Ao escrever este texto, quero enfatizar o cuidado com o alerta dado por Salomão no texto de Provérbios 6.16-19, onde se lê:
"Há seis coisas que o Senhor odeia; sete que ele detesta: olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, coração que trama planos perversos, pés que se apressam para fazer o mal, testemunha falsa que profere mentiras e aquele que provoca discórdia entre irmãos.
A convivência com pessoas nos faz transparecer nossas inclinações naturais, nos permitindo uma melhor apresentação de quem somos e, no contexto que estivermos, as pessoas sensíveis e preocupadas em uma melhor interação e resultados no grupo, estarão se empenhando em nos lapidar para que nos adaptemos ao convívio social daquele grupo de pessoas. Todo grupo tem suas regras e seus meandros, e a manutenção de afinidades e potencialidades que interessam para o desenvolvimento do grupo é responsabilidade de todos que tenham os anseios alinhados.
Na perspectiva cristã temos anseios que nos transcendem a vontade e desejos. Somos impulsionados a uma contracultura que a nossa humanidade não nos permite aceitar com facilidade, visto que o que ansiamos é fazer a vontade da carne, mas discernimos espiritualmente que a vontade do Espírito de Deus é mais importante para nós. O apóstolo Paulo fala sobre isto em Gálatas 5.17, onde se lê: "Porque a carne milita contra o Espírito, e o Espírito, contra a carne, porque são opostos entre si."; mas, no verso anterior, o próprio Paulo já aconselha, dizendo: v6 "Digo, porém: Andai em Espírito e não cumprireis a concupiscência da carne.".
Diante de um momento em que os excelentes e eternos valores e princípios de Deus estão tão perdidos e pouco verificáveis no nosso dia-a-dia, até mesmo para entender o conselho de Paulo em Gálatas se faz necessário explicações e reflexões profundas, posto que o entendimento de algo espiritual é, quase sempre, confundido com movimentos e espetacularizações de emoções, buscando realizações materiais e psicológicas que não custe coisa alguma ao ser humano que declara-se "espiritual". Ou seja, é necessário que seja evocado ao consciente da pessoa o que realmente ela tem buscado, para saber se os seus objetivos está preso na sua vida presente, ou se há um anseio verdadeiro e profundo de buscar agradar Aquele que é o Início e o Fim de toda a nossa existência.
João Calvino já disse: "O coração humano é uma fábrica de ídolos.".
A natureza humana busca, desde o Éden, a independência de Deus. Fomos tão perfeitamente criados que há algo em nós que nos faz tendenciosos a não querer limites. Mas é muito bom saber que muitos de nós teremos o desejo de estarmos com o Senhor, nos submetendo a Ele e nos arrependendo de nossos pecados contra Deus, embora imperfeitos. Não entraremos em méritos soteriológicos, mas o simples fato de que há homens e mulheres que foram/são/serão reconciliados com Deus através do sacrifício de nosso Senhor Jesus Cristo, nos permitindo a eternidade ao lado do Senhor contemplando Sua Infinita Majestade e Glória, nos permite vislumbrar a misteriosa Graça Redentora de Deus, apesar do que somos. Neste pensamento, é importante ressaltar que nenhum de nós se faz digno de honra ou mérito algum diante do Pai. Somos todos pecadores contra Deus, mas pela sua Graça e Misericórdia podemos ter a Reconciliação plena através do sacrifício da Cruz do Calvário, usufruindo do Amor de Deus.
Romanos 5.8: "Mas Deus prova o seu amor para conosco em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores."
Mas, o que tudo isso tem a ver com julgar ou não? Porque trazer tais elementos para esta reflexão?
Sobre a prática de julgar, observamos muito posicionamento que, por vezes, parecem contradizer-se. Isto se dá por haver sempre uma parcialidade sobre o texto sagrado no momento da pregação ou reflexão, onde o texto direciona (aparentemente) apenas ao julgar, ou ao não julgar. Mas esta aparente contradição se dá pelo fato de o pregador focar apenas no tema do sermão, por vezes, mas não no ensino bíblico mais amplo. Somados a isso, temos também que o próprio pregador tem suas intenções particulares, por vezes até com o bom intuito de exortar e ensinar os irmãos em uma determinada necessidade da comunidade, mas isto empobrece a mensagem ampla das Escrituras, condicionando aquele povo a uma mensagem relapsa de aparente fúria com intenções de redirecionar ações na comunidade para determinada direção.
