"Mas Jesus, chamando-os a si, disse-lhes: Sabeis que os que julgam ser príncipes das gentes delas se assenhoreiam, e os seus grandes usam de autoridade sobre elas; mas entre vós não será assim; antes, qualquer que, entre vós, quiser ser grande será vosso serviçal."
O mundo tem uma divisão, sobre questões de direitos e liberdades, em o Mundo Ocidental Livre, e o Mundo Oriental, este recheado de culturas e povos com características ditatoriais contra a maioria do povo.
Sabemos também que esta divisão se deu com o advento do levante do cristianismo, fortemente fundamentado na moral judaica, e alimentado pela forte influência religiosa sobre o Deus Santo e Soberano que é Senhor sobre tudo e todos, sendo desta forma percebido como imoral é qualquer ação que fira a vida humana ou os direitos mais fundamentais do indivíduo, possibilitando assim sociedades que tratem a vida humana e os direitos individuais com séria responsabilidade. Este quadro só foi possível com a proliferação da fé cristã pelo mundo, massificando a consciência que nenhum governo ou governante pode atuar contra a vida humana, ou suas individualidades, desde que esta respeite os ditames morais e de preservação da vida e sociedade conforme naturalmente projetada.
Mas uma sociedade sempre será um meio de convivência de vários indivíduos, com suas particularidades e vocações, que precisam produzir seu sustento de forma honesta e justa. É certo que diante desta necessidade, temos muitas observações a fazer para ver como a consciência cristã produziu tais meios para um bom convívio em sociedade, mas neste texto vamos nos concentrar na regra básica do SERVIR como forma de melhor governar diante de Deus.
Para tanto, é preciso observar que, atualmente, muitos termos estão desconstruídos e ressignificados, não em benefício do ser humano, mas em seu próprio prejuízo, estruturando uma base para, o que eu chamaria de, NINRODISTAS (em alusão ao tido como o primeiro tirano nas histórias Bíblicas, segundo a tradição judaica, bem como a violência contra outras pessoas no intuito de centralizar e aumentar seu poder) viabilizem condições mentais e contra culturais ao que o mundo ocidental construiu, de forma que submetam outras pessoas ao domínio, abusos e, quando necessário (segundo o grau tirânico do regime) o expurgo de contrários. Claro que isso depende do nível de ação e abrangência do domínio, mas os princípios e objetivos seguem os mesmos padrões.
Não vamos aprofundar nas questões sobre Ninrode, mas aqui basta observar que a postura de impor poder sobre outras pessoas, contra a justiça e a verdade, por ganância e perversão da ordem natural, são marcas entre as quais podemos identificar indivíduos ou sistemas que vão contra os planos de Deus para a humanidade. Óbvio que a igualdade plena não é possível com as nossas diversas capacidades e vocações, mas, como disse, a base de melhor governar diante de Deus é o SERVIR, não o dominar. Seguindo a lógica bíblica, a igualdade não se dará em esperar ser igual em tudo, mas entender-se no processo e somar para a boa convivência de todos, com igual oportunidades e sem esmagamento de pessoas ou grupos moralmente alinhados na sociedade.
Pode parecer estranho uma introdução longa assim e, aparentemente, distante do que normalmente se ouviria em uma instituição religiosa, mas não acredito no Evangelho para dominar uma classe de pessoas ou setor da sociedade. O Evangelho de Jesus Cristo é o direcionamento de princípios e valores para que as sociedades sigam caminhos saudáveis para a manutenção da vida e para a glória de Deus. Não é uma promessa de Reino de Deus na terra, mas o compromisso de viver as tribulações que o Senhor Jesus nos advertiu que teríamos no processo de esforçar-se para falê-Lo conhecido, e trazer Sua Luz para a humanidade.
Dito isto, seguimos.
O texto do Evangelho de Jesus Cristo segundo Marcos 10.42-45, aqui um pouco mais estendido do que no início do texto, nos apresenta o esclarecimento do Senhor Jesus sobre a questão levantada pelos irmãos Tiago e João, ao solicitar que, quando na Glória, Jesus os permitisse sentar um a Sua direita, e o outro a Sua esquerda (Mc 10.37), pedido este que trouxe aos demais discípulos de Jesus indignação por se colocarem em posição de destaque, à despeito dos demais (Mc 10.41). Jesus de pronta resposta reforça o que havia dito anteriormente sobre a Sua morte, tratando sobre o peso de sua missão, mas logo em seguida à indignação dos demais apóstolos, Jesus traz a discursão a matemática do Seu Reino que não é sobre domínio, mas sobre serviço. E sobre isso que trataremos.
