas da corrupção.
O texto do livro de Provérbios que abriu este artigo, refere-se a uma instrução de cuidado paternal com o caráter da caminhada do filho. A atenção não é apenas ao que diretamente é dito, mas ao princípio oferecido, e o caráter de quem oferece. Dentro de uma conjuntura de muito relativismo, como vemos hoje, é quase que irrelevante tratarmos de princípios, pois muitos perderam a noção do que isso significa e, talvez por isso, ao invés do cuidado com as marcas de pecado, negligenciam esperando apenas quando o pecado é declaradamente exposto. Quem gosta disso é o próprio diabo, que rege muitos em suas desatenções visto que ele não busca nenhum tipo de culto consciente, apenas ações de ofensa à Lei de Deus, de seus mandamentos e preceitos.
Claramente esta fala refere-se ao cuidado de não se quebrar o 8º Mandamento: "Não furtarás" (Êxodo 20.15). Lendo com atenção (e nem é preciso tanta atenção assim para se perceber, caso você tenha o mínimo de caráter) fica claro que o convite é para que se evite se juntar com quem busca causar dano a outros, e não sem violência (Pv 1.11,12), mas com o propósito final de ganhos e lucros, unindo-se em riquezas com aqueles que visam tirar de inocentes os seus recursos (Pv 1.13,14).
A violência precisa de resistência para chegar as vias de fato. Mas a agressividade ela é imposta em níveis graduais, que vão escalando de acordo com a necessidade para se alcançar um propósito. A importunação emocional e o terror causado pela ameaça armada, ainda mais quando estatal, é uma arma poderosa no controle de grandes grupos. Não é uma prática pouco vista na humanidade, mas que só vê recuo quando os oprimidos, geralmente a maioria, percebe que os opressores, geralmente em menor número, os temem pelo número. Mas isto precisa de um trabalho de despertamento, ou apenas quando extrapolado os recursos de agressividade contra as massas, há uma grande reviravolta na percepção de poder.
Por que digo isto?
Historicamente a Igreja Cristã foi responsável pelo grande despertamento da população. Foi o cristianismo que possibilitou a leitura e o aprendizado no mundo ocidental. Cristãos famosos trabalharam forte, muitos com preço da própria vida e liberdade, para trazer ao povo a consciência do valor da vida humana que Deus nos revela. Esta apropriação de valor permitiu às nações do mundo ocidental libertar-se de governos tiranos e sistemas que oprimiam o povo em diversos aspectos.
Não vou defender aqui nenhum sistema de governo, especificamente. O que defendo é a possibilidade de visão de princípios do povo. E a Igreja tem grande responsabilidade nisto, como sempre falo. A Igreja recebeu a incumbência de ser "sal da terra e luz do mundo"(Mt 5.13-16), mas o que podemos fazer quando o sal perde o sabor, e a luz é escondida?
O que vemos hoje é um grande sistema de apatia e de falta de compromisso com o Reino de Deus, mediante a desculpa de que "Igreja e Estado devem ser separados", uma perspectiva interessante, histórica, mas pessimamente lida hoje, e hipocritamente vivenciada por muitos líderes.
A tal separação entre Igreja e Estado é cobrada quando a Igreja (e digo povo de Deus, não instituições) deveria intervir democraticamente em decisões abusivas do Estado, sendo imposto por líderes que a Igreja não deve se meter com política. Mas é esquecida quando muitos líderes buscam benesses do Estado para suas atividades e vantagens, sejam pessoais, sejam institucionais. Com muita tristeza digo que A IGREJA DO SÉCULO XXI ESTÁ COOPERANDO PARA A CRIAÇÃO E SUSTENTAÇÃO DE UM ESTADO-DEUS.
Concordamos que o Estado não deve se meter nas questões de fé, salvo se isto fere a dignidade humana e ou o direito a vida e liberdade (não libertinagem), mas a Igreja deve sim se envolver e intervir nas decisões do Estado/Governo que ferem a manutenção da vida, da moral, da ética e da justiça (não a relativa de um judiciário pervertido, mas do verdadeiro sentido de justo, bom e verdadeiro).
No momento em que líderes, ou mesmo grupos de religiosos aceitam vantagens, presentes, ofertas, empregos e qualquer outra forma de benefício de pessoas ligadas ao Estado, em troca de corroborarem com a manutenção de poder deles, a tais líderes e/ou grupos, tornam-se cúmplices de corrupção, visto que o Estado nada produz, e para manter a estrutura de benesses e vantagens para os aliados dos que estão no poder, tiram dos inocentes, em forma de tributos e impostos, o que é necessário para pagar aos corruptos seja ativos, sejam passivos.
A Igreja deve gozar de uma profunda percepção de princípios e valores de Deus e, no momento que negligenciam com esta percepção, aliando-se por presentes e favores a grupos que extorquem inocentes, sob a clara ameaça da máquina do Estado, atacam diretamente os preceitos do próprio Deus, mostrando total falta de comunhão com o Pai, Senhor e Deus.
Um claro modelo de corrupção hoje na sociedade, envolvendo a relação entre instituições religiosas e estrutura estatal é a distribuição de vagas de emprego para certas instituições que se negam a apontar os erros, e se levantarem contra os abusos do governo posto. O simples fato de sobrecarregar a estrutura estatal por favores empregatícios ou vantagens de eventos, já faz com que a instituição religiosa concorde com o excesso de tributação necessário contra os inocentes. Fuja de instituições com grande número de favores no meio político.
As Instituições Religiosas, que se dizem cristãs, podem e devem promover uma grande mudança de mentes desde a base da sociedade, não continuar "abençoando" as formas abusivas de controle do Estado sobre a sociedade. Só assim podem ser vistas como Igrejas, e não apenas pelo fato de carregarem e falarem sobre doutrinas bíblicas, visto que: "Assim também a fé, por si só, se não for acompanhada de obras, está morta." Tiago 2.17
É preciso haver um profundo comprometimento de não só dizer o que se crê, mas de se viver aquilo que se professa. Nisto consiste o verdadeiro discipulado de Jesus Cristo. Muito embora muitos líderes defendam uma alienada afirmação que diz: "Para o Brasil, só Deus intervindo para mudar"; mas como esta mudança pode ser se os que são dEle não estão dispostos a serem agentes de transformação nem por ação, nem por testemunho. Suas vidas, apesar de muitos belos argumentos e doces palavras, não espelham os preceitos de Deus, nem tão pouco estão dispostos a sofrer o necessário para que o que bom, justo e verdadeiro prevaleça. Mordomos infiéis e que, fatalmente, levam outros a negligência.
Cada um dará conta de si, mas os pastores darão conta da vida das ovelhas (Hebreus 13.17), mas as ovelhas também terão sua responsabilidade. Que todos estejam alinhados com Deus em humildade e intrepidez nestes tempos difíceis, suportando-vos uns aos outros em amor, e honrando o Pai que está no céu.
Finalizo com a continuação da perícope do texto de provérbios, acerca daqueles que convidam "os filhos" para fazer o mal aos inocentes:
"Filho meu, não te ponhas a caminho com eles; desvia o teu pé das suas veredas. Porque os pés deles correm para o mal e se apressam a derramar sangue. Na verdade, debalde se estenderia a rede perante os olhos de qualquer ave. E estes armam ciladas contra o seu próprio sangue; e a sua própria vida espreitam. Tais são as veredas de todo aquele que se entrega à cobiça; ela prenderá a alma dos que a possuem."
Provérbios 1. 15-19
Não feche os olhos para a corrupção posta neste século. Deus não dorme!
Deus abençoe a todos.
Davyson Gustavo de Moura Silva.
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