Sobre este ponto, trago a parte inicial deste texto. O Povo da Cruz, aqueles que aceitaram O Caminho, que entendem-se como discípulos do Senhor Jesus e estão comprometidos em fazer a vontade dEle, estes devem observar a amplitude do Ensino Sagrado e perceber que é preciso fazer o necessário no momento oportuno, não para agradar ou submeter-se a pessoas ou instituições, mas atentos a uma plena submissão ao Deus Pai, Criador de todas as coisas, a Jesus Cristo, Senhor nosso e Redentor, bem como ao direcionamento do Santo Espírito que nos traz a mente o que devemos agir em determinados momentos.
Não Julgar!?
Na defesa do "não julgar", muitos utilizam textos como Mateus 7.1: "Não julgueis, para que não sejais julgados,". Mas uma pergunta que fica é: O uso deste texto é para negligência com a verdade, ou o medo de também ser julgado com a mesma medida? É assim que o texto continua, e o texto, ao meu ver, não visa a negligência com o ato de exortar e/ou julgar, mas busca que haja, antes disto, primeiro, uma atenção ao próprio testemunho e caminhada e, segundo, uma inclinação a também o ser exortado em nossos erros pessoais.
O cuidado mútuo é sempre um princípio explícito nas Escrituras Sagradas, tendo como um grande exemplo disto o episódio de Pedro e Paulo, em Antioquia, quando Pedro, reconhecido por Paulo como sendo uma das colunas da Igreja (Gl 2.9), esteve de forma repreensível (Gl 2.11) em agir de forma dúbia ao comer com os gentios, mas, depois que chegaram os judeus convertidos da parte de Tiago, se "apartou dos gentios temendo os da circuncisão" (Gl 2.12). Este cuidado com a Igreja mostra não só uma atenção subserviente apenas a Verdade, e não à líderes em atividades contrárias a Verdade, como também o cuidado mútuo que é necessário. Para a ação de repreensão de Paulo em desfavor de Pedro, como vermos em Gl 2.11, era necessário um julgamento de valores da parte de Paulo, bem como um julgamento de valores da parte de Pedro, o qual não houve registro de uma resistência quanto a repreensão do, até então, novo convertido Paulo.
Há também o texto de Tiago 4.11, onde se lê: "Irmãos, não faleis mal uns dos outros. Quem fala mal de um irmão e julga a seu irmão fala mal da lei e julga a lei; e, se tu julgas a lei, já não és observador da lei, mas juiz.". Mas espero conseguir trazer algo a somar na reflexão sobre este verso, trazendo de apoio textos como 1Pe2.1-8, Ef 4.31,32, Rm 2.1-8, 1Co 4.5-7, e convidando-os a perceber como o julgamento passa pela necessidade de uma autorreflexão e, sobretudo, de uma anuência com a Verdade encontrada na Revelação Especial de Deus, as Escrituras Sagradas, e não mediante vaidades pessoais.
Muito embora pareça ser que há uma proibição ao ato de julgar, esta impressão, mesmo nos textos que são mais comumente utilizados para esta demonstração, só o pode ser retirando-os de seu contexto imediato e, também, ignorando a Revelação completa das Escrituras. Assim fazendo, acabamos vendo pregações inconstantes, insustentáveis, providenciando apenas uma superficial exposição sobre o "não julgar" que tanto permite muitos saírem do seu direito como indivíduo, para uma imposição do seu individualismo com custas dos preceitos de Deus. Isto se dá pelo simples fato de criar-se uma narrativa que proíbe a prática da crítica sobre os comportamentos, palavras e ações, ignorando uma perspectiva transcendente a nossa pessoa, e aceitando por completo a perspectiva de Deus sobre nossas vidas.
Julgar?