O ser humano é totalmente voltado ao desejo do poder, domínio e controle. Claro, uns mais, outros menos, mas a tentação acerca da possibilidade de dominar o que lhe cerca vem desde o Éden e perpassa toda a história humana, sendo apresentado de diversas formas. Nem sempre se faz questão de um domínio direto, mas, por vezes, especialmente hoje, com a explosão demográfica e cultural que temos no mundo, o desejo deste poder e domínio pode ser visto de forma indireta buscando ser visto ou amparado por alguém que detenha poder para ser um beneficiado por tal domínio. Isto não faz o indivíduo menos culpado, apenas um culpado incompetente ou preguiçoso por apenas querer ser um perverso amigo de rei.
A esta relação com outros, o Senhor Jesus, ensinando aos Seus discípulos, e nos permitindo chegar tal conhecimento pela Revelação Especial nas Sagradas Escrituras, propõe uma lógica matemática avessa ao que o padrão humano é capaz de produzir. O serviço não é visto como uma marca de poder, mas uma marca de submissão para o ser humano criatura, mas perfeitamente entendido pelo ser humano espiritual como sendo vocação natural aqueles que buscam seguir e servir ao Deus Único e Soberano Criador.
Após a revolta dos demais discípulos, Marcos registra que Jesus fala dos que "julgam ser príncipes das gentes", ou seja, que tomam para si uma autoridade que não lhes é natural, esses "se colocam como senhores das gentes e os seus grandes usam de autoridades contra as gentes". (verso 42).
Os termos usados por Marcos mostra que já era conhecido do Senhor situações que havia (e haveria) pessoas deste tipo. Onde o poder seria uma imposição não para o bem das pessoas, mas para dominar a muitos. Este comportamento não era algo aceitável nem natural visto que as autoridades segundo a direção de Deus serviria para valorizar o bem e punir o mal (Romanos 13.3), não trazendo terror aos que tem os valores centrados no Criador. Este seria o padrão de autoridade dada por Deus, mas, no verso 42 de Marcos 10, Jesus faz um claro alerta contra aqueles que teriam valores pervertidos e se colocariam como senhores de gentes por ganância e ânsia pelo simples poder.
Mas Jesus dá logo receita de como deveria se dá as posições de poder e autoridade entre os seus discípulos, não sendo por força ou imposição, mas pela capacidade de servir (versos 43 e 44). Mas como seria este servir?
Creio que muito problema se dá pelo entendimento do que significa SERVIR, isto porque vivemos em uma sociedade e cultura que foi imposto a posição da vontade de Deus como uma cultura ou filosofia comum. Isso foi aos poucos sendo fomentado ao ponto que a grande maioria dos ditos cristãos do século XXI aceitam uma postura de que o Evangelho é apenas mais uma linha de pensamento social, onde devemos nos colocar respeitosamente tolerantes a outras formas culturais de sociedade. Claro, aqui não digo sobre sermos contra pessoas, mas sim contra linhas de pensamento que ferem o que é transcendentemente moral e digno de ser exaltado.
O servir foi um verbo que perdeu o sentido cristão histórico, ficando atrelado apenas ao ativismo eclesiástico denominacional e/ou religioso, ficando impedido de atuar de forma livre e contundentemente expresso nas diversas esferas da vida humana. O resultado disso é que hoje muitos celebram dias e semanas de uma tal "Cultura Evangélica", o que não tem nada a ver com o ser cristão, ou seja, Sal da Terra e Luz para o mundo.
Esta semana mesmo, ouvi um conhecido teólogo brasileiro, inclusive conhecido internacionalmente, falando: "Quando eu leio o Evangelho, a vontade que tenho é largar tudo e viver apenas para servir ao Senhor.". Penso que este seja um posicionamento danoso para a compreensão do Servir Cristão, e isso ajuda a ressignificar termos e posições históricas do que é a viver servindo como cristão.
O SERVIR CRISTÃO, conforme apresentado no início do texto, possibilitou as grandes mudanças no mundo ocidental, viabilizando liberdade e possibilidades de crescimento para todos que estão debaixo de uma estrutura VERDADEIRAMENTE cristã, onde as pessoas moralmente se respeitam, valorizando os meios e métodos de preservação da vida em diversos aspectos. Isto, obviamente, passa pela ação política, seja governamental partidária, seja na gestão individual ou de grupos nas políticas de seus relacionamentos. O SERVIR CRISTÃO, apenas neste século, ficou aprisionado nas quatro paredes dos templos religiosos, mas antes moldou pensamentos, culturas e desenvolveu as ciências e as políticas nas relações humanas. Este sim era O SERVIR CRISTÃO.