"Sabeis isto, meus amados irmãos; mas todo o homem seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar. Porque a ira do homem não opera a justiça de Deus. Pelo que, rejeitando toda imundícia e acúmulo de malícia, recebei com mansidão a palavra em vós enxertada, a qual pode salvar a vossa alma.E sede cumpridores da palavra e não somente ouvintes, enganando-vos com falsos discursos. Porque, se alguém é ouvinte da palavra e não cumpridor, é semelhante ao varão que contempla ao espelho o seu rosto natural; porque se contempla a si mesmo, e foi-se, e logo se esqueceu de como era. Aquele, porém, que atenta bem para a lei perfeita da liberdade e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecido, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito.Se alguém entre vós cuida ser religioso e não refreia a sua língua, antes, engana o seu coração, a religião desse é vã. A religião pura e imaculada para com Deus, o Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e guardar-se da corrupção do mundo."Tiago 1.19-27 (grifos meus)
Temos, muito mais comumente, a instrução de não julgar. Como já dito, isto apenas com a obliteração de contextos imediatos e mais amplos das Escrituras Sagradas acerca do assunto posto. Mas, claro, para toda atividade que executamos na vida, há responsabilidades e princípios a serem observados. Não podemos objetivar atividades que ignoram valores, princípios e preceitos que transcendem nossa individualidade, mas é preciso atenção de onde buscamos tais valores e preceitos.
Independente da época ou região, do contexto cultural ou de fatores imediatos de conveniência ou custos para nós, sempre estamos entre diversos fatores de julgamento para determinar quais os valores seguimos. A nossa tendência mais natural de escolha esclarece os princípios que acolhemos em nosso interior (seja mente, seja coração, seja psique, chame como quiser), de onde buscamos a nossa fundamentação.
Se nossa escolha mais natural aponta para uma vantagem pessoal e individualista, apenas, mostra que os princípios que acolhemos cuida apenas de nossa existência e passamos a ser pessoas ainda mais egoístas e egocêntricas, nos impulsionando para julgamentos que não necessariamente busca verdade e justiça, mas um conjunto de vantagens que mantenha, amplie ou estabeleça nossa posição ou poder para nós mesmos.
Se nossa escolha mais natural aponta para a acomodação em um determinado grupo de pessoas, mesmo as custas de escarnecer de outros grupos que tenham parte em uma perspectiva de justiça e verdade, isto mostra que nossa fundamentação de justiça e verdade se baseia em uma aceitação de grupo, apontando para uma dependência comunal perigosa, que, por vezes, suplantará conceitos transcendentes que vem de Deus.
Se nossa escolha mais comum está fundamentada em Deus, em Seus preceitos e mandamentos, temos a certeza que teremos confrontos em nossa individualidade (que é naturalmente egoísta), e também com nosso grupo que temos afinidade (seja com todos, ou com alguns), mas este é o caminho mais seguro e correto a se seguir.
No texto de Tiago 1.19-26, como exemplo, percebemos sem muito esforço que a preocupação não é o julgamento, mas a fonte de onde jorra os valores do indivíduo. Na capacidade de reflexão e consciência de que o ser humano é corrompido em suas próprias justiças e que há uma resistência ao aceitar os preceitos de Deus para nossa vida (v21-22), afinal de contas, um enxerto é sempre algo não natural que se recebe, e o autor bíblico determina: "... recebei com mansidão a palavra em vós enxertada".
Não podemos esperar de nós mesmos, em nossos discursos mais bem elaborados, que possamos gerar algo bom se apenas dizemos o que as Escrituras dizem sem colocar em prática tais ordenanças (v23). A alegria do indivíduo não está em sua própria vontade ser fundamento de suas ações, mas na perseverança de buscar efetuar as ordenanças de Deus, revelada em Sua Palavra, que lhe permitirá a alegria garantida em Cristo Jesus.
Dito isto, o julgamento ou não, deve partir não simplesmente de uma circunstância momentânea, mas da preocupação de onde estamos arraigados. Certamente que este conselho não serve ao ímpio que vive em um contexto pervertido culturalmente, mas, apenas ao cristão que deve ser conhecedor de sua condição de vida que é de alguém que morreu para si mesmo e agora vive a vontade do Pai, não mais a sua. Se o tal sente que em seu pensamento, palavra ou ato há apenas um desejo egoísta e não há fundamentação em Deus, ainda que seja necessário uma intervenção no momento, é melhor guardar o juízo para si, e buscar em Deus a resposta necessária, evitando assim uma postura vã (cf. v26).
No verso 27, há um texto muito usado sobre a religião verdadeira, que muitos usam como apelo para obras sociais e ações de socorro. Mas comumente apenas o "visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações" é lembrado. Na grande maioria das vezes a terceira característica é negligenciada e esta, diz o texto: "...e guardar-se da corrupção do mundo."
Quem julgar?
Não será fácil sair da bolha cultural que sujeitou a sociedade ao abandono de uma postura crítica, ativa e objetiva quanto a uma condução mútua de boas ações como sociedade. Para isto é necessário, impreterivelmente, a ação de julgar. estamos vivendo, talvez, a época de maior abandono do conceito de fé, sobretudo, da fé no Único e Soberano Deus do qual todas as virtudes fluem e transbordam, incontestavelmente.
Mas onde mora a dificuldade de agir o julgar?
No geral, os nascidos até a década de 80, ao menos na minha região, Paraíba, ainda usufruíram de uma sociedade de maioria católica apostólica romana, com princípios e valores que sobrepujam em muito o que vemos hoje em meios evangélicos. Havia um cuidado desde a família nos modos de se comportar, no que se falava, no respeito, não só aos pais, mas aos mais velhos da comunidade, do vestir-se, nas responsabilidades como homens e como mulheres na sociedade. Pudemos observar na prática famílias organizadas e, como se dizia, tementes a Deus e aos seus mandamentos. Não havia celulares nem redes sociais, e até os telefones residenciais eram privilégio de poucos, mas o que fazia-se do outro lado da cidade, ao chegar em casa, nossos pais e avós já tinham conhecimento. Isso se dava porque havia uma preocupação com o todo, e a sociedade gerenciava-se em respeito pela boa condução. Isso, claro, porque havia uma orientação religiosa comum a todos, e os bons princípios fortalecia a sociedade em busca de uma vida comum virtuosa.
No passar dos anos com o fortalecimento de matérias como psicologia, sociologia e as filosofias mais humanistas e pouco preocupadas com verdades transcendentes e realidade comum, vimos uma migração desta consciência comum e responsabilidades individuais, para um fortalecimento do individualismo e de relativizações de valores.
Mas aos cristãos, a fundamentação não pode mudar, visto que os valores são permanentes e não podem ser observados de pontos de vista temporais ou humanos. Os princípios cristãos eclodem da Revelação Especial de Deus nas Escrituras Sagradas e não variam, pois Deus não muda.
O apóstolo Paulo escreve aos Coríntios, em sua primeira carta, algo que talvez nos esclareça alguns princípios do que julgar, e, sobretudo, quem julgar.
"Já por carta vos tenho escrito que não vos associeis com os que se prostituem; isso não quer dizer absolutamente com os devassos deste mundo, ou com os avarentos, ou com os roubadores, ou com os idólatras; porque então vos seria necessário sair do mundo.
Mas, agora, escrevi que não vos associeis com aquele que, dizendo-se irmão, for devasso, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com o tal nem ainda comais. Porque tenho eu em julgar também os que estão de fora? Não julgais vós os que estão dentro? Mas Deus julga os que estão de fora. Tirai, pois, dentre vós a esse iníquo."
I Coríntios 5. 9-13
Paulo nos permite uma perspectiva muito mais elevada.
Em termos de século XXI, é difícil entender, de pronto, visto que há uma tendência monástica na Igreja atual, ou seja, há um claro movimento de tentar enclausurar a Igreja em seus limites eclesiásticos, não como até a Reforma Protestante, onde monges eram a expressão de uma vida piedosa da Igreja Católica Apostólica Romana e, a partir de um monge, Martinho Lutero, surgiu a percepção de que afastamento da Igreja do mundo secular não era o que Deus havia planejado, tal qual se pode perceber no primeiro movimento de expansão do cristianismo, logo após a crucificação do Senhor Jesus, quando os primeiros cristãos decidiram fechar-se em Jerusalém, mesmo diante da ordem de Jesus em Atos 1.8, que diz: "Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas tanto em Jerusalém, como em toda a Judéia e Samaria e até os confins da terra."; A função da Igreja sempre foi testemunhar ao mundo, segundo o poder que vem do Espírito Santo de Deus, estando no mundo e não fora dele, assim como ora Jesus Cristo, no Evangelho segundo João 17.15: "Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal.".
Mas, neste mundo, teremos dificuldades que serão postas, não por Deus mudar Sua orientação, mas por a humanidade buscar meios cada vez mais criativos de contornar os preceitos de Deus. Hoje, em pleno século XXI, onde temos um vasto acesso a Bíblia Sagrada, em diversas traduções, muitos livros teológicos, pesquisas online em bibliotecas do mundo todo, pregações de diferentes vertentes para comparação, com tudo isso e muito mais, temos um total desligamento do sentido de fé, piedade, fidelidade, temor a Deus e, até mesmo, uma ignorância gigantesca acerca da pessoa de Deus e de seus atributos. Já hoje somos inescusáveis de nosso afastamento de Deus como sociedade.