Certamente que Jesus trouxe aos Seus discípulos naquele momento a consciência direta de que não deveria haver ganância nem orgulho entre eles, sabendo que o que lhes esperava no mundo era perseguições e tribulações, mas o humilde e corajoso posicionamento acerca da justiça e verdade de Deus entre os homens deveria ser o que eles deveriam atentar. Digo isto visto que todo o contexto apresenta O Mestre falando da perseguição que se seguiria, e do comissionamento que viria.
Para fixar ainda mais esta posição de condicionar-se a servir ao máximo limite do ser, o próprio Jesus faz a relação da Sua própria colocação no mundo para o bem de muitos. (verso 45)
Não é por qualquer motivo que os discípulos seriam conduzidos a um comissionamento pesaroso, mas por serem seguidores do Filho do Homem, do próprio Deus encarnado que lhes trariam a Vida, mesmo doando inicialmente a vida no Calvário. O segundo Adão seria posto na condenação do primeiro Adão, para que toda a humanidade pudesse ser Salva por seu Sacrifício. Louvado Seja Deus!
O próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas veio para servir. Serviu em vida trazendo instruções e princípios da Lei mosaica de forma a permitir aos que O aceitassem como sacrifício definitivo pudessem sacrificar-se a si mesmo dia após dia, não de forma masoquista, mas por amor ao próprio Deus, escolhendo os seus ensinamentos e preceitos ao invés das proposições de nossa natureza pecaminosa. E nas Escrituras Sagradas, nas páginas do Novo Testamento, vemos homens piedosos inspirados pelo próprio Espírito Santo traçando as orientações a se aplicar na nossa vida cotidiana, nas relações com o dinheiro, com ímpios, com sistemas de governo, com família e com situações diversas, como escassez, falta de saúde, desonestidade, morte, vida, desavenças e tantas outras coisas. Deus nos permitiu O Caminho de Salvação, como também a instrução para a santificação.
Não foi apenas uma sala de aula e um serviço teórico. Era necessário a morte e a pena do derramar a Ira de Deus sobre o pecador. Jesus, o Cristo de Deus, serviu ensinando e nos representando na Cruz do Calvário. E apesar de muita gente (encharcada pela cultura materialista ateísta que é imposta nos diversos ambientes da sociedade, e também chegou a muitos púlpitos) achar que o grande sacrifício foi a humilhação, a violência e o túmulo, o Grande Sacrifício foi o suportar o derramar da Ira de Deus e a total separação do Pai (tema difícil que eu não trataria apenas em um texto), mas Jesus o suportou por nós, dando a Sua vida naquela cruz e, por três dias estando morto. O Seu Serviço foi total e pleno para a Salvação de todo aquele que nEle crer.
A forma do Servir Cristão foi dado e exposto pelo próprio Senhor da Vida. Muito embora possa se ter apenas pregações religiosas, tratando o serviço cristão como apenas algo imanente a esta vida e existência, ainda que falando de uma "tal vida eterna", se o ensino do Servir Cristão não alcança cada espaço do seu dia-a-dia, lhe fazendo se posicionar totalmente contrário ao que fere os princípios de Deus, tal ensino não passa de vã doutrina, construindo "pseudo-mártires" ou "falsas testemunhas" do Senhor (1Coríntios 15.15). Ainda que acreditem na Verdade, não vivem conforme o que Ela nos instrui... e lembre-se, a Verdade é uma pessoa. A verdade é o próprio Jesus! (João 14.6)
Assim sendo, espero que fique a ideia da forma de governo de Deus entre os homens. É através do profundo compromisso de servir ao próximo que se pode identificar os capazes de conduzir os governados segundo a vontade de Deus. Seja na Igreja, seja na política, partidária ou de grupos. O princípio não muda, e sempre glorificará a Deus se assim for tido e posto.
Nem todos servem para governar, óbvio, mas os que governarão segundo a vontade de Deus, sempre estarão dispostos a servir, não a dominar. Se for alguém que queira domínio, os governados devem ter força e organização suficiente para se opor e depor tiranos. Que Deus assim seja glorificado no viver para o bem!
Deus abençoe a todos.
Davyson Gustavo de Moura Silva.
Amém 🙏🏽
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