Mas voltando a Paulo, no que escreve aos Coríntios, somando já o que o próprio Jesus direciona em Atos 1.8, e como parte da sua oração em João 17.15, é fácil perceber que devemos estar no mundo, sim, mas atentos a não sermos tragados pelo mal que nos cerca.
"Amados, peço-vos, como a peregrinos e forasteiros, que vos abstenhais das concupiscências carnais, que combatem contra a alma, tendo o vosso viver honesto entre os gentios, para que, naquilo em que falam mal de vós, como de malfeitores, glorifiquem a Deus no Dia da visitação, pelas boas obras que em vós observem."
Não pode haver temor em nós quanto ao que nos julgarão os de fora, ou pelo que venha a ser perdido. Se algo for perdido por não fazermos o mal, isto demonstra que estamos ainda incapazes de governar aquela região ou cultura, visto que os valores de Deus causam punição ou perda. E isto deve ser avaliado por nós, não como demérito, mas com alegria de sermos "perseguidos por causa da justiça" (cf. Mateus 5.10-12), mas também com empenho para que os preceitos de Deus possam ser observados na sociedade visto que, apenas assim podemos chegar a justiça e verdade na administração das relações humanas.
Mas Paulo enfatiza que a nossa preocupação deve estar, primeiramente voltada para o cuidado de não nos enganarmos com falsos irmãos que pervertem os valores no meio do povo de Deus. Estes devem ser excluídos do nosso meio e, para isto, deve haver juízo, ou melhor dizendo para um bom entendimento do artigo posto, julgamento.
Aqui não deixamos de passar pelo cuidado em observarmos os preceitos de Deus, vivermos estes preceitos (e não sermos apenas ouvintes), e assim desenvolvermos capacidade de julgar segundo os preceitos do Senhor, Deus todo poderoso, naquilo que Ele nos permite ver e vivenciar. Mas o julgar certo e errado, bom e mal, verdadeiro e falso, deve ser uma prática constante e ativa em nosso meio.
Quem julgar, então? A menor das preocupações deve ser com os que são de fora da comunidade cristã. Estes, segundo o próprio escritor bíblico, "Deus julga os que estão de fora.", a nós nos cabe começar o julgamento com os que são de dentro, e a inclinação à Verdade, não à narrativas parciais, individualistas ou coletivistas que visam vantagens pessoais, mas a Verdade que glorifica a Deus, esta inclinação trará a tona os que são de verdade, irmãos em Cristo.
O próprio Paulo, também escrevendo aos Coríntios, fala:
"Em primeiro lugar, ouço que, quando vocês se reúnem como igreja, há divisões entre vocês, e até certo ponto eu o creio. Pois é necessário que haja divergências entre vocês, para que sejam conhecidos quais dentre vocês são aprovados."
1Coríntios 11.18,19 (NVI)
As divergências não são um mal em si. O mal estar em que, diante de tais divisões, a escolha seja pelo mau caminho que não considera os princípios de Deus, tornando as decisões ofensivas ao que é bom, perfeito e agradável, tal qual o é a vontade de Deus (cf. Romanos 12.2).
Diante de tudo isto a maior preocupação em julgar não deve ser contra o ato de o fazer, mas baseado em que o fazer. É necessário reestabelecer a capacidade crítica da sociedade, de fomentar a ação de, diante de um fato, haver uma reflexão e, consciente de que o ser humano tem responsabilidades morais diante dos fatos da vida, ele esteja apto para agir sabendo que de sua ação desdobrar-se-á consequências de suas atitudes.
A função da Igreja é restabelecer um convívio onde haja a reflexão sobre os propósitos de Deus, ainda que sejam ateus a decidirem, mas que possamos ser competentes em ser a luz do mundo que o Senhor Jesus nos convocou a ser, resplandecendo a Sua verdade e justiça (Cf. Mateus 5.14-16).
No âmbito da Igreja, só haverá mau entendido em duas situações: Ou os irmãos não estão alinhados com a vontade de Deus e ambos têm vaidades em disputa; ou um dos dois está errado e precisa ser corrigido, mas é preciso que haja na comunidade cristão maturidade e total humildade de espírito para discernir diante de Deus quem está com a Verdade.
Que Deus abençoe a todos, em nome de Jesus.

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